remember.

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1944. 

Lisa recebeu a notícia que partiu seu coração em uma tarde chuvosa e fria, enquanto estava sentada ansiosa. Sua perna batucava o chão sem parar, e quando o oficial murmurou as tão temidas palavras, a recém-viúva não se conteve.

"Senhora Manoban, sinto muito em lhe informar. Mas seu marido, soldado Chan, faleceu esta manhã após uma batalha contra nossos inimigos"

Ela o havia perdido, perdido o amor da sua vida e a pessoa que a acolheu mesmo quando nem mais sua família a queria. E nem ao menos tinha tido a chance de se despedir, a última vez que o tinha visto, faziam duas semanas. Seu coração pesava em seu peito e parecia que cada vez que ela buscava ar, ele lhe fugia. Ela o havia perdido.

Perdido ele, para sempre.

Com essa notícia cortante, levantou-se da cadeira dura com lágrimas descendo todo o seu rosto. Seu andar era desengonçado, cambaleante e seu rosto se contorcia na careta de dor mais horrenda que o Oficial Tanner já tinha visto, ele não era um homem de se comover perante a essas situações e por isso era ele quem dava essas notícias, sempre tratava como um assunto a parte e não se envolvia com as pessoas. Porém aquela jovem tinha algo diferente, não tinha fingido estar bem e ter partido para casa segurando todas as lágrimas que queria botar para fora e nem mesmo tinha sido falsa e feito uma cara de compaixão que na verdade era uma máscara para as mulheres que ficavam felizes em se livrar dos maridos. Ela já sabia que ele estava morto antes mesmo que Tanner abrisse a boca, e ele havia percebido isso. Ela já tinha um olhar tão partido em seus olhos que quando ele lhe foi confirmada a informação, ela agiu genuinamente e se deixou sentir a dor.

- Madame. - Chamou ele com seu tom de voz sério, pela primeira vez ficava sem saber o que fazer perante uma moça que havia lhe dado a triste notícia. Lalisa apenas virou seu rosto, que estava completamente abatido. - Não vá embora ainda, se sente e deixe que eu lhe ofereça uma água.

A morena fez o que lhe havia sido sugerido e foi se sentar, ela se sentia pesada e que a qualquer momento aquela cadeira quebraria com seu peso. Contudo sentou-se mesmo assim e esperou por seu copo d'água.

- Sinto muito ter que lhe dar uma notícia tão chocante quanto essa. - Os dois apenas ficaram em silêncio, mas Tanner estava intrigado demais para parar tudo ali. Deu a volta em sua mesa e sentou de frente para a jovem. - Ainda assim quero lhe dizer algo, admito cortesmente que fiquei deveras surpreso ao ver sua reação.

- Meu marido está morto. Como diabos eu poderia reagir? - Os olhos do mais velho dobraram o tamanho, ficou chocado com o comportamento de Lalisa mais uma vez. Não era comum que moças xingassem dessa forma, mas ao mesmo tempo ele entendia que ela era realmente diferente.

- Digo... muitas das mulheres que recebem esta mesma notícia, não se comportam como o esperado. Algumas até mesmo parecem comemorar.

- Se meu marido me maltratasse, não veria motivos para ficar triste. - Observou sem fazer muito caso. - Mas acontece que Chan não era assim, nunca foi violento comigo e me acolheu na pior época da minha vida e agora ele está morto, provavelmente jogado em uma vala qualquer e em outro lugar qualquer onde ninguém vai fazer questão de o tirar, sendo assim sou uma viúva aos meus vinte e dois anos e nem ao menos tenho um corpo para enterrar. Então não espere que eu me comporte dentro do esperado, não é como se isso fosse um simples estorvo em meu caminho. Eu provavelmente nunca mais casarei.

- Como pode ter tanta certeza? - Foi a única coisa que o velho oficial proferiu. Eram muitas palavras para digerir.

- Já viu alguma mulher que se casa duas vezes? - Arqueou uma sobrancelha ao perguntar. - Eu já, minha própria mãe e adivinha o que aconteceu? Era xingada todos os dias na rua, zombavam dela, falavam que ela havia sido desrespeitosa com meu pai que havia morrido e ninguém ligava em usar o nome de um morto para brincadeiras insensíveis, falavam também com um grande choque que não entendiam como um homem poderia aceitar uma mulher tão velha que já havia sido tão usada. E me perguntavam como era ter um homem que não meu pai ficando em minha casa.

made for me.Where stories live. Discover now