Não era normal eu levantar tão cedo no domingo! Não sei o que aconteceu, mas já que estava de pé às 8:00 decidi aproveitar o dia que estava lindo para dar um passeio e visitar os amigos, e era exatamente isso que faria. Pulei da cama, tomei um banho demorado, dei um jeito nos pelos que eu costumava chamar de barba, e coloquei uma roupa leve e fresca. Desci para tomar café com minha mãe, que com certeza estranharia o fato de eu estar fora da cama tão cedo, mas ficaria feliz de me ver na mesa, já que sempre tomo café sozinho. Afinal, tomo café no horário em que deveria estar almoçando.
Enquanto descia as escadas, não senti cheiro de café, nem de bolo de milho. Algo que era normal aos domingos em minha casa. Cada vez que me aproximava do fim dos degraus, mais o silêncio se fazia presente. Quando cheguei na sala, me deparei com a cena mais triste que já vi na vida. Lá estava minha mãe, jogada no chão, aos prantos e com uma garrafa de cachaça ao lado.
Nunca tinha visto minha mãe daquele jeito antes, e nem sabia sobre ela gostar de bebidas alcoólicas. A casa estava completamente destruída, os móveis quebrados, e tudo espalhado pelos cantos. Não sabia o que tinha a levado a essa situação, mas a única coisa que queria naquele momento era dar colo à minha mãe e entender o que tinha acontecido. Corri em sua direção afim de ajudá-la, meu coração estava partido em vê-la daquela forma.
— Mãe, o que aconteceu? Pegue em minha mão e levante do chão. – Disparei em vão, mamãe não me deu atenção e ignorou completamente minha presença. — Mãe, quero te ajudar, pare de chorar e levante, vai ficar tudo bem.
Ela continuou ignorando minha presença e permaneceu no chão aos prantos.
Corri até o quarto dela na esperança de encontrar Marcos, meu padrasto. Mesmo não tendo nenhum tipo de amizade com ele, ele era a única pessoa que poderia me ajudar naquele momento.
Ao entrar no quarto percebi que Marcos não estava lá. O guarda roupa estava todo revirado e a maioria de suas coisas não estavam mais ali. Ao que parecia, Marcos tinha ido embora, e talvez fosse por este motivo que minha mãe estivesse daquela forma.
Por um lado, foi triste, pois mesmo não sendo a favor deste relacionamento, minha mãe o amava. E agora estava naquela situação. Por outro, para mim foi um alívio. Marcos nunca aceitou o fato de eu ser homossexual. Mamãe sempre dizia que não era algo que ele deveria se importar, afinal eu não era filho dele, e ele não ajudou em minha criação! Mesmo assim ele sempre dizia que isso era falta de porrada, falta de uma boa educação e até mesmo falta de Deus. Ele era super agressivo.
Marcos me agrediu por diversas vezes, e mesmo mamãe sempre ficando ao meu lado, nunca o colocou para fora de casa. Inclusive também já foi agredida algumas vezes por ele. Já cheguei a chamar polícia, mas ela sempre desmentia, dizia que não era agredida.
Certa vez acordei na madrugada com ele dentro do meu quarto me observando dormir. Levantei assustado pedindo para que ele saísse de lá. Contei para mamãe que não pareceu dar muita importância. O fato é que eu não gostava dele, e se ele realmente tivesse ido embora, agradeceria a Deus por isso.
Voltei correndo para sala, na intenção de tentar ajudar minha mãe mais uma vez. Ela já estava sentada encostada na parede e já não chorava tanto. Me aproximei e tentei pegá-la pelos braços, mas mamãe não se movia, era como se eu não estivesse fazendo nenhuma força para levantá-la.
— Vamos, mãe. Levante! A senhora precisa de um banho. — E mais uma vez não tive sucesso, era como se eu fosse invisível. Mamãe continuava ali desolada e não me ouvia, ou apenas me ignorava mesmo.
Decidi ir até a casa de Matheus, meu amigo. Conversar e contar sobre o que estava acontecendo. Deixei minha mãe, e avisei que voltaria em algumas horas, mesmo ela não estivesse dando nenhuma atenção para o que eu dizia.
Ao chegar na casa de Matheus, o portão estava encostado. E como éramos amigos de infância, entrei sem bater. Ao chegar na varanda, vi que lá estavam todos os nossos amigos, mesmo todos estando com cara de enterro, percebi que fui excluído da reunião. Pensei em voltar pra casa, mas precisava da ajuda deles.
— Oi, gente. Fazem reunião e nem me chamam, como assim? Não faço mais parte do grupo? — Perguntei cruzando os braços, e entrando no meio do círculo em que eles formaram.
Todos estavam em silêncio e de cabeça baixa, e assim permaneceram.
— Ei, sou eu, André. Não lembram mais de mim? — Indaguei em um tom de voz alto e fui completamente ignorado, ninguém me respondeu.
Primeiro, minha mãe, depois meus amigos. Não estava conseguindo entender o porquê de todos estarem me ignorando. Eu estava triste, precisava conversar, precisava de ajuda. Mas ninguém queria me ajudar, ninguém queria me ouvir.
Decidi que não iria embora, e que ficaria ali até que alguém me respondesse e parasse de ignorar minha presença. Fiquei de pé e braços cruzados, olhando bem para todos, que pareciam um pouco tristes, mas ainda assim não precisavam me ignorar! Amigos são para todas as horas, e queria saber o que estava acontecendo.
Depois de algum tempo calados, Ana Claudia disparou…
— Que aquele desgraçado do Marcos apodreça na cadeia!
— Sim, e que ele aprenda que não pode sair por aí tirando a vida das pessoas, como se elas fossem descartáveis. Ele é um desgraçado. — Retrucou Ian com um olhar furioso.
Neste momento todos já estavam em prantos. Levantaram e começaram a se abraçarem e chorarem mais.
— Que Marcos está preso, Ian? — Dei dois tapas nas costas de Ian, e ainda assim ele não me respondeu. — Gente, ok. Então vocês não vão mesmo falar comigo? —
E mais uma vez não obtive respostas.
Estava cansado de ser ignorado. O dia que deveria ser perfeito para mim, estava se tornando um dia triste. Fui em direção ao portão, quando ouvi Matheus dizer meu nome.
— André era como se fosse um irmão pra mim, confiava minha vida a ele. E agora estou aqui, sozinho. Por culpa de uma pessoa fria, sem coração e preconceituosa. — André dizia na roda, olhando para Ana Claudia, e mais uma vez foi aos prantos.
— Como assim, Matheus? Nós ainda somos amigos. Eu te amo irmão, conversa comigo, por favor! O que está acontecendo? — Disse indo em direção ao Matheus com os olhos marejados, não suportava mais o fato de estar sendo ignorado pelo meu melhor amigo. Mas ainda assim, ele ignorou completamente minha presença.
Decidi que não insistiria mais na atenção de ninguém. Enquanto eles recordavam nossos momentos de infância, fui embora. Eu não sabia a quem recorrer, não sabia com quem falar. Eu parecia completamente invisível para todos que estavam e passavam perto de mim.
Parei na praça próxima a casa de Matheus, sentei no banco e desabei. Coloquei para fora tudo que estava me deixando triste, em forma de lágrimas.
Depois de algum tempo me recompus e fui em direção a minha casa para saber se minha mãe já estava melhor. Muita coisa passou pela minha cabeça. Marcos poderia ter a agredido e ido embora, poderia simplesmente ter a abandonado, ou poderia ter feito algo errado pela rua e ter sido preso. Afinal, meus amigos falaram sobre algum Marcos ter sido preso.
Precisava saber o que tinha acontecido, fui para casa decidido a obrigar a minha mãe a conversar comigo. Isso já estava indo longe demais!
No caminho para casa avistei Pedro, meu primeiro namorado. Ele estava na sorveteria. Pediu um sorvete e sentou por ali mesmo, percebendo que ele não estava acompanhado decidi ir até ele. Atravessei a rua e fui em sua direção, porém depois de tanto ser ignorado, pensei que ele também iria me ignorar. Já estava me sentindo um lixo. Percebi que Pedro chorava e não conseguia tocar em seu sorvete, as pessoas que estavam ao lado foram até ele perguntar se estava tudo bem. Observando isso ainda de longe, preferi não me aproximar. Esperaria ele sair dali e iria atrás dele, afinal ele não parecia estar bem, e talvez eu pudesse ajudá-lo.
Depois de algum tempo, um rapaz se aproximou da mesa e eles se abraçaram. Provavelmente era seu namorado. Tomei a decisão de ir até ele mesmo assim. Ainda que ele fosse meu ex namorado, mantínhamos um bom relacionamento, posso dizer que éramos amigos.
Quando me aproximei deles, percebi que ambos estavam em prantos. Sabia que algo estava acontecendo naquele bairro e eu era o único que não tinha mais informações sobre o ocorrido. E não saberia tão cedo, pensei, pois todos naquele dia decidiram virar as costas para mim.
— Foi uma crueldade o que ele fez. Esperou André dormir, o esfaqueou e fugiu, quanta barbaridade! André era um ser humano incrível e não fazia mal a ninguém. — Pedro dizia para o rapaz, com o rosto inchado de tanto chorar, enquanto eu me aproximava.
Eles notaram minha presença, eu estava logo atrás da mesa de Pedro. Mas não me cumprimentaram, então dessa vez não insisti. Dei os ombros e fui em direção a minha casa.
A única coisa que eu sabia até o momento era que Marcos estava preso, mas não tinha certeza que era meu padrasto. E que ele também havia matado uma pessoa esfaqueada, que por sinal tinha o mesmo nome que eu.
O bairro parecia menos movimentado naquele domingo, estava mais silencioso, e o clima não estava bom, mesmo com o dia estando lindo. Ao chegar em casa, percebo que minha mãe não está mais jogada na sala. Ela havia tomado um banho, e aparentava estar melhor.
Ela estava arrumada, provavelmente sairia para algum lugar. Fiquei menos preocupado, mas decidi que a deixaria à vontade para conversar comigo quando ela se sentisse bem para isto. Mamãe pegou os óculos escuros, sua bolsa e saiu. Esperei alguns minutos e logo fui atrás, queria saber aonde ela estava indo, já que há algumas horas antes ela nem conseguia levantar-se do chão.
Mamãe estava indo em direção a casa de Matheus, o que achei estranho. O que ela queria lá? Será que eles estavam tramando alguma pegadinha para mim? Só teria essas respostas se eu continuasse observando de longe.
Todos os meus amigos que estavam reunidos na casa de Matheus saíram e se juntaram a minha mãe, foram todos caminhando, e continuei os seguindo. Todos seguiam calados. Depois de alguns minutos, eles pararam em uma floricultura e todos compraram lindas flores. Eu sabia que eles estavam aprontando algo, provavelmente fariam alguma surpresa para alguém e não me contaram, afinal nunca fui bom em guardar segredos. Mas ainda assim algo estava estranho, eles estavam aparentemente tristes horas antes, aos prantos e uns consolando aos outros.
Eu estava prestes a descobrir o que de fato estava acontecendo, só iria embora depois que descobrisse o que eles estavam aprontando. Tudo ficou mais estranho quando Pedro se juntou a eles no meio do caminho.
Eu apenas observava de longe, e tinha cautela para que ninguém percebesse que estava os seguindo.
Depois de algum tempo andando, todos foram em direção ao cemitério do bairro,
O que eles querem no cemitério?, pensei.
Fui atrás deles, para saber o que eles estavam indo fazer ali.
Todos pararam em frente a um jazigo, depositaram todas as suas flores e começaram a chorar. Enquanto meus amigos abraçavam minha mãe, ela se desmontava em lágrimas e gritava.
— A CULPA FOI TODA MINHA!
Decidi me aproximar e saber o que estava acontecendo.
Ao chegar em frente ao jazigo me deparei com a frase:
"Aqueles que amamos nunca morrem, apenas partem antes de nós."
Me aproximei mais um pouco, pois custava acreditar na foto que estava acima da frase. ERA EU! E com o meu nome gravado na parte inferior.
ANDRÉ DE SOUZA PAIVA.
Minha vida foi tirada por alguém deveria ter feito papel de pai, por alguém que sentava na mesma mesa que eu, dormia na mesma casa que eu. Queria apenas dormir e acordar no outro dia, para continuar lutando para realizar meus sonhos, mas quatro facadas foram o suficiente para que isso não acontecesse. Eu morri por brilhar demais neste mundo tão apagado. Morri por amar, simplesmente amar alguém do mesmo sexo que eu. Morri simplesmente por ser quem eu sou. Tiraram minha vida! E agora eu simplesmente não existo mais. Homofobia mata, e ela deve ser combatida diariamente.
