Celine sempre desacreditou em acaso, como uma amante enrustida de clichês românticos, não via o destino como forte aliado dos acontecimentos em sua vida.
Se contentava em ter o piano, suas duas melhores amigas e fones de ouvido como fortes aliados...
"Às vezes você se pergunta se essa luta vale a pena Os momentos preciosos estão todos perdidos na maré, sim Eles são varridos e nada é o que parece, A sensação de pertencer aos seus sonhos
Escute seu coração quando ele estiver te chamando... "
Listen to your heart- Roxette.
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12 anos depois.....
Levanto meus olhos, escutar música sempre foi algo que para mim se tornou tão vital quanto escovar os dentes de manhã. Se não faço isso parece que meu dia não começou como deveria.
Há quem não goste de escutar uma música mais de uma vez, mas ao contrário dessas suposições se pudesse escutaria minha música preferida a todo momento. Penso que ouvi-las não deve se restringir apenas a algo pra quebrar o silêncio, como um livro cada verdadeira música tem uma história que a torna peculiar, seja uma mensagem simples - ou de coração partido, na maioria das vezes- mas até quando não tem voz, seus nuances de tons devem despertar em nós sentimentos.
Todos os dias é assim desde que me lembro, a minha conexão com as notas vem de berço embora eu só me arrisque no piano e não tenha muita noção de cordas ou sopro, se querem saber. Mas bem, escutar as mesmas músicas para mim é poder reviver momentos importantes que só ela consegue nos envolver.
E até a mais rotineira das caminhadas ou quaisquer viagem se torna mais empolgante com uma trilha sonora apropriada.
Encostada no ônibus, observo através da janela a cada parada que o veículo faz. Gosto de imaginar o destino de cada pessoa que observo dependendo do que estou escutando, podem me chamar de louca desocupada - o que não deixa de ser verdade- mas é um bom passatempo.
Acho que o fato de devorar romances água com açúcar fizeram com que minha imaginação fosse mais fértil do que o recomendado para alguém psicologicamente saudável. Mas vejam pelo lado bom, gosto de imaginar o melhor para as pessoas.
Sentar no fundo deste veículo encostada na janela tem essa vantagem de que algumas das poucas pessoas que o usam para ir á escola sentem por aqui. Não sou anti-social, mas vai me dizer que gostaria de ser interrompida quando em meio a um dia chuvoso coloca a mão no vidro imaginando-se em uma cena de videoclipe? As pessoas me olhariam com sobrancelhas franzidas e narizes torcidos.
Lembram do que eu disse sobre imaginar o que irá acontecer com as pessoas na rua? Pois bem, meus olhos captaram um moço afobado na calçada que certamente está tendo uma manhã um tanto quanto perturbada. Ele tenta desesperadamente arrumar folhas e mais folhas de papel que simplesmente voaram da sua mão com um tropeço na calçada digno de ter seus cinco minutos de fama nas cacetadas do Faustão. Gostaria de ter visto mais e imaginar o desenrolar da história do rapaz desastrado, mas o ônibus passou rápido e parou novamente para pegar mais passageiros.
Voltei minha atenção nos bottons de bandas como Guns 'N Roses, Bon Jovi, Queen, Roxette, Scorpions, Backstreet Boys, e One Direction que foram fixados na bolsa em meu colo e comecei a tamborilar os dedos por eles, sentindo um pouco de saudade das teclas abaixo dessas unhas que notoriamente precisam de uma manicure.
O ônibus estava prestes a sair novamente quando num solavanco ele parece parar de novo para alguém entrar de última hora. Fiz uma careta, o barulho havia me assustado.
Daqui duas paradas estaria no meu colégio vivenciando mais um dia do terceiro ano onde se possível eles nos ofereceriam vestibular de merenda já que só falam nisso. Não que eu não ache importante, prezo muito pelo meu rendimento escolar e tento manter minhas notas acima da média. Só penso que tantas cobranças assim podem desgastar a mente dos alunos.
Mais um solavanco que me fez acordar. Desta vez não foi o ônibus, foi quando alguém sentou de forma abrupta mais perto de mim do que eu gostaria. Mas como uso transporte público não faz sentido reclamar.
Olhei de esguelha, um papel um pouco gasto nas extremidades era o que estava entre mim e o novo passageiro. Ao observar com mais atenção pude enxergar notas desenhadas e reconhecer que se tratava de uma partitura. Antes que eu pudesse captar mais detalhes uma mão a tomou de volta acompanhei-a e notei ser um rapaz que estava tão atordoado em suas organizações que nem ao menos percebeu que eu estava bisbilhotando o conteúdo do papel.
Permaneci calada afinal conversar e fazer amizades em ônibus não é uma coisa muito comum para quem prefere a companhia de fones de ouvido já que não dá pra carregar um piano por todos os lados. A janela do outro lado estava aberta e a fresta trazia uma brisa gelada que bagunçava levemente meu cabelo até trazer consigo uma folha menor que pelo visto não gostava nem um pouco de ser abrigada pelo dono.
Ela repousou no meu colo, peguei-a para devolver já que o rapaz evidentemente além de desastrado era desligado a ponto de não fechar a janela e muito menos a ver que eu estava com uma filha sua em mãos também. Mas aquele cabelo....
Aqueles cabelos pretos, não é possível.
Segurei o riso, quando ele virou tive certeza de que era o rapaz que a segundos atrás vi cair de forma desgovernada na calçada.
Ele sorriu mais de forma cordial e grata ao me ver com os lábios comprimidos sem pensar que o motivo do meu riso na verdade era sua queda quando entreguei a folha.
O ônibus parou novamente e era minha deixa. Levantei rapidamente recebendo um olhar amistoso do jovem desengonçado mas não esperei muito pra descer.
As meninas vão gostar desse acaso engraçado, aposto que vão rir tanto quanto eu.