(Back at home)

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Um estrondo.
Eles gritavam. As vozes machucavam nossos ouvidos. Eram quatro ou cinco, seus vultos negros não me deixaram contar com precisão. Sequer houve tempo pra isso. Em um segundo, nós duas estávamos deitadas, acuadas, no chão, com um cano tão prateado e brilhante que chegava a reluzir à luz fraca do abajur.
Podia sentir minhas mãos tremerem e meus olhos molhados pelas lágrimas que eu me obrigava a conter. As mãos de minha mãe me abraçavam com tanta força junto ao próprio corpo, que minhas costelas chegavam a reclamar de dor. Ela sussurrava "Não se mecha. Não se mecha", enquanto os passos pesados ecoavam por toda a casa, junto ao barulho de coisas caindo e vidros se estraçalhando sobre o piso.
Numa tentativa ousada e débil, achando que passaria despercebida, ergui o rosto e cruzei diretamente com o olhar envenenado, feroz, de um dos homens que tinham seus rostos cobertos por uma touca preta. A pele que lhe envolvia ao redor dos olhos e em parte do nariz à mostra era branca, porém encontrava-se rosada e suada. Sua pupila dilatada quase saltava a órbita. Eu estava condenada.
De imediato fui arrancada dos braços de minha mãe, e o tilintar do destrave da arma soou bem ao pé do meu ouvido, o metal gelado em contato direto com a minha testa. Aquele braço forte me sufocava em volta do pescoço, e as lágrimas que eu tanto contive derramaram-se ao ver minha mãe se desesperar.
E foi tudo muito rápido.
Um grito. Um baque. Um tiro. O Escuro. E o silêncio.
- AAAAAHHH! – minha voz áspera rasgou a garganta, o pulmão ofegando impedindo-me de respirar com regularidade. Minha testa suava e minhas mãos estavam geladas. Os pontos do machucado recente na testa latejavam.
Há três dias aquelas imagens torturavam minha mente. Minha sanidade. Eu podia jurar que enlouqueceria a qualquer instante.
- Alli! – Josh adentrou o quarto apressado, ajoelhando-se ao lado da minha cama.
Eu não precisava contar-lhe de novo sobre aquele pesadelo. Pelas lágrimas que saltavam de meus olhos e minha feição assustada e contorcida em dor, Josh já sabia que aquele fantasma viera assombrar meus sonhos outra vez.
Agarrei-me com toda força naquele corpo quente que me abraçava tão protetor. Josh afagava meu cabelo enquanto meus soluços ecoavam pelo quarto.
- Aqueles olhos... – eu balbuciava entre o choro – Eles me encaram até agora... Eles me olham a todo instante...
- Calma, minha pequena. Calma. – Josh sussurrava, tentando me acalmar.
- Foi minha culpa, Josh. – apertei-lhe os braços, a dor me rasgando por dentro.
As mãos de Josh seguraram meu rosto, e seus olhos verdes me fitaram sem pestanejar.
- Não foi sua culpa. Quantas vezes preciso repetir?
- Até que ela esteja aqui de novo... – disse com a voz embargada, sem qualquer controle sobre minhas lágrimas.
Josh respirou fundo e voltou a me abraçar. Meu corpo estremecia levemente. O pavor, a culpa, cobrindo-me como mantos que levavam meu sono, minha felicidade e minha paz embora.
- Vem. – ele disse.
Ajeitamo-nos na cama de solteiro, as mãos de Josh me envolvendo a cintura. Sua respiração batia contra meu rosto, enquanto eu me encolhia e me aconchuegava em seu peito. Não sei dizer por quanto tempo permanecemos acordados e mudos, mas sabia dizer que dali a dois dias eu já não teria meu anjo da guarda tão perto de mim.

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