Capítulo 1

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LAUREN

Existem um milhão de coisas que podem te distrair quando você está dentro da quadra jogando uma partida de tênis. Mas a última coisa que você pode fazer é deixar que uma delas realmente te atrapalhe. Pelo tempo que o jogo durar você precisa desligar o volume de tudo aquilo que está fora da quadra e aumentar sua percepção sobre tudo o que acontece com a bola, com a raquete e com seu adversário.

Era minha terceira chance de ganhar o sexto game e fechar o terceiro set. Só precisava de mais um acerto para que eu pudesse comemorar meu segundo título na Australian Open. Eu não podia me permitir perder essa chance, precisava muito dessa vitória. Até porque nesse ano eu planejava vencer os outros três torneios de Grand Slam e conquistar um Career Slam.

Respirei fundo e me preparei para servir. Eu fixei meu olhar na bola até que a raquete a atingisse com firmeza, lançando-a para o outro lado da quadra. Sofia Kenin, minha oponente, rebateu o saque sem dificuldades. Golpeei com um forehand, ou seja, com a minha mão dominante (direita), no seu canto esquerdo e ela conseguiu alcançar. Era nítido que eu estava estabelecendo o ritmo, tentando fazer com que ela corresse e se cansasse. 

Então, quando dei a próxima batida, Sofia tentou responder com um slice, movimento com a intenção de mudar a velocidade da jogada e quebrar minha estratégia. Entretanto, a batida não pegou como ela queria, o que resultou na bola chegando ao meu lado da quadra no ponto perfeito pra eu tentar explorar seu canto direito. Novamente ela alcançou, porém devolveu a bola em uma altura considerável e sem força. E isso foi perfeito pra mim.

Empunhei a raquete com firmeza, dei pequenos passos laterais para chegar na trajetória da bola e bati nela antes que estivesse na altura da minha cabeça, de cima para baixo, buscando o lado direito adversário. Soltei um gritinho pelo esforço do movimento, afinal depois de vinte e seis games meu corpo já sentia a exaustão. 

Quando a bola encostou no chão da quadra dura e eu percebi que tinha finalizado a jogada, pude finalmente me permitir aumentar o volume das coisas que aconteciam à minha volta. Ouvi os aplausos da plateia do Melbourne Park e uma pequena baderna feita pelos meus amigos e família.

Eu ainda estava embasbacada olhando pra arquibancada quando Sofia veio me cumprimentar com um aperto de mão. Ainda não tinha conseguido assimilar direito a ideia de que eu tinha ganhado outro título de Grand Slam. O primeiro foi no ano passado, porém meu sucesso foi interrompido ao não conseguir o mesmo desempenho nos outros torneios.

Mas esse ano é o meu ano, eu sinto isso.

Zackary, meu treinador, veio até mim com uma toalha branca em uma mão e uma garrafa de água na outra. Eu acenei rapidamente para minha torcida particular, que estava tirando inúmeras fotos minhas, e aceitei de bom grado o pano para secar o suor do meu rosto.

— Foi um ótimo smash, Lauren. Mas poderíamos ter fechado esse set bem antes.

O segredo do meu treinador era nunca elogiar demais. Ele faz o contrário de "morder e assoprar". Com ele é sempre: "Você é ótima, mas tem que melhorar". Eu já estava acostumada com isso. Trabalhamos juntos desde os meus dezoito anos, quanto o cabelo dele ainda era um ruivo queimado e não grisalho. E a leve pança que ele carrega hoje em dia ainda não existia.

Concordei com a cabeça e peguei a garrafa, tomando grandes goles consecutivos de água. Minha garganta estava seca, o ar não era dos melhores naquele momento em Melbourne, por conta da névoa de fumaça deixada após os incêndios florestais que ocorreram aqui na Austrália.

Match Point (camren)Onde histórias criam vida. Descubra agora