A Mente de Luna: Cap I - O gato branco morto

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"Sou lucidamente insano, malucamente calmo.
Sou lágrima, sou sorriso.
Pureza e pecado.
Sou silêncio contido, palavras abstratas.
Sou eterno no amor e efêmero na mágoa.
Sou tudo ou nada!"
Daltri Barros

Morreu, o meu gato, havia 3 dias. Batty me era muito querido e, tal como o seu homônimo, viveu pouco e intensamente, além de conseguir um lugar em meu coração. Não que, naquela época - ou mesmo agora -, tenha sido necessário muita coisa para isso. Basta um miado gostoso, pelos macios, um ronronar de alegrar o meu dia e não urinar na minha cama. Eu ainda estava trabalhando nesse último.

Luan, meu irmão - sim, meu pai tem um estranho apreço por nomes combinando -, estava aprendendo sobre o básico de responsabilidade com o bichano. Até o seu Rogério - o nome do senhor meu progenitor -, parou de reclamar o tempo todo e começou a se acostumar com a ideia de ter um animal em casa. Minha mãe então, só perdia para mim na competição de quem amava mais nosso Battyzinho! Apesar de ela viver dizendo que Batty é nome de mulher. Eu morria de rir e explicava que era um nome holandês ou inglês, sei lá.

A história é que, quando a gata da Luísa finalmente teve sua ninhada, eu peguei um branquinho que, por algum motivo, me lembrou o Rutger Hauer. Bem simples, infelizmente. Nada muito grandioso. Porém, ele era a coisa mais fofa do mundo! E, continuou com esse título por dois meses, até que a essência de sua vida se esvaneceu.

Desculpe-me por querer usar algumas palavras bonitas, mas acontece que, às vezes, é necessário enfeitar para não doer tanto, certo? Engraçado, não? Você embeleza a forma para que o conteúdo não chame tanto a atenção. Até hoje, não sei se existe algum artigo científico que comprove ou reprove a eficácia da prática. No entanto, continuamos a usá-la. Eufemismo.

Enfim, como eu sempre faço, e sempre fiz, quando me entristeço, desisto da minha vida por algum tempo, e foco em outras. Leio sagas inteiras em poucos dias, maratono temporadas e temporadas de alguma série que eu tenha em mãos, ou que a Luísa me empreste, jogo dia e noite, ou qualquer outra coisa do gênero.

Pois bem, na época, estávamos nas férias de julho. Portanto, a minha tia, que morava na cidade vizinha, se hospedava lá em casa por motivos que ainda tento entender. A questão é que se fosse só ela, eu não me importaria. O problema mesmo é que ela vinha num pacote fechado com seus 3 anjinhos que, na época, tinham entre 4 e 9 anos. E piora, já que eles se juntavam com o meu irmão de 8 para correrem pela casa.

Nisso, eu havia ganhado o Silmarillion há alguns dias e ainda estava tentando terminar o livro, que apesar de interessante, é muito complicado, com algumas partes muito entediantes.

Certo. Agora, eu acredito que você entenda o porquê de eu ter que ir ler na praça. E isso é muito importante, porque é lá que a história, de fato, começa, ganha forma, se desenvolve e "termina", já que não terminou de verdade. Enfim, eu estou me adiantando muito, um passo de cada vez. Primeiro, um pouco mais de contextualização.

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Certa vez, uns 3 anos antes, quando eu estava na mesma praça, com a Luísa, 3 garotos da nossa sala apareceram. Todos estávamos na faixa dos 12, 13 anos, e lá estavam eles comprando maconha, acho. Ou coisa pior, não sei. Só sei que os vi falarem com o cara que era conhecidamente o traficante da praça.

- Olha lá, aqueles retardados achando que tão arrasando. - Luísa pontuou.

- É, o caroço e seus pentelhos. Parece uma pinta, ou whatevs.

E os zoamos até vermos que eles estavam vindo na nossa direção. Abaixamos a cabeça e torcemos para que só tivessem que passar por aquele caminho para irem embora. Suspirei aliviada quando vi que era exatamente isso que acontecia. Até que um deles olhou para trás.

- Putz grila! Não são as sapatas da nossa sala ali se pegando? A Gordzilla e a Zé Gotinha da Petrobrás.

Os outros dois se voltaram para nós duas e rolei meus olhos. Quando eu olhei para a minha amiga, vi que ela não teve a mesma reação.

- Não, seu pau de caroço, não estamos nos pegando. E mesmo que estivéssemos, não seria da sua conta, nem da do seu amendoim cheirando a queijo.

O garoto arregalou os olhos e não conseguiu responder. Os outros dois riram da cara dele. Os 3 deram meia-volta e foram embora. Eu fiquei atônita.

- Super! Você arrebentou a boca do balão, miga!

- Ah! Esses garotos que nem pau têm e se acham os machões me irritam. Infelizmente, esse é o único de jeito de tirar eles da nossa cola.

Mas não tirou. Na verdade, a zoação só ficou mais intensa. Inicialmente, por parte desses garotos e do ciclo social deles. Mais tarde, de todo mundo. Minha mãe chegou a me proibir de andar com a Luísa algumas vezes, por ela "não ser uma boa companhia".

O mais irônico é que essa sociedade que repudiou o meu possível caso homoafetivo com a minha melhor amiga é a mesma que ficou vidrada na banheira do Gugu pouquíssimos anos depois, nas loiras e morenas do É o Tchan passado mais algum tempo, e consumiam todo pornô lésbico que chegasse em suas mãos.

Enfim, esse capítulo não é para militar em prol da causa LGBT, nem para mostrar a hipocrisia da sociedade misógina e homofóbica em que vivemos. É só para você ter uma noção da minha situação na época. Não exatamente cheia de amigos e muito menos com facilidade de fazer outros. Só isso mesmo.

Contos de Sete VelasWhere stories live. Discover now