Inverno

73 11 58
                                        

Eu odeio o inverno, mas não a Inverno. Odeio quase tudo sobre a estação, mas eu amo como a pele da Inverno se encaixa com o clima, como se ela se tornasse um com a natureza. Somos amigos desde quando tínhamos seis anos.

Ninguém queria falar com ela naquela época. Ela era apenas uma garotinha assustada no playground do bairro. E ela era diferente. Pela primeira vez, as crianças da minúscula cidade de Pelotas tiveram contato com alguém que fosse diferente.

Sua pele e cabelos totalmente brancos. Seus olhos cinza, que ficam meio verdes no verão, e se mexem involutariamente de vez em quando. Enquanto todos os garotos se afastavam dela, eu me aproximava. Todos a olhavam de longe com medo, mas eu a olhava bem de perto com fascinação.

Dez anos depois, nada mudou. Eu ainda a encaro com fascínio, porém há algo mais. Agora ela se senta do meu lado enquanto come um sanduíche de atum, o molho escorre pela sua boca enquanto ela ri.

Ela mudou um pouco conforme cresceu. Decidiu cortar seus longos cabelos brancos, e já não usa mais aquele aparelho dental. Ela cresceu, mas ainda é mais baixa que eu. Seu corpo se desenvolveu bastante, e eu sinto vontade de socar cada garoto que a olha diferente agora.

São babacas. Quando ela apenas uma garotinha, ninguém a enxergava como ela era de verdade.  Eles a olhavam com medo, eles pixavam o armário dela na escola. De onde surgiu toda essa admiração agora? Nunca a chamavam pelo nome, apenas a chamavam de aberração, e a chamavam de Inverno. Porque era entediante e triste. Claro que esse não é o nome dela, mas ela acabou gostando de ser chamada assim.

-Que cara é essa?- Ela pergunta com um sorriso. De repente percebo que estou a olhando com cara de idiota de novo.

-Só tenho essa -Respondo, tomando outro gole do meu suco e limpa o m  molho com as costas das mãos.

-Tem razão, é um idiota em tempo integral- Ela diz, e ri. Sua risada é tão doce, capaz de iluminar uma cidade inteira.

-Tem razão, leite azedo - Diz uma voz atrás de mim, com desdém. Me viro imediatamente, é o Rafael. Atrás deles, seus amigos. - O que foi?

No impulso, me levanto ficando entre a Inverno e ele. Sinto um puxão na gola da minha camiseta, e meu sangue começa a ferver 

- Tá com ciúme? Relaxa, loirinho, ela é uma graça, mas não faz meu tipo, prefiro as normais - Sinto seu hálito no meu rosto.

-Não, não vamos- Disse a Inverno. Ela então tirou a mão dele da minha camisa e se pôs entre nós- Tenha um bom dia, Rafael - Ela disse, sorrindo. O rapaz bufou e então me encarou. Depois saiu andando com os rapazes.

-Eu detesto aquele cara- Disse, me sentando de novo.

-Eu não detesto ele- Ela deu de ombros, e se sentou do meu lado. Ela então pegou minha mão- Você não precisa fazer isso sempre

-Como pode não o odiar? Ele fez aquilo com você, Inv!- Sinto sua mão apertar a minha.

-Eu sei bem disso. Mas não vale a pena, Olly- Ela disse, e então pegou o meu copo de suco. Suspirou e então tomou um gole -Se eu fosse odiar todo mundo que já me fez mal, odiaria quase a cidade toda. Não vale a pena.

Me lembro exatamente da cena. Tínhamos dez anos, e estávamos escalando uma árvore. A macieira era alta, e ficava na beira do lago, era outono mas a água parecia tão gelada que podia cortar quem entrasse nela.

Eu e a Inverno escalamos ela, e nos sentamos num galho bem acima do lago. Olhávamos a água de lá de cima, conversávamos sobre a escola. Estava normal, até vermos Gavin e seus dois amigos chegarem. Pareciam já saber que estávamos lá, parecia que já tinham planejado o que fazer.

InvernoWhere stories live. Discover now