Prólogo

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– Senhor, poderia nos informar sobre o seu caso?

Era tarde da noite, em um dia chuvoso. George estava na delegacia, em uma sala de interrogatório. Estava enfaixado, com esparadrapos enrolando feridas horríveis nos braços e pernas. Dois policiais estavam em sua frente, para ouvir sobre o caso.

– S-sim senhor. Eu estava em meu turno noturno, ontem. Trabalho em uma loja de conveniências em um posto de gasolina como segurança, um trabalho geralmente tranquilo. Eram mais ou menos... 22 Horas, quando eu ouvi algo vindo dos fundos do posto. Tentei ver nas câmeras, mas estranhamente elas estavam sem sinal. Peguei minha arma, meu cassetete e minha lanterna, e fui verificar os fundos. Não tinha nada...

George fez uma pausa repentina. Começou a tremer e a suar, possivelmente por estresse pós traumático. Um dos policiais tentou acalmar o homem.

– Senhor, você pode parar por enquanto se quiser. Sabemos que foi uma experiência aterrorizante.

– Não, e-eu preciso c-contar. Sem vocês saberem sobre o caso, o que vocês fariam? P-permita-me continuar...

George respirou um pouco para se acalmar, e prosseguiu.

– P-procurando m-mais um pouco por trás do posto, encontrei um guaxinim. Ele estava em cima do latão de lixo, comendo. Quando eu pensei em me virar para voltar ao escritório, um estrondo me fez parar. A tampa do lixo tinha sido aberta bruscamente, arremessando o Guaxinim longe, atordoado. E de dentro, um homem saiu de dentro dele, usando um casaco branco sujo de lixo. Ele nem parecia ter me notado na hora, já que ele pulou no guaxinim. Eu só pude observar enquanto o homem arrancava um pedaço de carne do animal com uma faca, e a comeu crua. Eu tirei meu cassetete, e me aproximei do homem. Tentei falar com ele... Foi quando eu vi. Ele se virou pra mim, com um naco de carne na boca, revelando aquele rosto deformado. Olhos que penetram a alma, e um sorriso que ia de orelha a orelha. Eu instintivamente dei uma porrada no homem, que caiu atordoado, e corri pro meu escritório, para chamar a polícia.

– Este homem... Como ele era? Digo, os olhos e o sorriso podem não ser únicos de uma pessoa.

– Mas dele eram. Eram olhos escuros, vidrados, e que não piscavam. O sorriso... Não era natural. Era cortado pelas bochechas, forçando um sorriso permanente. Tinha também um cabelo negro, longo e bagunçado.

– ... Entendo.

– Enfim. Eu fui para o escritório e disquei o número da polícia. Por precaução, eu havia trancado a porta.

– Esta parte sabemos, você ligou ontem mesmo. Em pânico, pelo que notamos pelo telefone. Nós mandamos... Três viaturas ontem.

– Sinceramente, eu não lembro. E não me importa. Quando eu terminei a ligação, um baque na porta me deixou alerta. Peguei minha arma e a carreguei, e apontei para a porta. Outro baque, e a porta começou a ranger. Eu atirei pela porta. Ouvi um grito, e os baques pararam, por uns dois minutos. Foi aí que a porta veio abaixo. O homem estava segurando um dos braços, aparentemente ensanguentado, e tudo que eu podia ver era sua silhueta, em frente a luz do posto. Eu não podia fazer nada, a porta havia caído em cima de mim, e em cima da minha arma. Ele tirou a porta do caminho dele, e saltou em mim, segurando a minha mão, me impedindo de pegar a arma. Eu lutei com ele por uns dez minutos, enquanto ele apunhalava meu outro braço. Quando minhas forças estavam já se esvaindo, eu ouvi a sirene. Ele se distraiu de mim, e aproveitei para dar um golpe em sua virilha e pegar minha arma. Minha visão estava meio turva, mas assim que peguei minha arma, ele já havia fugido, e vocês haviam chegado.

– ... É isso então. Sinceramente, senhor, é uma história meio difícil de acreditar. Um homem com um sorriso cortado...

O outro policial, que estava calado anotando o caso, se pronunciou pela primeira vez.

– Na verdade, tivemos uma descrição de um homem assim a algumas semanas atrás, em outro posto. Meu irmão trabalha lá, e segundo ele, a história parecia muito improvável.

– Quem foi que fez o relato na outra delegacia?

– Um morador que afirma ter morado ao lado do homem. Coincide também com o caso não resolvido do massacre de uma família, que resultou em dois mortos, um em coma e um desaparecido.

George permanecia calado. Pelo visto ele não fora a primeira vítima do homem de sorriso cortado.

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⏰ Última actualización: Oct 22, 2019 ⏰

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