Era fim de tarde, nuvens negras impediam qualquer visão do sol tornando a paisagem lúgubre. Fazia frio, mais do que era esperado para a época e o casaco que vestia não era o suficiente para aplacar o ar gelado que penetrava o tecido e a pele, fazendo tremer até os meus ossos, nem mesmo a curta caminhada do colégio até minha casa fez com que eu me aquecesse. A sensação de anormalidade causada por aquela súbita frente fria e, que me acompanhou o dia todo, se intensificou, entretanto escolhi ignora-la um pouco mais. Tudo indicava que ainda que estupidamente adiantada, naquela noite teríamos a primeira neve da estação.
Retirei uma das alças da mochila do obro e vasculhei em seu espaço interior a procura da chave ao encontra-la, em um gesto automático a direcionei ao cadeado, para minha surpresa constatei que o portão não estava trancado. Estranho - pensei. Não era costumeiro o portão ficar destrancado, aliás, era uma das recomendações recorrentes dos meus pais:
- Certifique-se sempre de que tudo esta fechado, tanto ao sair quanto ao entrar - diziam eles.
Doze passos separam o portão de acesso ao pátio até o umbral de nossa casa. Com passadas largas e precisas em questão de segundos atingi o limiar. Se o portão destrancado me causou surpresa, meu maior espanto foi olhar para a porta e ver que esta se encontrava entre aberta, àquilo era estranho, algo fora do comum, minha respiração ficou ofegante e não foi devido a caminhada até ali, meu coração disparou, aparentemente sem motivo, bateu forte em meu peito e um pensamento repentino me assaltou: O que estava acontecendo? - pensei.
Uma sensação de inadequação se sobrepunha, eu via o panorama, mas estava deixando algo passar despercebido. Em fim a ficha caiu e eu tive consciência do que deixará passar. Apesar de estar escurecendo e as lâmpadas da rua estarem acesas, nenhuma luz vinha de dentro da casa, nem mesmo a claridade com efeito embaçado que geralmente se vê por de traz das cortinas em uma janela de vidro. Esse fato era inquietante e como se não bastasse a casa estava tomada por um silencio sepulcral, tornando aquele cenário ainda mais sombrio. Subitamente o silencio foi quebrado, um tilintar de metal se fez ouvir proveniente do interior de nossa residência. Reuni a coragem que não sabia que tinha e passei pela porta.
Agora dentro da casa percebia que ali estava tão frio quanto lá fora, minha respiração projetava nuvens de vapor no ar.
- Olá, tem alguém em casa? -perguntei, não tendo obtido resposta.
Era mais do que evidente que a casa estava vazia, não parecia haver viva alma ali. Onde será que estava todo mundo e de onde veio aquele som metálico? Difícil dizer. Algo estranho pairava no ar, algo que ia além do incomum de toda aquela situação e, me arrisco em dizer: - Beirando o sobrenatural! O silencio foi brutalmente quebrado, tornando tudo ainda mais tenebroso.
Ouvi outro barulho no andar de cima, o qual levou consigo toda a paz de espírito que me restava, era diferente do anterior. Eu precisava chegar à fonte daquelas batidas, para tanto subi as escadas, com passos lentos e cautelosos prestando atenção a tudo ao meu redor. Algo me incomodava, mas não sabia dizer o que.
Ao chegar ao final da escada me deparei com o corredor que dava acesso aos quartos completamente deserto. Procurei pela fonte do barulho que havia chamado minha atenção, mas agora o silencio reinava absoluto.
Pensei em retornar ao andar de baixo, já estava fazendo o movimento quando outra vez o barulho fez-se ouvir, assustado prendi a respiração. O som ali em cima era muito mais alto, também não pude deixar de notar que origem era no quarto dos meus pais, apreensivo coloquei a mão na porta girei a maçaneta. Dei uma boa olhada no quarto, para minha surpresa a fonte do barulho era a janela entreaberta cuja persiana batia quando o vento soprava. Respirei aliviado e, por um tempo foi só o que fiz, ficar ali respirando em silêncio.
Retornei o andar de baixo e fui para cozinha, porém não havia ninguém lá. Onde será que está todo mundo, era a pergunta que não abandonava meus pensamentos. Eu ainda não tinha a resposta. Meu coração se aperta, o que está acontecendo?
Retorno à realidade, a casa range. Barulhos estranhos parecem vir do porão. A luz pisca, sussurros e sombras parecem surgir em cada canto, a casa parece ganhar vida, meu coração dispara. O que está acontecendo essa é a pergunta que fico me fazendo o tempo todo.
Procuro me acalmar, sem muito sucesso. Ouço outro barulho, agora de metal sendo arrastado. Este parece vir do porão. Agora eu sabia de onde tinha vindo o som metálico que ouvi ainda no lado de fora, mas saber não ajudava em nada Eu deveria checar? Era o que eu me questionava o tempo todo, os males poderiam ser maiores do que os benefícios. Tomei coragem para investigar a fonte dos ruídos, me dirigi até a porta do porão apesar do frio congelante minhas mãos estavam soando, mesmo assim sigo em frente, eu não queria olhar, mas era tarde demais o que quer que estivesse ali eu enfrentaria de frente.
Desci pela escada, estava ainda mais frio ali em baixo, a ponto de me fazer estremecer, a porta se fechou com brusquidão atrás de mim gerando um som estrondoso que ecoou pelo ambiente. Gosto de pensar que naquele dia eu não poderia ter agido de forma diferente que tudo aconteceu exatamente como deveria acontecer.
Olhei ao redor, os tumultos que ocorriam em minha mente diziam que eu deveria esperar uma monstruosidade disforme. Não foi apenas uma olhadela, foram momentos de análise minuciosa e para minha surpresa o que vejo não é exatamente o que pensava estar ali, solto o ar que não sabia que estava retendo e um cheiro acre invade minhas narinas. Era apenas meu irmão, coberto de graxa consertando o aquecedor que havia quebrado.
Eu me encontrava diante dele que, certamente captava a surpresa estampada em meu semblante, me abordou com um olhar interrogativo, uma pergunta silenciosa para a qual eu não tinha uma resposta. Não senti necessidade de explicar, porém, senti necessidade de falar para quebrar aquele silêncio constrangedor. Não fiquei surpreso ao perceber que seus olhos me fitavam com atenção. Dentro do limite do razoável, questionei sobre nossos pais, ele me disse que foram fazer compras e que logo estariam de volta. Pediu-me para lhe buscar uma chave inglesa pendurada na parede oposta, onde estava afixado um painel de ferramentas e seguiu com sua empreitada, aquela prometia ser uma noite gelada e seria essencial consertar nosso provedor de calor.
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A Casa
Short StoryOnde o que é real termina, o medo cria asas no embalo da imaginação.
