C-Beams riscavam o espaço ao redor do Cargueiro Classe-Seis, Moeb-IUS, em linhas curvas, brilhantes e coloridas, dando à Carla Tomaz a agradável sensação de deslocamento. A Capitã descansava confortável na cadeira de comando contemplando o negrume do espaço no Setor Ganímedes IV através das grandes janelas panorâmicas da ponte. Os assentos vazios à sua frente não lhe despertavam interesse algum e era até melhor dessa forma. Podia despender o tempo para preencher o vazio dentro de si. Vivenciava-se pelo que era: uma fina película de vida em um obscuro e solitário torrão de plástico e metal, suspenso em um dos muitos infinitos em expansão; um átimo existencial cercado por planetas, estrelas e galáxias, cada um destes uma minúscula fração da grande e envolvente escuridão cósmica. A invariável certeza de sua irrelevância, algo enlouquecedor para muitos, lhe era tão banal quanto uma maçã madura em uma árvore inglesa no século XVII.
Sempre houve, entretanto, um lugar específico em Carla incapaz de ser preenchido. Era como um buraco negro alojado no interior de seu coração há 20 anos e cuja presença se confundia com o seu ser. Este lugar, peculiar e próprio, já há alguns ciclos parecia apenas uma vaga lembrança na qual a existência se dava pelo simples costume de existir: não fazia mais sentido, mas continuava ali, a se alimentar e se fazer notar.
— Major, estamos nos aproximando do destino — ecoou pela ponte a voz masculina e metálica.
Carla Tomaz despertou de seu estado contemplativo. O computador central marcava exatos 13 minutos para o portal, em grandes números vermelhos sobre a holomesa de comando.
— Comece a desaceleração relativa e estabilize a órbita com o portal — comandou Carla, correndo a mão sobre as imagens e verificando uma porção de gráficos e escalas.
— Como quiser, Major — aquiesceu respeitosamente a voz.
Carla franziu o cenho por um segundo, o novo título lhe era desconfortável, quase insólito, como todos os acontecimentos dos últimos ciclos. Ainda não lhe estava claro se a vida havia se transformado em uma grande piada de mau gosto ou em um fabuloso milagre, mas agora não faltava muito para descobrir.
Abandonou a ponte de comando satisfeita com as informações coletadas e deslizou pelos corredores de paredes cilíndricas e bem iluminadas. Impulsionou-se com os braços e pernas, como já havia feito diversas vezes em sua não-tão-longa carreira, acenando para as portas automáticas no caminho que se abriam com um movimento limpo e preciso. No caminho cruzou, sem destinar atenção, por meia dúzia de quartos privativos desabitados cujas portas fechadas ainda ostentavam os nomes de seus antigos ocupantes.
A certa altura tomou uma estreita passagem circular para os andares superiores flutuando em frente a uma escada de marinheiro até uma sala pequena e abarrotada de armários e equipamentos.
Nunca imaginou que sentiria falta de Dimitrii. Era incrível como ele conseguia tirar alguma coisa daquele turbilhão de informações saltando em diversas telas ao mesmo tempo.
Procurou pelos números dos propulsores de grávitons. 90.620 Gr's. Parecia bom. Não que o número lhe fizesse qualquer sentido, mas estava verde. "Espere pelo verde, Tom. Verde é sempre um bom sinal.", era o que Max lhe dizia sempre que algo ruim parecia prestes a acontecer.
"Max..."
Sacou um estreito cordão prateado pela gola da blusa. Em seu enlaço resplandecia um anel dourado com uma pedra triangular verde e brilhante. O ar ficou pesado e o ronronar abafado dos propulsores lhe esmagou. Colocou o anel no dedo certo da mão direita por um instante e as imagens vagueando pela mente tomaram a forma de uma vida interrompida.
— Major, meus sentidos indicam uma descarga de CRH em seu hipotálamo. Está tudo bem? — entoou a voz robótica pela sala de engenharia.
— Já não lhe disse para retirar estes malditos scanners de cima de mim? — irrompeu Carla enquanto guardava o anel dentro da veste laranja.
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ODDITY
Short StoryUma série de eventos inesperados guiam a Capitã Carla Tomaz para uma última e reveladora viagem a bordo de seu cargueiro espacial. Será a realidade exatamente o que parece? Inspirado no primeiro grande sucesso de David Bowie, este conto de Ficção Ci...
