After Hours

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Àquela altura nada mais fazia sentido. Era mais uma noite perdido em desperdícios. Eu já estava no estado quase catatônico e triste de observar como as luzes coloridas refletiam no rosto das pessoas e elas se misturavam de uma forma estranha. O efeito já havia passado e meu corpo agora estava apenas cansado. Parecia até que só meu coração batia e nada mais no meu corpo funcionava. Um torpor estranhamente confortável tomou conta de mim e, por um momento, a música desacelerou até tocar compassada aos meus batimentos. As luzes diminuíram ainda mais e fechei os olhos por um segundo. E por outro sonhei. E quando abri, ela estava ali.

Exatamente como eu me lembrava.

Minha visão preferida.

E diante de sua presença, mesmo que distante, eu nada soube fazer. Meu corpo estava adormecido.

Há quanto tempo não nos víamos?

Eu ainda conseguia ouvir a música acelerar aos poucos quando senti o desespero correr pelo meu corpo me fazendo sentir tudo de novo ao vê-la sair. Ela foi para o meio da multidão e eu me esforcei para sair do meu estado de choque. Um passo a cada batida e entrei no meio daquele monte de gente estranha e perdida, e então consegui ver seus cabelos enormes e selvagens ficando cada vez mais longe de mim.

Ela ia em direção à saída.

Entre xingamentos e esbarrões que quase me derrubaram, consegui me aproximar. Ela, contudo, era muito rápida e só me deixou ver o brilho lá de fora quando abriu a porta e saiu. Uma garota surgiu tentando falar comigo, mas eu mal conseguia me concentrar no restante. Corri para a porta quando me afastei da multidão e a luz me cegou por alguns segundos quando finalmente saí. Algumas pessoas ainda esperavam para entrar e passei por entre elas para finalmente chegar à rua, que, naquela noite, estava estranhamente vazia.

Olhei ao meu redor e lá estava ela, atravessando a rua principal, agora em seu passo charmosamente ritmado. Eu precisava correr e sequer entendia o porquê. Não sabia se teria algo a dizer depois de tanto tempo, mas precisava vê-la.

Precisava olhar em seus olhos mais uma vez.

Agora mais consciente, corri até chegar no mesmo semáforo que ela havia atravessado. Pensei em gritar seu nome para que se virasse, mas estava ficando cada vez mais longe. Aquilo tudo parecia uma miragem. Ela ali naquela rua deserta e as árvores altas dos dois lados com suas sombras dançando pelo asfalto.

Atravessei correndo e agora estávamos no mesmo caminho.

Ainda que de longe, com a rua estupidamente deserta, eu podia ouvir o som dos seus saltos contra o chão e aquilo me lembrava da última vez. Derrotado por mim mesmo, fiquei sentado no final do corredor ouvindo seus passos até a porta, mas antes ouvi o barulho das chaves que deixou no balcão antes de ir embora para sempre.

Eu ainda não estava perto dela, mas já não queria mais acelerar o passo. Já fazia tanto tempo, queria poder vê-la, simplesmente. Seu vestido parecia justo e escuro, mas eu não conseguia observar mais do que sua silhueta, que aparecia de vez em quando sob as luzes laranjas da rua, entre as sombras das folhas. Porém sem que eu percebesse, estávamos ficando mais perto. Perguntei-me se acelerei o passo sem notar ou se ela havia diminuído o ritmo.

Seus cabelos voavam para o seu lado esquerdo de uma forma agressiva e eu me lembrei de como estavam mais curtos da última vez.

E então, como um golpe, parei de andar quando um relâmpago cheio de ramificações brilhantes cortou o céu no meio e iluminou tudo, até mesmo ela que, por um segundo, pareceu notar minha presença e olhar para mim por sobre o ombro. O torpor não voltou, mas dessa vez senti o sangue congelar e quase me paralisar de vez.

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