Capítulo 1 - A raposa e a serpente (Parte I)

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"É melhor reinar no inferno do que servir no céu." John Milton

Durante os invernos, Bran precisava fechar todas as janelas do solar assim que escurecia, além de trancá-las com cadeados. Fazia isso desde criança, quando ouvia seu pai gritar, do quarto no andar superior: "Bran, está frio!". Então, ele saía de onde quer que estivesse, quase sempre correndo, às vezes rindo, e fechava todas as janelas da casa. Atualmente, não ouvia mais seu pai gritar, mas ainda fechava as janelas. Não as trancava antes, passou a fazê-lo há alguns anos por pura precaução. A região estava começando a ficar perigosa.

No inverno, o frio era tão intenso que tentava preservar o calor de cada cômodo, então precisava fechar as portas também. Apenas dois deles tinham lareiras, a sala de estar e o velho quarto do Sr. Bell. O problema sobre isso era que todo ambiente parecia sufocado, mesmo frios. Cada irmã de Bran trancava-se em seu próprio quarto depois do horário de fechar tudo, o que tendia a comprometer a confraternização daquela época do ano. Por outro lado, o fato de ser inverno era ideal para tentar obrigar todos a ficarem no solar em tempo praticamente integral. Então, assim que anoitecia, Bran descia para a sala de estar e se servia de um pouco de uísque.

Conferiu o relógio que pendulava preguiçosamente ao lado da lareira. Seis e meia, e nenhum sinal de Emma.

Andou com os pés se arrastando pelo carpete e empurrou a poltrona para que ficasse de frente para a lareira. Acendeu-a com calma, poupando as poucas pedras de carvão que ainda sobravam. Amaldiçoou baixo sua própria decisão burra de permitir que Emma fosse, sozinha, comprar mais na cidade. Gastaria cerca de vinte minutos na viagem, mas estava fora há mais de meia hora.

1920. O buraco entre as guerras.

Suspirou. Sentia seus pulmões pesados, puxando seu corpo para baixo, forçando-o a deitar-se. Vestia seu terno, como mandava a tradição. Até gostava do conjunto, mas sempre conferia as fotos dos natais anteriores. Era um costume um pouco danoso, e sabia disso, tornou-se uma mania. Seu cabelo andou escurecendo.

Sentou-se na poltrona em frente à lareira com um copo meio-vazio na mão. Seus joelhos estavam separados, com seus braços apoiados em cada um e suas mãos segurando o copo. Encarava o fogo com o rosto relaxado, os lábios finos levemente arqueados para baixo. Cinco rugas naquele ano. Apareceram mais duas desde o último natal.

– Diabo! – ouviu alguém gritar do lado de fora do solar, atrás da porta. Levantou com pressa e foi até a antessala para atender, enquanto ouvia Clarice descer a escada vagarosamente.

Abriu a porta e encontrou Emma com um saco de carvão em uma mão, enquanto a outra estava completamente ensanguentada. As gotas manchavam o chão coberto pela camada fina de neve, e deixaram para trás um caminho de um filete por onde Emma andou até chegar ao solar. Seu rosto, fino e muito pálido, estava sério, com as sobrancelhas levemente franzidas, mas semblante rígido. Não parecia estar de fato irritada; apenas incomodada com aquele pequeno transtorno.

– Um cachorro. Deixe-me entrar.

Bran tinha ficado petrificado na frente da entrada. Deu a licença para Emma enquanto tirava o saco de sua mão e deixava-o em um canto da antessala. O chão estava sujo de neve e pequenas lascas de carvão, mas decidiu lidar com aquilo mais tarde. Deixou o copo em cima do aparador, no alcance de seus olhos, e fechou a porta atrás de Emma. Ela marchou em direção à cozinha. Queria se livrar daquele contratempo o quanto antes.

– O que houve? – perguntou Clarice, já no primeiro andar. Usava um vestido lilás. Acariciava sua barriga lentamente.

Emma olhou-a de lado. Bran e Clarice pararam na entrada da cozinha, lado a lado, e olharam para Emma enquanto ela mergulhava sua mão ferida na corrente de água da pia. Seu rosto permanecia inexpressivo, a não ser por pequenas rugas em sua testa, provavelmente de dor.

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⏰ Last updated: May 13, 2020 ⏰

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