Prefácio
"Levei dezoito anos para entender o que estava a minha volta e ,talvez, eu leve o dobro para entender o que está dentro de mim".
O que nós somos? O que eu sou? Me perguntei isso cada segundo, de cada dia, por dezoito anos, e sei que vou continuar me perguntando até que eu dê o meu último suspiro – ou talvez no meu último suspiro eu entenda que descobrir quem eu sou/era não era a coisa mais importante da minha vida.
Capítulo 1
Os campos sulistas da Nova Inglaterra eram como águas calmas e esverdeadas de riachos escondidos por entre as altas e cinzas montanhas do litoral. O vento cheirava a pães frescos – ramos de trigos assados no forno de pedra – e chuva – grama molhada, verde e viva pronta para ser a diversão de mais uma criança nas tardes de verão. Escondia por entre a cara emburrada e os olhos fixos na janela, certa agitação, ou talvez um espírito aventureiro – uma vontade insaciável de conhecer o que era desconhecido, de desbravar partes de mim que eu não entendia, ou que talvez apenas não deixasse escapar.
Nosso carro era como uma breve mancha escura pintando a paisagem amarela e verde da cidade. Era tudo tão silencioso, enquanto dentro de mim era uma inquietude, uma multidão falando e gritando, não deixando o meu próprio corpo respirar. A imagem da janela simplesmente se torna estática, como se tivessem pausado o filme na melhor parte – quando você já estava praticamente dentro da tela da televisão.
O edifício era um castelo – como a torre do Drácula ou a Mansão Wayne – cheio de musgo e coberto de árvores frutíferas por todo o campo. Era o começo da manhã, ainda muito cedo para qualquer recepção calorosa ou atendimento especial, meu pai fez questão de não me deixar nem mais um dia dentro do nosso apartamento em São Francisco. Ele queria mudanças, não entendia porque eu não conseguia escolher uma carreira, ou porque eu me trancava o dia inteiro no quarto ou porque chorava quando me sentia ansiosa – ele não me entedia, mas eu não o culpava, nem eu mesmo conseguia me entender.
֎ ֎ ֎
Nós éramos uma família pequena, não tínhamos tios ou tias, primos ou primas, ou parentes distantes que nos visitassem no Natal. Era apenas eu, meu pai, minha mãe e meu irmão. Minha mãe trabalhava dois turnos em um restaurante 24hrs, meu pai estava desempregado fazia 4 anos, meu irmão tinha acabado de completar 10 anos e eu era uma adolescente presa em um complexo de ansiedade que eu mesma havia criado. Nem com todos os empréstimos ou finanças que tínhamos guardado conseguiríamos pagar uma faculdade – e do que adiantaria se nem eu mesmo sabia o que eu queria fazer¿
Já havia atingido um ponto onde nenhum livro de autoajuda, palestra motivacional ou consulta terapêutica iriam me ajudar – eu estava no fim. Em algum momento entre uma das minhas crises de ansiedade e uma conversa em família, meu pai decidiu ligar para um internato na Nova Inglaterra para eu participar de um concurso de bolsas. Dois meses depois, sem nenhuma esperança, recebemos uma ligação de volta nos informando que minhas aulas começariam no começo de 2022.
Não entendia o que havia acontecido, era um internato caro – para o tipo de pessoa que viaja a cada dois meses e gasta todo dinheiro dos pais. A única coisa que eu conseguia pensar era que de alguma forma nossa situação ruim, tanto econômica quanto emocional, "tocou" quem quer que seja que tinha escolhido minha ficha ao invés das outras duzentas.
O internato era uma escola, mas não daquelas que você aprende física e química - era um lugar para recém-formados no ensino médio que não se sentiam preparados para enfrentar a faculdade – pode-se dizer que era exatamente a situação em que eu me encontrava. Ficava repetindo em voz baixa: "Faça por você, faça por sua saúde mental, faça por você, faça por sua...". Eu já fui extremamente depressiva, mas me encontrava em momento onde se eu não mudasse agora, eu talvez voltasse a ser a mesma pessoa que não queria nem acordar no começo do dia.
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Os Sonhadores
Teen FictionNão sabemos por que existimos ou qual é o nosso propósito, mas somos jovens, somos ambiciosos e queremos o mundo inteiro. Eryn é assim, dezoito anos sonhando com o próprio futuro, com sua independência, mas se encontrou completamente perdida depois...
