Elaine Deschamps era, na maioria dos aspectos, um exemplo de mulher. Tinha o temperamento calmo e gentil, além de uma paciência e complacência exageradamente presente em todas as suas ações e discursos.
Talvez fosse essa mesma complacência a causa da situação em que se encontrava. Era uma mulher inteligente, mas seu caráter influenciava muito nas decisões que tomava e por isso, como toda boa filha faria, casou-se com Alberto Inácio Sales Espanca - sendo este escolhido á dedo por seu pai.
Alberto Espanca era, aos olhos de fora, um homem excelente. Tinha um bom porte, não era alto, nem bonito, mas carregava uma enorme status junto ao título de Barão do Café - título que herdou do avô devido aos serviços que este prestou á Coroa. Quanto á riqueza, em sua maioria vinda da família da esposa que era composta por empresários franceses riquíssimos, ela foi usada para a compra de várias posses o que incluía um belo casarão ao Sul da Província de São Paulo. O Coronel Espanca, como Alberto era conhecido, casou-se com Elaine pelo mesmo motivo que ela casara-se com ele. Dever. Obrigação. Honra? Do último não tenho tanta certeza afinal, nada ele fez para honrá-la.
Foi um péssimo esposo desde o início do casamento. Era distante e rude, não deixava a mulher sair de casa sozinha com exceção da ida á igreja e das visitas de cortesia aos casarões da vizinhança.
Elaine achava que o nascimento do primeiro filho deles seria a solução para tal frieza da parte do marido.
Pobre criatura, não podia estar mais enganada.
Teve uma filha. Sim, para o humor do Sr. Espanca isso foi um agravante pior do que a perda de uma colheita inteira de café. Não, era pior até do que não ter filhos. Não via ele nenhuma vantagem em ter uma filha, podia casa-lá com um homem rico, claro, mas no momento que descansou seus olhos sobre Violetta, em sua cabeça, nasceu a certeza de que a menina não era sua filha.
Tinha tanta certeza disso que sua mente já sabia de cor os argumentos que levantavam esse juízo: para começar, era uma menina. Para continuar, não parecia-se com ele. Tinha a pele pálida como a mãe, o queixo, até mesmo o nariz, eram todos de Elaine. Dele ela só herdara talvez o olhar penetrante e os olhos azuis.
Vamos agora abordar os acontecimentos que precederam o nascimento da filha do Barão.
Violetta era, quando pequena, um criança estranha. Nasceu no inverno, com uma tez pálida e doentia, um corpo magrelo e o porte pequeno e frágil; mas, para a sorte da débil criatura, conseguiu conquistar Elaine de forma que a mãe pensava nela como a criatura mais bela do mundo.
O que foi muito benéfico para a menina pois seu pai não se compadeceu de sua debilidade.
O Sr. Espanca era, em eufemismos, um pai rígido e desinteressado na filha. Em palavras verdadeiras, era um pai negligente, bruto, frio e cruel. Fazia a menina ajoelhar no milho quando demorava a se arrumar ou a comer. Batia nela quando cometia algum erro simples como tropeçar ou derrubar algo e colocava-a em jejum como castigo por comportamentos que ele julgava inadequados - falar quando não falavam com ela ou ficar encarando as pessoas ou as coisas - , também o irritava quando ficavam sozinhos no mesmo aposento e ,principalmente, quando ela ajudava ou falava com os escravos. Sendo este último comportamento suscetível a múltiplos castigos combinados.
Por causa do comportamento do marido, Elaine ensinou Violetta a evitar a vista do pai. Mandava a menina ficar na biblioteca do 2º andar pois o pai nunca a usava, ou simplesmente mandava-a cavalgar pelos campos de café - sendo este um ótimo exercício para trazer cor e saúde á menina.
Também mandava que ela fosse á pequena capela perto da plantação de café e do poço. E lá a menina ficava por horas. Fosse rezando, lendo, desenhando, pintando, cantando ou até mesmo observando os escravos trabalharem.
E assim se seguiu à criação dela por um bom tempo. Temente ao pai, receosa pela mãe, ciente de sua aparência doentia e sua falta de importância.
Até que ela fez seus 12 anos.
Talvez meninos não entendam e ,de fato, quase nunca o fazem, mas os 12 anos de uma garota são importantíssimos. São quando a maioria delas entram na puberdade e devem, portanto, se portar como moças. Nessa idade, Violetta já tinha aprendido tudo que devia saber como moça. Era boa na costura, no bordado, no tricô; sabia de cor poemas e livros importantes á toda garota prendada e ,por fim, cantava e tocava violino e piano com maestria.
E isso, na percepção da menina, era o maior problema de sua vida. Seu aprendizado rápido havia lhe trazido um tédio avassalador que apenas aumentava com o desinteresse que o pai tinha em comprar novos livros para a biblioteca do 2º andar.
Tal desinteresse a obrigava a invadir o escritório do pai ( localizado no 1º andar ) e furtar um de seus livros de matemática, física ou química.
Tinha ,no entanto, que trabalhar com muita cautela pois o pai nunca lia tais livros ( até porque estes lhe haviam sido presenteados ) e por isso eles já começavam a se amontoar em meio á poeira da última estante do lado inferior esquerdo.
Para executar seu furto Violetta tinha que lembrar as escravas de sempre passarem pano no escritório e tinha que lembrar-se de repor o livro com algum de mesma cor roubado previamente da biblioteca do 2º andar.
Deve-se pensar agora: por que passar por tantas tribulações para ler um livro? Bem, em parte, os cuidados originam da natureza ignorante do Sr. Espanca que, além de não apresentar condescendência com sua única criança, não suporta a ideia de uma menina aprendendo matemática ou química, de que serventia isso teria a ela? "Mulheres não tem necessidade de aprender matemática, ser letrada já é o bastante." - foi sua resposta quando Violetta tentou pedir o livro emprestado uma primeira e única vez. A outra parte da culpa recai também na própria menina, é bem simples: não tinha amigas,mal saia de casa e se achava muito anêmica e enfermiça para tentar amizade com qualquer pessoa da vizinhança.
Uma prova de sua culpa foi perfeitamente exemplificada em sua visita ao Sr. e Sra. Dos Anjos. Foi assim que o evento se sucedeu: era o aniversário do filho mais velho do casal, Carlos Augusto era um rapaz robusto e inteligente, além disso, estava no último ano dos estudos e logo poderia assumir os negócios do pai. O Sr. Espanca fora convidado para o aniversário por ser um velho conhecido ( Violetta não tinha certeza se podia chamá-los de amigos ), o convite, para a surpresa da pequena criatura, se estendia até ela e sua mãe. A menina ficou extasiada, nunca havia ido num aniversário de criança, muito menos o de um adulto. Arrumou-se o melhor que pôde (tendo em vista sua aparência esquisita) e alegremente aguardou o pai descer enquanto conversava com sua mãe no vestíbulo.
" Você sabe ficar quieta? Criança inútil, vive tagarelando. Não se tem um minuto de paz nesta casa."
Violetta imediatamente percebeu o mau humor do Sr. Espanca e se calou, em sua cabeça ela se perguntava como podia ela ter sobrevivido esses 12 anos e ainda ser capaz de comportar tanta estupidez. O pai não gostava de sair para festas, muito menos de sair com Violetta e a mãe dela. A menina se martirizava a cada passo que dava, se perguntava como uma simples felicidade momentânea podia tê-la feito esquecer isso.
Os três subiram na carruagem e se dirigiram á propriedade vizinha onde residia a família Dos Anjos.
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A Baronesa
Historical FictionÉ uma história curta que se passa no Brasil Colônia contando sobre a vida da filha de um barão em suas tribulações com a família, com as normas sociais, com as relações amorosas e consigo mesma. Leiam q é legalzin ( lembrando que a sociedade era mu...
