CAPÍTULO 01.

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Acordo com o pressentimento de que o dia não será produtivo. Nunca é. Tenho pesadelos toda noite, e sempre desperto por volta das 06h, e tudo some. Sonhos, sono e todas minhas ideias originais para um novo livro. Me canso dormindo. E não me conformo com a solidão. Já se passaram trinta quatro dias que estou preso nessa casa, e não sei ao certo se conseguirei continuar enclausurado. Sinto falta dela. E tudo que eu queria era que ela estivesse por aqui; andando pela casa com uma camisa minha enquanto surta com alguma coisa dita pelo presidente. Levanto e já vou acendendo um cigarro. Antes disso tudo começar eu tinha prometido parar de fumar, mas como se percebe eu não consegui e na verdade piorei o consumo. Vasculho o quarto com o olhar e percebo que não ouve mudança. E como haveria? Só tem somente eu aqui. Me alongo com a cinza do cigarro caindo sobre a cama, mas não me incomodo. Está tudo uma bagunça. Abro às janelas e deixo o pouco da luz solar invadir o quarto e de alguma maneira me sentir aquecido. Vou até a cozinhar e me deparo com uma pia cheia de louças que já não sei mais quanto tempo se encontra nesse estado deplorável. Bebo água, coloco um pouco na cafeteira e deixo fazer o trabalho dela. Estou cansado. Muito cansado para continuar. Mas tento mesmo assim, e pela centésima vez abro o computador e encaro às poucas linhas que eu preguiçosamente escrevi. Acendo mais um, e torço para que me venha algo e me frustro. Não tenho nada novamente. Merda. Merda. Merda.

Faz dias que tento concluir isso, mas o final nunca vem, e eu me culpo como sempre. Porque antes eu tinha inspiração suficiente e eu reclamava porque não tinha tempo, agora tenho tantas horas, dias e provavelmente meses e nada sai. Não consigo concluir uma simples linha. Doloroso demais essa busca por qualquer coisa mínima que seja pra abrir minha mente e me faça escrever. A cafeteira avisa que o café ficou pronto e impacientemente me sirvo e lembro-me que tenho que ir ao mercado comprar mais cigarros, café e qualquer outra bobagem que possa me alimentar. Não queria ir até lá, e me deparar com o Sr. Wilson com seu sorriso penoso no olhar e suas palavras reconfortantes: "Tudo isso vai passar seu Otávio." Acredito que tão cedo "tudo isso passa" porque já venho ouvindo isso há muito tempo. E nada passa, só os dias preguiçosamente e sem qualquer pressa. Os dias viram anos para mim. Mas não tenho coragem de ser pessimista com o Sr. Wilson, ele tem sido o único que tenta ser gentil e esperançoso.

No caminho como sempre evito olhar para às pessoas, não quero que os vizinhos do prédio me vejam na rua e me deem "olá", que mesmo amistoso eu nunca sei como responder. Ela sabe o quanto eu sou tímido, e que sempre evito falar com pessoas, há não ser que seja estritamente necessário. Ela me conhece tão bem quanto eu me conheço, e ela sempre ri quando eu digo que não quero algo porque sempre solta de uma maneira convencida: "Eu já imaginava." Sinto falta dela todo dia, e eu provavelmente já tenha pensado nisso umas duas vezes só hoje.

A pequena conveniência se encontra praticamente vazia e entro sem problemas. O Sr. Wilson me olha de uma forma amistosa e eu comprimento com um aceno de cabeça. Vasculho nas prateleiras algo fácil de se fazer e que não me cobre muito tempo. Sou preguiçoso. Admito. No balcão não preciso nem pedir; sobre ele se encontra dois maços de cigarros.

- Bom dia, Sr. Otávio! Como tem sido essa quarentena? Escrevendo muito? - ele sorrir com os olhos e isso me causa náuseas.

- Indo na medida do possível. - Digo desviando o olhar dos olhos sorridentes dele. - Tem sido tempos difícil para minha imaginação.

Me julgo internamente por ter dito isso. Ninguém precisa saber que não tenho conseguido escrever durante uma quarentena. Onde todo mundo está criando alguma coisa.

- Imagino, Sr. Otávio. É tempos complicados esses... esses dias mesmo um moço veio aqui chorando porque precisava conversar com alguém pessoalmente. Vê se pode!? O desespero do indivíduo me causou pena! Não podia manda-lo embora. Bati meia hora de conversa fiada com ele. Me senti um terapeuta. - Ele riu novamente com o olhar, e seus pupilas brilhavam... - Já imaginou? Eu, um comerciante, dando uma de terapeuta!

- Quarentena e suas vantagens! Provavelmente o senhor possa está descobrindo uma nova profissão.

O que está acontecendo comigo? Porque estou aqui ouvindo ao Sr. Wilson? Eu preciso ir embora e fumar um cigarro.

- Bem, acho que não. Eu já tenho meus problemas para resolver. Não posso ocupar meus ouvidos com os problemas alheios. Olha... vejo que o senhor anda um tanto que abatido... porque não leve essa garrafa de vinho? - diz ele pegando na prateleira atrás de si uma garrafa de vinho do Porto. - É a melhor que tenho aqui, e ela tem saído muito. Acho que pode te dar uma ajudinha.

Ele sorrir novamente com aqueles olhos brilhantes, e mesmo que eu queira evitar beber para não terminar essa quarentena alcoólatra. Aceito. Que mal fará uma garrafa de vinho?

- Está bem. Uma garrafa de vinho. Pode ser que me ajude de alguma forma. - Pego a garrafa e admiro como se fosse algum sommelier. - Mais um maço de cigarros por favor? Quando eu bebo elevo meu consumo de cigarros. Infelizmente é claro.

A esposa do Sr. Wilson morreu de câncer de pulmão anos atrás. Não sei como ele pode estar vendendo cigarros ainda mais agradeço. Não preciso andar mais quatro quadras até o outro mercado próximo.

- Claro.

No caminho de volta fumo finalmente mais um cigarro. Odeio esse vício horrível. Não gosto de estar fumando a cada minuto. Mas tem sido a única coisa que vem me acalmando ultimamente. Eu preciso me manter acordado para conseguir escrever, porque quando durmo nada me aparece. Não consigo ter nada quando acordo e me frustro por não me lembrar nem dos meus pesadelos. Tudo que eu preciso nesse momento é me deitar no sofá e assistir algo bem aleatório, como se com isso eu conseguisse roubar a ideia de alguém. Um fragmento de pensamento qualquer que alguém tenha colocado no personagem de Don Draper da série Mad Men. Qualquer coisa. Tento ouvir algumas músicas também. Conhecer novos artistas e crescer meu conhecimento musical, mas nem isso consigo e volto a ouvir os mesmos artistas de sempre. Procuro algo para fazer, mas na verdade não consigo concluir nenhuma atividade iniciada. Tenho que ficar vagando pelo apartamento até dar minha hora de dormir e torcer para que eu consiga acordar com algo no outro dia.

Quando eu era criança eu tinha a mania de colocar tudo o que pensava em um papel e no fim do dia lê-lo e tirar algo de construtivos dos meus pensamentos. Era uma atividade que me fazia bem. A maioria era um tanto que vagos e supérfluos, outros podia se tirar algo de construtivo e que valiam a pena o investimento. Hoje eu não consigo pensar em nada nem mesmo vago ou construtivo é só uma mente vazia e sem vida de verdade.  

QUARENTENAHistorias para obsesionarse. Descúbrelo ahora