você pode ler esse capítulo ao som de James Bay - Pink Lemonade, é só dar o play:
O sinal toca e o nosso monitor de sala já começa a berrar como se não estivéssemos escutando. Sempre me questiono porque algumas pessoas ainda ficam paradas enquanto ele precisa espernear para que entrem. Às vezes sinto que estou na quinta série. Sento na terceira fileira. Sou invisível em uma sala com outros 110 estudantes. Se eu sumir, quantas pessoas irão notar? Nunca sei se me sinto mais solitária naquela sala cheia ou em meu quarto vazio.
- Bom dia, vocês estão felizes hoje? - perguntou Marcelo com um sorriso meigo.
Nunca entendi essa repetitiva pergunta toda manhã, mas hoje a resposta era certa: Não, professor, como poderia? Terceiro ano de cursinho, nesse mesmo local, nessa mesma cadeira. Eu sei todas as piadas, todas as melhores e piores histórias. Alguns rostos são novos, a maioria deles, mas nada que me faça querer uma nova amizade que ao final de um ano se acabará.
Sei que pareço chata falando isso, mas alguns dias tudo isso parece me consumir.
Na fileira da frente, um menino alto, pálido e com cabelos bagunçados começa a fazer um série de perguntas. Quem seria ele?
- Qual é seu nome? - perguntou intrigado meu professor de gramática.
- É Filipe.
- Felipe?
- Não, não. F-i-l-i-p-e. Com dois i's
Meu deus, de que lugar veio esse menino? Não era bonito. Também não era feio. Era muito novo. Parecia apenas entediante como todo nós ali.
A aula seguiu assim, os professores se apresentando, alguns alunos buscando destaque e se gabando. Eu seguia ali: invisível. Pálida, com meu delineador de gatinho, meu cabelo preto liso e, notoriamente, acima do meu peso ideal. Ah, porque o croissant da cantina era tão gostoso?
Passei a manhã reconhecendo os novos rostos e lamentando pelos antigos que sentiam o que o eu sentia. Eu sei que há problemas maiores na vida do que o vestibular, mas essa transição entre colégio e faculdade tem demorado tanto que sinto que fui perdendo alguns pedaços de mim e me tornando alguém que eu não sei se conheço.
O sinal tocou e, enquanto voltava para casa no sol quente de verão, escutava o novo álbum do James Bay, pensando no que eu faria para meu almoço. Chegando no prédio, o Rogério - nosso porteiro - logo me avisou:
- Suas primas já estão no 51.
Bem, 51 era como chamávamos a nossa casa e ele logo adotou o apelido carinhoso pois naquele prédio de estudantes ele tentava fazer com que todos fossemos uma família. Há 3 anos eu moro com as minhas primas e isso tem sido uma das experiências mais difíceis que já tive, porque desde que elas passaram, é complicado conciliar a rotina de uma estudante de cursinho, uma de Psicologia e outra de Economia. Às vezes me sinto só.
Abri a porta, uma fumaça percorria toda a casa. Acho que a Vanessa resolveu cozinhar.
- Ué, por que não almoçaram no bandeijão hoje?
- A Verônica não foi com a cara da comida, por isso resolvi fazer strogonoff para nós 3!
- E o que está queimando?
- Eu queimei o arroz sem querer, mas ainda dá para comer. - fez um biquinho seguido de uma risada.
Eu sabia que elas voltaram porque era meu primeiro dia de aula e não queriam me deixar almoçando sozinha. Fiquei feliz por isso. Verônica entrou na cozinha desesperada:
- Sofia, acabei tirar o sete de ouros para você!
- Ok, Verônica, e o que isso significa? - perguntei rindo enquanto roubava uma batata frita do fogão.
- Não sei ainda, é algo do tarot, mas li aqui que não é bom e, exatamente por isso, acho que você deveria ir na Festa da Matrícula com a gente.
- Sério mesmo? Festa da USP? É meu primeiro dia de cursinho, não sei se você lembra como é, mas não é nada animador.
- Já começou a turma do "eu não passei por um ponto"?
- Sim, Vero, já começou e eu não estou nela, porque eu não passei por 3.
- Sofia, você sabe que essas pessoas mentem a nota né? Você deveria fazer isso.
- Eu não me sinto bem mentindo e como aluna de psicologia você não deveria me encorajar a fazer isso.
- Só falei porque sei como você fica triste com isso. De qualquer forma, promete que você vai pensar com carinho sobre a festa?
- Prometo!
Almoçamos e eu, como sempre, dando a falsa esperança de que iria na festa, mas não queria perder a animação delas, já que estavam ali para que eu não almoçasse sozinha.
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Todas as Playlists Perdidas
Novela JuvenilSofia é uma vestibulanda como outra qualquer. Precisa lidar com as diferenças entre o mundo de festas das suas primas e sua rotina tediosa, porém algo irá fazer como que seu ano de cursinho tenha algo inusitado. Acompanhe essa sequência de descobert...
