Cabello
"Tudo acontece por algum motivo"
"Nada acontece sem ter bons motivos para o final"
Variações de frases que ouço de minha mãe desde sempre. Aparentemente, ela acredita em destino e que aqueles que fazem o bem são recompensados no final. Eu não sei dizer com certeza quando foi que ela começou a refletir e depositar sua fé nisso, mas eu faço alguma ideia. Suponho que tenha sido quando viemos de Cuba para os EUA. Miami, mais precisamente. Lembro muito bem de ouvi-la repetindo essas frases, entoando melodias pacíficas e relaxantes. Acho que foi a maneira não direta que ela encontrou para me fazer sentir mais calma, pra que eu não sentisse o peso das mudanças que aconteceriam a seguir.
Bom, a viagem em si não foi um problema. Afinal, eu era apenas uma criança e nunca havia saído do país. Senti-me como se estivesse explorando novos ares. E tudo seria perfeito, não fosse pela realidade. Eu era pequena, mas eu entendia muito bem o que se passava. Sentia o gosto amargo da discriminação, sentia a dor que era ver meus pais angustiados por não saberem onde passaríamos a noite ou o que comeríamos no dia seguinte.
Hoje em dia, muitas questões sobre imigrações mudaram. Não só legalmente, como socialmente. É claro que ainda há muito caminho à frente até sermos de fato respeitados como seres humanos. Mas há algo de que eu tenho certeza. Independente do que vier a acontecer comigo, eu jamais me calarei diante de qualquer ato de intolerância e preconceito. Já vivi o suficiente pra saber o quanto insultos podem machucar.
Eu não acho que acredito em destino, como minha mãe. Pra ser honesta, acredito que o presente é tão importante quanto o futuro ou até mais. Acredito que, mesmo dentro de nossas limitações, é importante fazer tudo o que pudermos e dar o nosso o melhor com o que temos agora. Não digo pra deixarmos de sonhar e fazer algo por isso. Ao contrário. Eu tenho muito sonhos e jamais os ignorei. Mas o que eu quero dizer é apenas que o que temos e o que somos agora, é o que mais importa no fim do dia.
Mendes
- Senhores passageiros, bem vindos a Miami. São quatro da tarde. Por medidas de segurança queiram permanecer sentados com cintos afivelados até que os sinais luminosos sejam apagados... ...Esperamos revê-los em breve, agradecemos a preferência.
Ouço parte do último pronunciamento da aeromoça. Eu estou em Miami. Caralho! Eu estou em casa! Depois de sete anos morando e trabalhando fora. Sete anos que não via pessoalmente meus pais e meus amigos. É praticamente impossível não sorrir diante desses pensamentos. O que será que poderei fazer ao chegar em casa? O que eu poderei comer? O meu quarto ainda está intacto? Minha cama ainda é boa?
É claro que tudo isso é incrível e, no mínimo, empolgante. Mas, ainda antes de sair do avião, faço-me relembrar de alguns momentos e perceber o que de fato importa. Afinal, serão apenas quatro meses de férias e depois voltarei para as minhas responsabilidades. Ou seja, eu não posso nem quero me esquecer de quem eu sou agora. Por isso é importante me lembrar de o que já fui. Apanhei muito da vida pra entender que nem sempre tudo é ou será como eu quero. Com muito custo, aprendi sobre disciplina, respeito e gratidão. Tudo o que aprendi e o quanto cresci esses últimos anos não se pode medir nem descrever em palavras.
De fato, eu não era um exemplo de ser humano. Todo o cenário de filho único em família extremamente rica e independente financeiramente só contribuiu para a ruína. Mesmo sabendo que, no mínimo, o dinheiro que esbanjava à todos os cantos pertencia aos meus pais e não a mim, isso não era o suficiente pra me fazer repensar minhas atitudes nem muito menos cogitar mudar. E eu consegui ser ainda pior no colégio.
Mas muita coisa mudou nos últimos anos. Muita coisa mudou. E pra melhor. Eu mudei pra muito melhor e eu não preciso que ninguém me confirme isso. Eu sei tudo o que aconteceu e o que me trouxe até aqui. Até esse estado mais sóbrio de minha personalidade e caráter. E eu sou grato por tudo.
Mais alguns minutos se passam. E eu consigo, então, respirar profundamente ao descer do avião. O chão da pista de pouso está úmido. Quase tão úmido quanto o ar que respiro agora. O ar quente e intimidador de Miami. Nossa. Como eu senti falta disso. E vejo, então, minha mãe acenando pra mim e vindo em minha direção assim que eu entro no prédio do aeroporto. Casa.
Considerações:
Oi. Que bom que você chegou até aqui! Devo te agradecer por isso e espero que curta o desenvolvimento dessa estória. Eu gostaria apenas de especificar alguns tópicos.
· Bom, essa estória é baseada no clipe de "Señorita", mas isso não quer dizer que será extremamente fiel. Até porque preciso de liberdade criativa. Mas ainda assim essa é a base inicial.
· É possível que as informações de tempo, geografia e política não sigam a realidade. Mas tudo bem. Afinal, é ficção.
· Vou variar as perspectivas em alguns capítulos, mas não vou seguir um padrão.
· E, por último, gostaria de dizer que se tiverem críticas construtivas (sejam elas positivas ou negativas), eu gostaria de saber. Porque é a minha primeira fanfic publicada e acho importante esse feedback. Sintam-se a vontade pra usar os comentários pra isso. Sim?
Obrigada ♡
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Licor de Pimenta
FanfictionO caminho de duas vidas completamente distintas se cruzam e uma paixão intensa e única faz com que desejem estar cada vez mais juntos. Mas alguns segredos e situações externas poderão abalar tal sentimento e mudar completamente os seus planos.
