Capítulo 1 - Mais Longe Do Que Posso Imaginar

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  Ouvi o alarme despertar ao lado de minha cama, dentro do meu quarto. Esfreguei os olhos, que ardiam com vigor, e bocejei. Larguei a bituca de cigarro, deixando-a cair entre meus dedos. Ela não estava vindo.
  Estava no telhado observando o nascer do sol no horizonte. Sabe, eu sempre achei o nascer do sol bem mais belo do que o pôr do sol. Os primeiros pássaros do dia cantando sua canção, como se saudassem o mundo em um primeiro voo cruzando os céus, em direção a um lugar bem longe de Blessed Golf.
  A gola de meu suéter cheirava a fumaça. Entrei de volta ao quarto pela janela, o vidro embaçado por conta do clima gelado. Por que eu esperava que Randall ainda viria depois de tudo que aconteceu ontem a noite?
  Ela dizia em fugir daqui, mas aqui é o meu lar. Isso não é a porra de um conto de fadas no qual sairíamos juntas como duas melhores amigas rebeldes nos aventurando pelo mundo. Essa é a vida real, por mais estressante e decepcionante que possa parecer. Eu não devia ter dado confiança sobre o plano desde o começo. Estávamos juntando dinheiro há meses para isso. Mas eu senti como se algo me prendesse. Me prendesse aqui.
  Talvez por uma sede insaciável de conhecer minha mãe. Ninguém realmente sabia onde ela estava, mas sentia que, se saísse da cidade, estaria jogada no mundo como uma agulha num palheiro. Como ela podia estar pronta para isso? Somos apenas crianças.
  Mas eu ainda esperei por ela no telhado como costumávamos fazer. Ela viria, trazendo suas malas e abriria um sorriso. Eu soltaria meu cigarro e desceria pelas telhas até o chão e iríamos nos aventurar pela Califórnia juntas. É, realmente parece irônico fantasiar sobre isso tudo depois de quebrar minhas expectativas com uma dose de realidade. Mas é isso que eu sou, uma contradição ambulante. E não é o que todos são?
  Eu só não entendia como Randall encontrava tantos motivos para querer fugir. Era a única filha de uma das famílias mais ricas de toda a cidade, era talentosa e simplesmente adorada por todos. Pensando bem, acho que isso é exatamente o porquê de querer fugir daqui. No final, Blessed Golf era pequeno demais para ela. Precisava de uma plateia maior para conter quem ela é. Randall é um acontecimento, é mais do que mais uma pessoa entre tantas outras. Era mais do que uma agulha no palheiro.
  Eu não podia acompanhá-la porque não tinha condições de fazê-lo. Eu era apenas uma garota qualquer. Nunca fui muito talentosa, mas não era estúpida. Não era antissocial, mas era reservada.
  Até diria que tenho pouca convicção, mas estaria sendo convicta demais ao afirmar isso. Eu não era o que as pessoas queriam que eu fosse. Eu era o que eu queria parecer para outras pessoas.
  Mas, no final, eu era uma garota comum.
  Randall e eu éramos como a Terra e a Lua. Ela era linda, cheia de virtudes, cheia de si. Eu, vivia em torno dela, como um acessório. Mas por algum motivo ela ainda me dava atenção, como se eu fosse um planeta como ela. Acho que é porque, no fundo, até a Lua tem a sua beleza se olhada bem de perto. E Randall era a única que parecia enxergá-la, mais do que eu mesma.
  Ainda haviam mais alguns cigarros sobre a mesa de cabeceira. Nem me dava mais ao trabalho de esconder. A luz do lado de fora irradiava contra o vidro, revelando uma certa camada de poeira entre o carpete.
  Deveria ir para a escola? Eu tinha que falar com Randall depois de tudo que aconteceu. Ela me entenderia? Mas e se ela não me perdoasse? O que eu faria?
  Deveria ir para a escola. Eu precisava ao menos ver seu rosto.
E o sol continuava cruzando o céu, deixando brilho aonde tocava como um gigantesco cometa incandescente, em um interminável caminho até o topo. Começava a sentir o primeiro calor do dia alcançar minha pele e me tirar daquele tom cinzento que antes estava.
Juntei algum material e dinheiro na bolsa e fiz meu caminho até a escola. No corredor de casa, passei na frente do quarto do meu pai; a porta fechada, ar-condicionado ligado. Pra variar.
A caminhada foi boa. Respirar um pouco do vento do verão fez bem para os meus pulmões após uma noite em claro respirando fumaça. Cara, eu devia parar de fumar. Randall vivia me convencendo de que era ruim e tal, e não discordo. Não fumei um único cigarro até essa madrugada. Ainda me tranquiliza de minha ansiedade.
Não encontrei nenhum conhecido durante o trajeto, o que, pra ser sincera, me agradou bastante. Só fui ao longo do caminho lentamente sincronizando o meu assobiar ao canto dos pássaros. Era meio que uma mania que todo mundo da minha família tinha. Minha mãe começou com isso quando desde que meu pai a conhecia por gente. Aí ele começou a fazer isso também, e me ensinou. Nunca mais vi ele fazer isso depois que mamãe foi embora.
Escola pública da cidade de Blessed Golf. Foi a frase que ressaltou aos meus olhos assim que percebi que me aproximava do colégio, em um grande letreiro ao fim do terreno. Não era uma escola ruim; construída em um estilo clássico inglês, cada viga de madeira encaixava perfeitamente às colunas. A grama era milimetricamente aparada, mal passando da altura da sola de meus sapatos. Alguns alunos transitavam de cá pra lá. Algumas faces familiares jogavam-se às esquinas das muretas, erguendo o cigarro e abrindo sorrisos em minha direção. Eu os retribuía.
  Randall não costumava se atrasar, e estranhei isso até perceber que era eu quem estava atrasada; ela provavelmente já estava dentro da sala. Preparei um pedido de desculpas para o professor mentalmente e empurrei a porta para o corredor principal.
  Andar sem ela me fazia sentir vulnerável, quase que despida. Como se todos me olhassem e notassem cada um de meus defeitos através de meus olhos inchados de uma noite mal dormida de choros. Me sentia desprotegida, como se os ventos quase pudessem me levar para longe, para o mesmo lugar que os pássaros iam quando amanhecia.
— Cassidy Evolwood.
Senti os pelos da nuca se arrepiarem quando ouvi aquela voz grave vindo por de trás das minhas costas. Podia sentir as expressões sérias do diretor Conrad, os olhos pequenos como dois pontos brancos numa face gorda e debochada me encarando com um olhar perfurante. Parei e virei-me lentamente para trás, esboçando o rosto que aparentasse mais incomodado que podia.
— Bom dia. Precisamos dar uma conversada. Na minha sala, por favor.
Ok, aquilo era estranho. Me chamar para sua sala por chegar atrasada? Tá legal que já era habitual, mas não sentia que aquela seria uma daquelas conversas bobas nas quais te forçam a dizer alguma coisa que a pessoa quer ouvir, mas no fundo você sabe que não concorda com aquilo. Borboletas tomavam conta do meu estômago. Segui-o até o final do corredor, sentindo as botas afundarem levemente no carpete naquele enjoativo tom de azul.
  Ele abriu a porta à minha frente. E, no mesmo instante, soube que aquilo não era sobre meus atrasos constantes.
  Monica e Oliver Lynde sentavam nas poltronas do escritório, a mulher enxugando as lágrimas com lenços tirados de sua caríssima bolsa de uma marca francesa e elevando a face entupida de maquiagem para olhar nos meus olhos com uma expressão sombria.
  Do outro lado, um homem vestido com trajes policiais saudando-me. Conrad contornou a escrivaninha e sentou-se em sua cadeira, me convidando a tomar um lugar à sua frente.
  Eu sentei, desequilibrada e confusa. Os pais de Randall cochichavam entre si, ela jogando o lenço dentro da bolsa e a largando no colo de seu marido, desconsertado.
  Conrad bufou e largou a mão pesadamente sobre a mesa, visivelmente requisitando que eu parasse de prestar atenção na bizarrice de tudo aquilo e ouvisse o que ele estava prestes a dizer.
  — Hoje de manhã, Randall Lynde não foi encontrada em sua casa e não está na escola. E, como amiga próxima dela, gostaríamos de saber se você tem alguma informação que poderia ajudar a polícia a encontrá-la.
  Espera.
  Que porra era aquela?
  Randall estava desaparecida?
  Ela tinha fugido sem mim?
  Ou era tudo uma coincidência macabra?
  O que eu deveria dizer?
  Quando todos perceberam que eu não iria me pronunciar de forma alguma no mesmo instante, visivelmente por choque, o policial tomou o lugar e começou a falar.
  — O que constamos até então é que Randall estava bem em sua casa ontem à noite, por volta de meia-noite. Pouco antes, Monica e Oliver notaram sua ausência. Ela havia saído de casa mas não mencionou o porquê, com quem e para onde estava indo. Você sabe responder alguma dessas perguntas?
  Pouco antes de meia-noite... foi quando nós duas discutimos sobre o nosso plano. Eu deveria contar a verdade sobre todos aqueles meses em que bolamos uma forma de fugirmos juntas para longe?
  Mesmo que estivéssemos brigadas... eu não faria aquilo, porque sabia que Randall faria o mesmo por mim. E sei que ela havia decidido partir sozinha, porque não era muito diferente das milhares outras crises de impulsividade dela. Não é como se ela tivesse sido sequestrada. No fundo, eu sabia, e esperava, que em três dias ela já estaria de volta e, aposto eu, concordando comigo que foi uma ideia estúpida e vivendo como se nada tivesse acontecido.
  — Não. Ela não comentou comigo em momento algum de estar saindo ontem à noite. Eu estava em casa assistindo o campeonato de tênis.
  Eu havia acabado de fazer uma decisão que não poderia ser desfeita em momento algum, mas sabia que não era a decisão errada.
  Primeiro de tudo, meu pai nem ao menos percebeu que eu havia saído de casa, porque raramente ele sai de seu quarto.
  Segundo de tudo, ninguém presenciou a nossa discussão e, portanto, ninguém poderia desmentir que eu havia saído de casa.
  Terceiro, eu tinha um álibi aceitável. Meu pai já foi um condecorado jogador de tênis, inclusive tendo jogado bastante com o próprio Conrad no verão passado no clube de tênis da cidade. Faria sentido eu gostar de tênis assim como meu pai, e eu sabia que estava tendo um campeonato porque ele simplesmente não calava a boca sobre isso. Sempre estava comentando de como aquele jogador russo era sensacional e como ele destruiria aquele canadense em uma partida casual.
  Eu pude ouvir o suspiro de decepção de Monica quando eu disse que não sabia de nada, visivelmente ansiosa por uma resposta positiva para que pudesse saber do paradeiro de sua filha.
  — Ah, pelo amor de Deus, deixe de mentira! — gritou Oliver, se levantando e cerrando os dentes.
  Eu sabia que Randall havia puxado a impulsividade de seu pai, mas puta que pariu, como Oliver era um sujeito sem noção e estúpido. Vivia se metendo em tudo, mesquinho que era, mas fingia-se de cego para todas as merdas que a filha dela fazia. Sem contar da porra do materialismo o tempo todo. A casa parecia um museu. Ah, e o detalhe mais importante: ele me odiava. Não sei o porquê.
  — Senhor Lynde, abaixe seu tom de voz, por favor. — decretou Conrad. Eu odiei ele um pouco menos na hora, por mais rabugento que fosse.
  — Cristo, vocês realmente acreditam no que essa garota está dizendo? Ela é uma garota impura e rebelde, não são novos os rumores do envolvimento dela com tráfico de drogas. Ela não quer admitir porque sabe que fez alguma coisa errada, isso eu posso afirmar. E eu vou descobrir o que é. — ele afirmou com desdém, o rosto vermelho, provavelmente de falar tanta merda em tão pouco tempo.
  — Isto é verdade, senhorita Evolwood? — perguntou o diretor. O policial virou-se levemente contra mim.
  — Eu namorei por um tempo com Carl Bloom, um garoto que estava envolvido com tráfico na cidade. Mas eu, inclusive, fui investigada pela polícia, mas eles constataram que eu não tive qualquer envolvimento com os negócios dele, assim como sei que não tive. Porém, acho que o senhor já deve saber disso, Oliver, já que o pagou diretamente para não comentar com ninguém de que Carl usava as frequentes festas que sua filha, Randall, dava em sua própria mansão como ponto de tráfico, não é mesmo? — ah, como eu esperei para jogar aquilo em sua cara. Ver sua expressão se transformar de uma atitude arrogante para um choque em questão de segundos me deixou mais satisfeita do que eu achava que deixaria.
  — CALÚNIA! — berrou, e eu me contive para não abrir um sorriso. — Senhor policial, o que essa garota está dizendo é uma mentira completa! Não acredite nessa traste!
  — Senhor Lynde, terei de pedir novamente para que abaixe seu tom de voz e não irei repetir. — disse novamente Conrad, parecendo ligeiramente incomodado. Monica não parecia concordar exatamente como a forma com a qual seu marido estava abordando isso tudo, mas também não parecia tentar o conter, só chorando e guinchando ainda mais alto. Foda-se, eu só queria ver o circo pegando fogo.
  — Oliver, esse não é o ponto por ora. Peço que acalme-se, ou só perderá ainda mais a razão que já não está tendo no momento. — disse o policial, sensatíssimo, o policial.
  Oliver pareceu envergonhado e se sentou novamente na poltrona de couro, provavelmente menos confortável do que as que ele tinha em casa.
  — Cassidy, obrigado por esclarecer a falta de envolvimento que você teve no caso da Randall. Não se preocupe com sua amiga, nós iremos achá-la. Mas, se você tiver qualquer coisa para dizer, por favor, ligue-me no meu número pessoal. — ele me passou um cartão com seu nome; "Charlie Davidson". Tá aí um nome que passou uma boa primeira impressão. Acho que podia confiar em Charlie. — Tenha um bom dia. Agora, ficarei para conversar com Monica e — ele bufou — Oliver.
Dei meia-volta e saí sem manter contato visual ou falar com ninguém. Eu não veria Randall tão cedo.
Passei direto pela porta da minha sala. Não era hoje que voltaria para a escola. De repente, senti um vazio no peito, como uma abstinência insurgente.
Lembrei de seu rosto em lágrimas indo embora na noite passada. Acendi um cigarro na volta. Foi quando eu comecei a contar os segundos para reencontrá-la.
E posso dizer que contei bem mais do que achava que contaria.

Não posso dormir (versão antiga)Historias para obsesionarse. Descúbrelo ahora