Todos me chamam de "O Curioso".
Não porque eu faça perguntas demais. Pelo menos, não apenas por isso. Também não porque tenha o péssimo hábito de mexer em coisas que claramente deveriam permanecer intocadas, embora eu reconheça que isso tenha contribuído bastante para a escolha do nome.
A verdade é que nunca fui muito bom em deixar as coisas em paz.
Se existe uma porta trancada, quero saber o que há atrás dela. Se alguém diz "não entre", geralmente é aí que começo a considerar a possibilidade de entrar. E se alguma coisa parece estranha demais para ser verdade, bem... provavelmente é exatamente aí que eu deveria estar.
Foi assim que ganhei meu nome. Ou minha condenação. Ainda não decidi qual dos dois é mais adequado.
"O Curioso" não é exatamente um apelido do qual eu possa me orgulhar. Mas já me chamaram de coisas piores, e algumas delas nem estavam erradas. Então aprendi a não reclamar. Além disso, "Curioso" tem uma vantagem: faz parecer que tudo isso foi escolha minha.
Não foi.
Mas, dizem que coleciono histórias estranhas.
Essa parte é verdade.
O que ninguém sabe é que eu não coleciono apenas histórias. Seria até mais fácil se fosse só isso. Histórias não ocupam espaço e, depois de algumas centenas, você aprende que não existe estante grande o bastante para guardar tudo o que já viu.
Eu guardo pequenas coisas.
Objetos encontrados no fim de cada história. Lembranças que ninguém sentiria falta. Artefatos estranhos que, em circunstâncias normais, provavelmente deveriam ser examinados por um cientista, um padre ou alguém com um seguro de vida muito bom.
Alguns artefatos parecem completamente inúteis.
Como uma chave que não abre porta nenhuma. Um relógio que parou em uma hora que não existe. Uma fotografia em que alguém aparece duas vezes. Pequenas coisas assim.
Para qualquer pessoa, lixo. Para mim, uma recompensa. Ou talvez uma chave. Ainda não descobri qual das duas coisas é pior. Porque cada artefato me aproxima um pouco mais do que realmente quero.
Liberdade.
É engraçado passar tanto tempo procurando uma coisa que todo mundo possui e quase ninguém percebe. Para a maioria das pessoas, liberdade significa poder sair de casa quando quiser, escolher onde morar ou decidir o que fazer da própria vida.
Para mim, liberdade significa simplesmente parar de fazer isso. Parar de procurar histórias. Parar de vagar pelas noites. Parar de obedecer aos meus guardiões. E, principalmente, voltar para casa. Se é que ainda me lembro de onde ela fica.
Não sei quantas histórias já colecionei. Centenas, talvez milhares. Perdi a conta há tanto tempo que tentar recuperá-la seria quase tão inútil quanto descobrir quantas noites passei longe de casa.
Da minha verdadeira casa.
Aquela que, às vezes, aparece nos meus sonhos em pedaços: uma janela, uma voz, o cheiro de alguma coisa que não consigo nomear. Nunca é suficiente para lembrar onde fica. Só o bastante para sentir falta. E talvez essa seja a pior parte de esquecer alguma coisa: você pode não lembrar do lugar, da pessoa ou do momento, mas ainda consegue sentir saudade.
Eu não sei há quanto tempo estou procurando. Só sei que, em algum lugar por aí, existe uma casa que ainda me espera. Ou pelo menos gosto de acreditar nisso.
Às vezes me pergunto se todas essas histórias estão me levando para mais longe da minha família ou se, de alguma maneira que ainda não consigo compreender, estão me aproximando dela.
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O Curioso 2
HorrorSegunda parte dos contos "O curioso" Se você ouvir um assobio no meio da noite, não procure de onde ele veio. Pode ser que ele esteja procurando você. Há anos, eu caminho entre histórias que ninguém deveria conhecer. Apareço onde alguma coisa está p...
