A Viagem

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Ela ouviu a marcha nupcial tocar no interior da igreja que estava prestes a entrar. Os grampos em seu cabelo prendiam firmemente seu penteado e já lhe doía à cabeça; tentava controlar o nervosismo a fim de que não suasse e evitasse derreter a maquiagem tão bem feita; as anáguas volumosas do vestido de cetim branco pinicavam suas pernas; seus pés metidos em saltos altíssimos doíam pela espera demorada em pé; o buque de lírios tremia nas mãos enluvadas.

Seu pai vestido a rigor estava ao seu lado e segurava um lenço na mão fingindo secar a transpiração enquanto secava as lágrimas que teimavam em correr pelo rosto. Sua tia lhe testava a paciência de tanto que arrumava a cauda do seu vestido a impedindo de entrar na igreja.

Estava nervosa, ansiosa e com medo. A marcha nupcial já estava tocando, era sua deixa, seu momento de entrar na igreja. Quando começasse a andar sabia que não poderia voltar mais. E não fazia ideia de quem encontraria do outro lado do corredor. Fazia tanto tempo que não o via que nem sabia se podia mais reconhece-lo.

Finalmente as tias deram seu vestido por satisfatoriamente arrumado, e então, as portas da igreja se abriram e ela pode ver a todos os convidados de pé para recepcionar sua entrada triunfal ao lado do seu pai.

Mas, de todas as pessoas que estavam naquela igreja, só uma era de real importância, só existia uma pessoa a quem seus olhas buscavam incansavelmente. E lá estava ele no altar. Vestido com o fraque preto, a camisa alva, a gravata num tom lindo de verde, que ele comprou especialmente para combinar com a festa. Sua postura com a costumeira rigidez, dureza e inflexibilidade, com o peito largo que davam a sua postura um ar ainda mais ameaçador, fazendo com que os diversos centímetros que o diferenciavam dela se estendessem ainda mais.

Sua visão dele esperando no altar era ruim. Ele permanecia em uma fresta entre o fotografo e a câmera que registravam a cerimônia. Mas, ela conseguiu ver o necessário: ele sorria. Mesmo com todo aquele ar e postura de gelar o sangue dos desavisados, ele sorria. Sorria para ela, que retribuía com um sorriso nervoso.

Terminou a eterna travessia do comprido corredor, então seu pai cumprimentou o noivo, e entregou a sua mão ao homem que a esperava o altar, saindo ao encontro de sua mãe. Ela não desgrudava os olhos daquele estranho familiar em meio a toda movimentação.

Quando ele ofereceu o braço para completarem o caminho ao altar, ela em vez de tomar-lhe o braço jogou-se em seus braços num abraço há muito esperado. Seus braços o apertaram forte, e ele logo lhe enlaçou a cintura retribuindo ao inesperado abraço. E estando juntos tudo se acalmou dentro dela. Foi como se não houvesse ninguém ao redor, o mundo desapareceu quando se encaixaram no abraço. Agora sim sabia quem era aquele homem, naquele abraço estava em casa.

— Eu estava com saudades. — ela disse com a voz trêmula.

— Minha saudade aumentou a cada segundo longe de você. — ele respondeu estreitando mais o abraço.

— Você está bem de verdade? Por que eu te conheço e sei que se você não estivesse bem você não me diria. Você se machucou? Comeu direito? Sofreu algum acidente? Tomou direito os remédios da gripe? — ela apelou, preocupada.

— Eu não fiz nem metade dessas coisas. E você me conhece muito bem. Mas, estou bem, estou inteiro.

— Você é um sacana. Me engana direitinho, mas sai inteiro das suas loucuras. —disse ela recostando a cabeça no peito dele.

— Já você, eu sei que nem preciso perguntar. Das minhas garotas você é a melhor. Sabe se cuidar muito bem, mesmo que esconda coisas de mim. — Ele apoiou a cabeça na testa dela, sentindo-a rir. Ela sabia que de todas as garotas dele – a mãe, irmãs e sobrinha – ela era a única que não corria pra ele no primeiro problema.

— Estava com medo você não vir. De não conseguir chegar. Não querer mais estar aqui.

— Nada, eu repito, nada me impediria de chegar aqui e me casar com você. Se o avião não pudesse decolar, eu o faria decolar; se o carro quebrasse eu correria milhas até aqui. Nada me impediria de começar hoje o meu futuro. Nada me impediria de passar o resto da minha vida com você. Nada me impede de chegar até você.

— Estou tão feliz por te ver. Só ouvir sua voz nos últimos meses não foi suficiente.

— Desculpe por ter te deixado sozinha com um casamento para organizar. Mas, eu não tinha escolha a não ser viajar.

— Que se dane a organização. Eu já ajudei mais noivas a casar do que posso contar. Quem me fez falta foi você. O seu abraço e o jeito perfeito como eu encaixo nele.

— Acho que devemos agregar aos nossos votos não marcar mais viagens tão longas. Dessas que nos mantém separados por tanto tempo.

— Três meses sem te ver e é aqui que te reencontro: no altar.

—Três meses e quando te vejo ainda me pergunto como você é tão linda que minhas lembranças não fazem jus a você.

— São seus olhos, meu amor, sempre tão bons e generosos.

— Não. Você é linda. Com ou sem toda essa maquiagem e roupa de noiva que te caem tão bem.

— Seu idiota... Eu estava com saudades dos seus galanteios baratos.

Ele riu contra o ouvido dela e se aconchegaram mais ainda no abraço.

— Eu te amo. E agora eu sei que cada vez que te vejo esse amor aumenta. – ele disse.

— Eu te amo, meu amor. Tanto que nem sei medir.

Ele beijou a testa dela, e ela a bochecha dele.

— Você aceita se casar comigo? Hoje? Aqui? Agora? Mesmo depois de todos esses meses longe?

— Sim. Eu aceito. — ela respondeu sorrindo feliz.

Ele ofereceu o braço a ela, que o aceitou e caminharam até o altar sob os olhares curiosos dos convidados. 

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