Café.

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          Roberto chegou cansado no vilarejo de São Caetano. Seu transporte atrasou. O que foi uma pena, pois perdeu a recepção de boas vindas. Alguns bêbados ainda estavam terminando as últimas garrafas de cerveja já pagas. Roberto passou despercebido por eles. Parecia não se importar com os amigos, ou talvez eles não se importassem com Roberto. Para ele tanto faz, não ligava mesmo para essas chatas reuniões com pessoas ainda mais chatas. As hienas do escritório, como ele costumava fantasiar. O recepcionista da madrugada o acompanhou até o seu quarto. Este ano ele ficou sozinho, no menor e mais desconfortável quarto da pousada construída em cima de uma pedra. Roberto não esperava tratamento melhor, já que mais uma vez seu nome foi esquecido e incluído as pressas no último momento. Para ele tanto faz, não ligava mesmo para esse erro idiota causado por uma pessoa ainda mais idiota. Mas pelo menos ele ficou sozinho, não precisou dividir o quarto com nenhum puxa saco. Roberto se deitou na cama e seu corpo começou a coçar por inteiro. Logo se levantou. Talvez fosse um parasita defendendo sua moradia. Roberto abanou cinco vezes o lençol e com certa dificuldade trocou de posição o antigo colchão, que mais parecia uma tábua. O calor e os mosquitos estavam insuportáveis. Duas das coisas que Roberto mais odiava. Demorou um pouco, mas ele conseguiu abrir a pequena janela de carvalho preto. E para a sua sorte, a vista parecia ser agradável à luz do dia. Ao longe, ele olhou concentrado, pequenas luzes dos barcos pesqueiros, que não paravam quietas, sumiam e apareciam a todo o instante. Na escuridão ele quase não enxergava nada, mas ouvia o forte barulho das ondas quebrando nas pedras. Foi preciso amarrar a janela para não se fechar. Certamente se tivesse batido forte, se partiria ao meio. Roberto usou o próprio cadarço de seu único calçado para tal gambiarra. Roberto não conseguiu dormir. Levantou-se. Bateu a cabeça no teto. Deitou-se novamente. Já não bastasse a insônia provocada talvez pelo excesso de adrenalina durante a truculenta viagem de Jeep até a pousada, juntou-se a falta de sono uma dor de cabeça tão insuportável quanto os mosquitos e parasitas que ainda insistiam em defender seus territórios. Roberto tomou remédios e conseguiu dormir. O recepcionista da manhã foi até o quarto dele, pois todos já estavam de pé terminando o café da manhã. Inclusive os bêbados da noite passada, que secaram todas as garrafas de água de côco da mesa. Ele bateu três vezes na porta. "Senhor Roberto, acorde! O horário do café terminou". Talvez Roberto tenha exagerado nos remédios e ainda estivesse dormindo como um urso hibernado. O rapaz resolveu abrir a porta usando a chave mestra. Encontrou o quarto vazio e a cama arrumada. Os pertences de Roberto e as roupas sujas do dia anterior estavam ao lado da cama. Surpreso, achou que talvez ele já tivesse se juntado aos outros. A pousada não é grande, mas possui alguns corredores mal planejados. Quem sabe eles passaram um pelo outro e nem perceberam. Para Roberto tanto faz, não ligava mesmo para café e nem para as pessoas que gostavam de café.

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