Era inverno em Joinville. Escutei o barulho forte da chuva no telhado. Ao recordar, fico em remorso por não ter me despido e ficado todo o dia na rua sentindo o banho da água gelada sob mim, cujo ambiente estava bastante frio. Deveria ter me lançado nas grandes poças de águas acumuladas nas esquinas das ruas, assim como a gaivota se debruça nos mares como uma flecha sem rumo certo, seja por alimento, seja pelo intenso prazer de se refrescar. Sim, eu deveria ter aproveitado. Aqui, sinto o ardor da alta temperatura que me caustica cada vez mais.
Naquele dia, despertei às 7:30 h. Não tinha programado o despertador e a Esther, minha esposa, não me acordou 30 minutos atrás, horário que me levantava para ir ao trabalho, porém seria um dia de reunião. Ela tem dessas coisas, sempre que brigávamos uma noite anterior ela agia daquela tal forma. O motivo desta vez não era novidade, ciúmes. Ela me desrespeitou mais uma vez quando a vi conversando com Ricardo, nosso vizinho. Eu havia a proibido. Imaginem, um cara solteiro de meia idade dando notícia do falecimento de um parente seu a minha esposa. Não engulo essa história. Estive por observar seu olhar de leão faminto e estrategista à espreita por um bisão, por tempos. Prometi a mim mesmo que daria uma lição nele se eu avistasse mais uma vez esta cena. Tal olhar denuncia suas pretensões que tem com a Fabíola. Engano meu, com a Esther. Fabíola é minha amante.
Diferentemente das outras, Fabíola era especial. Ela era uma década mais jovem do que a mim. Tinha uma pele escura avermelhada tal como uma cor de canela. Grandes lábios volumosos e seu cabelo era longo e encaracolado. Um encanto. Fazia o tipo de garota que eu e meus amigos adorávamos molestar durante o ensino médio. Na verdade, seu tipo adorava ser molestado, isso eu acredito. Além de ter uma beleza exótica, pois não se via muitas mulatas por aqui, ela gostava de mim. Eu sentia. Julgo que com menos intensidade que a Esther, mas com maior intensidade que os lanches do último verão. Ah sim, que verão espetacular. Paula, Cristina e Bruna, das que me recordo e nunca as esquecerei. Trago comigo lembranças memoráveis delas, e as guardo com toda responsabilidade em minha consciência. Não me culpo. "Desejos do inconsciente" é o que dizem. Porém, nenhuma delas perdurou por muito tempo em meus desejosn, nem em suas vidas. Felizmente, dessa vez, o tinder me fez conhecer a Fabíola. Esta, sinto saudades.
Pois bem, até que o sofá estava bastante confortável daquela vez, e o insuportável do meu filho ainda não havia acordado. Uma coisa que tinha repugnância é me acordar com mal humor. Isto deixava meu trabalho bem mais exaustivo. Então, confesso que quando via Eduardo, de 5 anos, correndo pela casa, a ira que me ascendia como um farol de ambulância em luz constante me obrigava a gritar e certamente bater nele. Assim, eu passava o resto do dia irritado com isso. Ele não foi programado; nunca gostei de crianças. Foi fruto de mais um coito medíocre com minha esposa. Quando me recordo, me bate um arrependimento por não ter estado em abstinência sexual com ela antes. Por Deus, me arrependo. Na época, pensei até em mandar minha esposa abortá-lo, mas eu seria incoerente comigo mesmo. Eu defendia os bons costumes e odiava qualquer ideal esquerdistas. Galera hedionda.
Saltei-me da cama, e lembro-me de estar usando o pijama verde que meu tio paterno me presenteou 2 meses antes de sua morte. Tio Valter era de uma elegância ímpar entre os homens, simultaneamente um militar inspirador. Todas minhas ações foram visando ser similar a ele. Que homem integro. De longe, meu tio preferido.
Não tinha havido mais tempo para o café da manhã. Esther era uma esposa muito estúpida. Naquele momento, apenas tratei de minha higiene e devorei uma maçã. Estava quase apodrecida. Nojo. Recordo-me de ficar com ânsia de vômito após comê-la. Não entendo por qual propósito algumas frutas belíssimas têm que apodrecerem. Sei que com o passar do tempo, dependendo de cada fruta, elas amadurecem, mas a podridão é seletiva. Nós deixamos uns frutos escurecerem e escolhemos outros para nos nutrir. Sei que a escolha aparenta ser aleatória, mas na verdade, as escolhemos por conveniência e rejeitamos as que não aparentam bom paladar. Naquele dia, salvei uma maçã de se aprofundar ainda mais nas trevas do apodrecimento e de ser descartada ao lixo. Bobagem lembrar disso, mas me recordo. Também é atormentador para mim pensar agora em comida, desejaria neste momento saborear todos os frutos podres que me fossem postos. Ah como gostaria de me fartar por qualquer rejeito de comida.
Lembro-me de refletir sobre a maçã em minha Hilux, 15 minutos antes de chegar no escritório de meu sócio. Fiz da maçã uma alusão rápida ao meu passado, lembrei-me de fazer conjecturas das vastas decepções que me ocorreu a vida, mas terei toda a eternidade para refletir sobre isso aqui. Como previsto, cheguei atrasado, porém a reunião havia sido adiada para o próximo dia. Recordo de ter estado bastante irritado pois não tinha olhado a caixa de e-mails desta manhã, e visto o cancelamento da maldita reunião. Desocupado então, procurei fazer algo para aliviar minha tensão. Triste dia para isso. De todas distrações que eu poderia ter, escolhi estar com a radiante Fabíola. Marquei por WhatsApp me encontrar com ela imediatamente no centro. Ela aceitou. Eu havia percebido que ela se sentia incomodada em satisfazer meus fetiches. Mas ela gostava muito de mim, se existisse o amor, a Fabíola me amava.
Daquele novo destino, seriam mais 25 minutos de viagem caso não houvesse trânsito, pensei. As chuvas estavam contínuas e houveram vários casos de árvores caídas nas estradas. Um programa da rádio advertia o perigo que estava o trânsito e noticiava um acidente fatal. Não dei credibilidade, eu estava visando o adorável futuro que aguardava a Fabíola. Meu melhor sentimento em vida era de ditar os destinos das minhas amantes. Pessoas comuns expressam seus desejos em gozar a vida. Eu e tantas outras pessoas rejeitadas sentíamos o gozo pela morte.
Antes de sair de casa, mais cedo, eu tinha verificado se meus utensílios estavam todos em ordem. Em um compartimento no carro, havia materializado em objetos sexuais, e tendo sua essência nas ações feitas com eles, os meus mais profundos segredos que embora considerassem antiéticos, me fazia sentir um êxtase inimaginável ao vê-los e profundamente maravilhado ao usá-los. Cordas, algemas e correntes eram os mais usuais para as biscastes dos bordeis. Mas haviam também, facas, agulhas e um martelo para as criaturas mais especiais. Lembro-me do verão passado onde eu utilizei cada faca, cada agulha e claro, o martelo naquelas memoráveis lembranças. A tesão que eu sentia em usar estes últimos, eram tanta, que eu deixei o sangue delas nesses utensílios por meses, sem qualquer limpeza desde o primeiro uso. Eu me tornei um viciado. Naquele dia, sim, eu pensei que veria a Fabíola implorar o uso do martelo em vez das facas. Gostaria muito de ter contemplado tal cena. Por mero impulso dos fatores externos, escolhi aquele dia para me debruçar em um prazer extremo. Mas por ocorrência, também, de fatores externos, Fabíola a mulata que eu desejava mais que tudo naquele momento, infelizmente não sentiria o prazer de ser dominada por mim. Minha vida gozou-se de sua própria morte. Não sofri, só me recordo do barulho da colisão.
Agora, basta de falar sobre momentos passados! faz muito calor, as pontas de meus dedos e cabelos parecem estarem queimando. O odor de enxofre deste lugar é insuportável. Nuvens de vapor evaporaram de meu suor. Entre milhares de gritos e gemidos horríveis, fui informado que meu tio Valter já me aguardava na parte sudoeste desse lugar, comentarei minha desgraça com ele. Minha maior surpresa no momento é saber que Paula, Cristina e Bruna não estão aqui. Eu havia a certeza de que eram garotas más.
YOU ARE READING
Contos de Joinville
Short StoryUm livro, em contrução, com vários contos interligados ao conto principal "Último dia de inverno". Trata-se de uma investigação parcial sobre como desenvolve-se os desejos e ações maléficos no indivíduo sem trazer justificativas para isso. Buscamos...
