Lua

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A Dama cruzou, transtornada, o portão do castelo rumo à liberdade. Na negra penumbra do céu destacavam-se apenas algumas poucas estrelas e a belíssima lua, que refletia suas lágrimas e era sua companheira nas mais solitárias noites. A frente do temeroso castelo impunha-se em igual terror o bosque, o terrível bosque, o motivo pelo qual a Dama havia suportado o sacrilégio de habitar o castelo, o bosque cujas entranhas, acreditavam-se, abrigava toda sorte de mal. A Dama sabia que não haveria outra saída, não poderia retornar ao castelo, não desejava retornar, sem outra opção e enchendo-se de coragem adentrou no bosque... Uma vez dentro, tomou consciência de que o terror maior do bosque não estava em suas árvores disformes, sem folhas, que sugeriam um sem-número das mais aterradoras criaturas a espreitar sua presa, mas sim na forma como os elementos cercavam um corpo, tornava cada passo pesado, agiam no ponto cego, moviam-se no canto do olhar, volvendo a verem-se imóveis quando fitados com os olhares fogosos de medo, aturdindo a mente e perturbando os sentidos. Foi nesse cenário aterrador que a Dama estacou. As pernas não lhe ofereciam firmeza e a visão turvejava, embaralhando as formas, a consciência agarrava-se a alma, tentando manter-se sã em meio à imagem da loucura, o medo tornou-se pavor, que se tornou o pleno horror quando, por entre as árvores surgiu uma figura. Suas nuances brancas tornaram claras a turva visão da dama e a garota fora capaz de perceber que a silhueta branca se abaixava para recolher algo do chão, a seguir atirando contra sua direção enquanto gesticulava fervorosamente em gestos que a Dama, ainda nauseada, não conseguia decifrar. Sem raciocinar, a Dama caminhou em direção à silhueta, ao se aproximar pode destacar suas feições uma a uma: Os longos cabelos brancos, a face marcada pela idade e com uma profunda expressão de terror, os olhos brancos de cegueira, não havia dentes em sua bocarra aberta e seu corpo era cadavérico. Ao alcançar vinte passos de distância da silhueta, a velha deu meia volta e arrastou-se de volta à escuridão, a dama a seguiu e ao passar pela árvore onde avistara a velha, não pode impedir a bile quente de subir-lhe a garganta. A clareira estava repleta de sangue, pedaços de pele e órgãos espalhados por toda parte, como se centenas de animais houvessem sido dizimados ali. -Olá? Senhora? Atendendo a seu chamado, de trás de uma árvore saiu um cavalheiro de belas vestes, portando um relógio de bolso, seu rosto branco como as nuvens, seus olhos âmbares transmitiam segurança e seu olhar era firme, seus cabelos negros como a noite estavam perfeitamente penteados, trajava vestes de realeza e sua voz era doce e reconfortante, para a Dama o rapaz surgiu como uma luz no fim de um túnel escuro. O Cavalheiro sorriu amigavelmente e com sua voz de mel indagou: -O que traz uma Dama como vós a um lugar esquecido pelos astros como este? -É de fato uma longa história... Eu estou em busca de uma senhora que estava aqui... E o que aconteceu nesse lugar? -Não lhe disseram que essa floresta habita os piores males? -Sim, ouvi histórias horrendas sobre esse lugar... -Pois bem, bela Dama, eis que a senhorita está com má sorte, pois eu sou o pior deles. Sou o Demônio, e agora hei de devorar-te da mesma forma que fiz com aquela velha! -Aguardai Demônio. – A Dama bradou instintivamente - Trataremos de arrumar outra saída, qualquer outra! -Ora... – O Demônio levou a mão ao queixo e olhou para o céu como se forçasse o pensamento - Faremos uma barganha, eis minhas condições: Levar-te-ei em cativeiro para ser torturada por mim por setenta e três anos. Ao final de seu prazo, lhe trarei de volta para esse exato momento para tentar salvar a si mesma. Se conseguires, sairá livre deste bosque, se falhar, será devorada. -Eu aceito! O Demônio então abduziu a Dama, prendeu seu corpo no núcleo de uma gigantesca bola prateada, com correntes quentes a mantê-la suspensa pelos pulsos e espinhos ardentes a ferir seu corpo. A grande bola então fora lançada ao luar para ser exibida para toda a terra e uma vez a cada noite orbitava os céus negros, a cada volta tornando a dor mais lancinante. Por setenta e três anos a Dama urrou de dor, sem jamais ser ouvida. Ao final dos setenta e três anos, como prometido o Demônio libertou a dama de seu cativeiro e com um toque em seu relógio, enviou-a de volta para o lugar e momento exatos de seu encontro. A Dama viu-se de frente para si mesma, gritou com plenos pulmões, mas após tantos anos gritando de dor, sua voz não existia mais. Desesperada, gesticulou para que a outra Dama se afastasse, mas essa continuava a se aproximar. -Você falhou... A voz do demônio surgiu do ombro direito da Dama e finalmente tudo fez sentido. A Dama havia condenado a si mesma na tentativa de se salvar. Sentiu a cálida garra do Demônio a perfurar lhe a cintura, causando um novo sangramento em seu corpo já coberto com seu próprio sangue e puxá-la de volta para as trevas, aonde a única coisa que pôde ver foi uma boca gigante repleta de dentes afiados... Após isso apenas dor além de qualquer tortura que havia experimentado... E o vazio cálido da morte... O jovem Cavalheiro ajeitou suas vestes, espanou com as mãos seus ombros e sacou do bolso seu relógio: -Olá? Senhora? –A voz da Dama ecoava pela clareira Colocou-se atrás de uma velha árvore, ajeitou o cabelo e sussurrou com um sorriso macabro: -E agora, vamos para minha parte preferida...

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