Relato essa história no ápice do meu desespero. Estou sem razão e já não tenho controle de mim. Me chamo Julia. Há mais ou menos quatro meses aconteceu um fato que mudou o sentido da minha vida e não consigo encontrar uma saída. Me sinto perdida, como se eu não fosse mais eu ou ao mínimo tivesse controle do que é real ou não. Vou explicar o acontecimento e vocês irão entender o motivo desse auge de desequilíbrio. Eu acho que fiquei louca. Tenho tudo imprimido e interligado em uma pasta na minha casa. Se eu morrer, vocês já saberem onde está: debaixo da minha cama em uma caixa de sapatos antiga.
Esse meu medo irracional e que me deixou perdida iniciou-se dia 27 de agosto. Sempre tive vontade de fazer um trabalho voluntário, mas por minha rotina corrida nunca tive tempo. Em meados de julho me inscrevi em vários programas, pois estava livre aos finais de semana e queria realizar essa minha vontade. Uma instituição chamada Visões de Ouro, uma das últimas que me inscrevi nesse interesse para voluntariado, me ligou na sexta, dia 24 de agosto, marcando uma entrevista para segunda dia 27. Eu super ansiosa fui.
Ana Dora, uma senhora muito gentil, logo simpatizou comigo e conseguiu me encaixar aos finais de semana para ser voluntária na instituição. O lugar fica na região central de São Paulo. O intuído dela, por ser uma ONG, como ela disse, era cuidado e tratamento de pessoas com câncer no globo ocular ou que tivessem quaisquer doenças irreversíveis nos olhos e por esse motivo enxergassem pouquíssimo ou nada. Mas o problema é que quase todos não enxergavam nada, ou seja, cegueira total. Isso, com tudo o que sei, me apavora.
Mas, continuando, eu nos dois primeiros finais semanas fui e adorava cuidar deles, eram mais ou menos vinte pessoas e dessas duas crianças. Eu logo me adaptei e criei um vínculo com eles e eles também gostavam muito de mim. Dona Severa, uma cearense de 62 anos que nasceu com câncer maligno nos dois olhos e para sobreviver teve que arrancá-los com 2 anos de idade, não se lembra de nada praticamente do que é a visão. Mas ela me dizia que era feliz... Hoje está em estado vegetativo... Dona Severa foi a mais afetada depois das sessões de hipnose terapêutica para cegos que se iniciaram na clínica na terceira semana depois que entrei.
Um dono de uma grande empresa de Tecidos, pelo menos o que ele disse no momento em que apareceu, surgiu dizendo que queria doar meio milhão de reais para a clínica. Usou chantagem emocional dizendo que sua mãe, única familiar que estava viva, morreu com câncer no globo ocular. Em troca pedia um teste de uma semana com os pacientes de um tratamento terapêutico de hipnose que ele desenvolveu, que segundo ele serviria para evitar depressão, estresse e ansiedade dos pacientes. Os familiares autorizaram e o dono da clínica, Seu Agenor, foi o primeiro a aceitar, pois, segundo ele, esse dinheiro seria investido nas instalações da clínica. Apesar de já existir a 15 anos, nunca houve uma doação maior que mil reais. Depois se iniciaram as sessões. Essas malditas sessões... O estranho nisso tudo era que quem fazia as sessões, uma única vez com um paciente por dia, foi o homem dono da empresa, que não dando seu nome pedia para todos chamarem ele de Sr. Veg, que se dizia ser seu sobrenome.
Nos próximos 20 dias depois da primeira sessão ele aparecia na clínica com um relógio de uma cor que não consigo descrever de tão diferente e exótica e fazia as sessões de aproximadamente 10 minutos com cada paciente. Esses diziam que não lembravam de nada do que acontecia, só que escutavam no final das sessões um estalar de dedos. Porém nos primeiros dias diziam se sentir mais felizes e animados. Seu Agenor ficava alegre com cada depoimento de felicidade dos pacientes da instituição. Mas aí começaram os problemas. Pablo, um dos primeiros pacientes que se submeteu ao tratamento maldito, tem 27 anos, perdeu a visão com 4 anos em um acidente de carro que matou seus pais. Por não possuir família se tornou um dos primeiros moradores da ONG. Segundo ele, começou a ter sonhos com outros universos, coisas que vão além da imaginação de qualquer pessoa. Ele dizia com uma riqueza de detalhes, cores, formas e tudo mais que nem uma pessoa que já teve diversas experiências de vida conseguia narrar. E assim começou, a cada semana os pacientes ficavam falando sobre seus sonhos e contando sobre criaturas, danças sombrias e uma gama de outros sonhos que nunca foram descrevidas por alguém em sã consciência.
No segundo mês que eu estava lá e aproximadamente uma semana depois da última sessão, os pacientes narravam esses sonhos macabros que ninguém conseguia explicar. A instituição possui cinco voluntários comigo, duas auxiliares de limpeza, dois médicos, quatro enfermeiros, seu Agenor o dono e Ana Dora, que era uma espécie de gerente. Todos acharam estranhos os relatos dos pacientes, mas ninguém associou ao estranho homem que doou uma quantidade enorme de dinheiro. Provavelmente nesse período já estavam sendo subornados ou controlados.
Continuando, eu disse a Ana Dora e seu Agenor que eu iria perguntar para o Sr. Veg e informar sobre o ocorrido com os pacientes e se teria alguma relação com as sessões de hipnose terapêutica dele. No mínimo achei curioso o comportamento dos pacientes e parecia ser a única interessada no assunto. Seu Agenor não queria deixar, mas logo depois de muita insistência me deu permissão. Nesse sábado de noite, dia 13 de outubro, logo após os serviços voluntários, fui até o apartamento que ele tinha deixado na clínica como seu endereço. Ana Dora tentou contato, mas o telefone não atendia. Mesmo assim fui.
Era por volta das 20 horas quando cheguei ao prédio. De aparência magnífica e muito luxuoso, porém em uma rua um tanto sombria. Entrei e não tinha ninguém para me atender. Esperei uns 10 minutos e nada, então resolvi subir ao apartamento. Sendo no 20° andar. Bati na porta. Era o último no fundo do corredor. A porta estava somente encostada, então entrei.
Nesse momento me deparei com o medo extremo. Estava todos os móveis sujos de terra preta. As paredes pareciam brilhar com cores amedrontadoras e tinha uma escultura de uns 2,5 metros e aparência horrível no meio da sala. Só de lembrar já fico apavorada. Ela tinha formas que não consigo descrever e uma riqueza de detalhes dignas dos piores pesadelos já sonhados. Mas o rosto era o que mais me assustou e só de lembrar já sinto o desespero. O rosto daquela estátua... me fez sentir todas as piores sensações com todos os medos incluídos que já senti na vida. Escutei gemidos e sons metálicos que não consigo nem definir ou comparar a outros sons. Parecia que estava em uma outra dimensão. Os cheiros, as cores, a estátua apavorante, tudo parecia estar vivo demais. Senti um mal estar enorme. Saí correndo do apartamento, peguei o elevador e passei correndo pelo zelador, que agora estava lá. Senti raiva e o ignorei, mas ele tentou me acalmar.
Ele pediu pra eu me sentar. Meia hora depois, quando estava mais sossegada, expliquei tudo para ele. Ele me deu um copo com água e pediu pra eu aguardar no térreo que ele iria ver isso de perto. Ele voltou uns quinze minutos depois dizendo que estava tudo limpo. O impecável apartamento não tinha nada, inclusive o dono, Sr. Veg, estava sentado na sala lendo um livro. Falou que perguntou sobre as sessões de hipnose terapêutica que eu contei para ele e da relação com os sonhos dos pacientes, mas ele disse que não tinha nada haver, que esse tratamento terapêutico era simplesmente dizer palavras amigas para pessoas que necessitam. Disse também que ele tinha muita ternura por pessoas cegas pois sua mãe era e morreu com câncer e por isso depois que ficou rico ajudava as pessoas com doenças oftalmológicas. A mesma história que comoveu o pessoal da ONG.
Ele me chamou e pediu para ir com ele até o apartamento. Fui lá ver porque realmente não acreditei que isso era possível. Chegando lá, para me desequilibrar mais ainda, estava lá o maldito homem sentado no sofá e inclusive me ofereceu um café. Não aceitei e fui embora o mais rápido que pude.
Somente sosseguei quando estava na rua.
Lembro que nesse mesmo dia tinha uma grande quantidade de diversos vermes espalhados pelas calçadas e asfalto nas proximidades do prédio se debatendo como se estivessem sendo queimados vivos. Lombrigas, minhocas e outras diversas formas de habitantes das camadas rasas do subterrâneo estavam expostos. Lembro dessa cena como se eu estivesse vendo agora. Um medo absurdo me controlou e sai correndo por várias outras ruas e peguei o ônibus muito tempo depois, bem longe daquele lugar.
No domingo de manhã contei tudo para o Seu Agenor e os outros funcionários. Ele disse que talvez pelo calor de verão ou por eu não ter jantado tive alucinações. Mas mesmo assim avisou que iria verificar durante a semana essa história.
Passei os dias seguintes perturbada no meu trabalho e comecei a ter diversos pesadelos de noite. Coisas que me deixavam realmente horrorizada. Precipícios e lugares que nunca tinha visto. Criaturas me perseguindo em corredores brancos que não possuíam fim. Mares profundos e criaturas gigantes que conversavam comigo. Realmente achei que estava ficando louca.
O que me deixou mais desnorteada ainda foi o ocorrido na sequência. No sábado seguinte, dia 20 de outubro, quando cheguei ao instituto Seu Agenor disse a mesma história que o homem tinha dito ao porteiro. Contou também que diversos moradores relataram que a rua estava cheia de vermes se contorcendo durante a noite e que estes no domingo de manhã viraram pequenas estátuas espalhadas pelo chão.
E a maior surpresa foi ele me dizer que não precisava mais dos meus serviços. Ele disse que eu estava desequilibrada emocionalmente e que o melhor era eu me afastar do programa. Imaginem a minha indignação. Hoje tenho certeza que o maldito milionário subornou ou fez lavagem cerebral em todos.
Eu fiquei descontrolada. Xinguei todos. inclusive Seu Agenor. Nesse dia fui retirada pelo segurança e desde então não fui mais lá. Ana Dora, mais tarde, me ligou e contou que o Sr. Veg apareceu diversas vezes durante a semana, tendo reuniões com Seu Agenor e depois com todos os funcionários. Ela disse que não participou de nenhuma, pois nessa semana estava afastada por ter contraído conjuntivite. Lembro que a primeira semana eu fiquei muito desequilibrada com tudo, mas depois tentei esquecer que tudo aquilo aconteceu e tentei retomar minha vida. Tinha pesadelos diversos à noite e com aquele rosto de horror que a estátua tinha na minha cabeça nunca mais consegui dormir, na época que ainda conseguia, calmamente outra vez.
Quinze dias depois Ana Dora me ligou dizendo que cinco dos pacientes da instituição, os primeiros a passarem pelo tratamento, entraram em estado vegetativo. Um dia antes, ela disse que eles depois de uma convulsão, ficavam repetindo um nome "Ubiranuhah" e depois de umas 5 horas não responderam mais nada. Eu sentia que tinha alguma coisa haver com aquela maldita terapia. Na verdade sei que tem depois de tudo que descobri.
Lembro que nessa semana comecei a pesquisar tudo, mas descobri pouquíssima coisa. Foi aí onde comecei a fazer a pasta com as coisas que achava. Descobri que esse nome, Ubiranuhah, era referente a um deus pagão de uma cultura bem peculiar da região sul das américas.
Em um site de culturas vi também que segundo relatos e estudos sobre os povoados antes do colonização do continente, existiu uma tribo muito antiga e isolada da América do Sul e eles cultuavam um deus chamado "Ubiranuhah". Cada coisa que descobria me deixava mais intrigada. Será que um maldito deus pagão existia e estava atacando pessoas sem que ninguém soubesse? ou melhor, subornava para ter e fazer o que quisesse?
Comecei a associar tudo o que achava, mas havia pouquíssimas coisas sobre esse tema na internet.
O que realmente me ajudou a formular o que poderia estar acontecendo foi um historiador e pesquisador especializado em culturas indígenas que conheci em um museu de São Paulo.
Consegui o contato dele em um site e marquei uma visita, dizendo que era sobre um trabalho de escola. Na sexta, dia 9 de novembro, fui até o museu de tarde. Faltei ao trabalho dizendo que estava com virose. Nessa altura eu já tinha várias crises de insônia e pesadelos quase todas as noites, mas não eram pesadelos leves e sim aqueles profundos, de acordar gritando e desesperada.
Ele era um homem de uns 45 anos e muito calmo. Logo me senti confortável de perguntar qualquer coisa.
Ele me disse que estudos segundo estudos dele, existiu uma tribo chamada Uanomi, muito antiga e isolada na América do Sul e eles cultuavam um deus chamado "Ubiranuhah". Ele disse que os índios da tribo falavam que esse deus é mais velho que o Sol e ele se alimenta da vida, alma e sonhos daqueles que possui. Escrituras antigas dos nativos também diziam que as pessoas não poderiam ver seu rosto, por ser tão amedrontador quanto o medo mais profundo de cada ser e que por isso só se alimentava da vida de cegos. Ele me disse que os habitantes da época que olhavam para ele enlouqueciam. Lembro que nesse momento dei uma risada irônica de desespero e ele me olhou confuso.
Ele falou sobre histórias e interpretações que contavam na cultura dessa tribo que esse deus era uma aberração de corpo sem traços com um relógio de cores universais na mão que controlava a vida. Diziam escrituras antigas que os nativos eram obrigados a sequestram e cegarem índios de outras tribos para alimentarem o deus.
Ele também disse que segundo os históricos, onde esse deus chamado Ubiranuhah dormia, a terra cuspia toda a vida que possuía dentro dela. E essas vidas agonizavam até virarem estátuas.
Disse que, segundo anotações desses indígenas feitas no Equador de pesquisa em algumas escrituras em pedras antigas traduzidas achadas em 2006 por um grupo de arqueólogos, para se alimentar esse deus se transformava em uma estátua com sua verdadeira fisionomia e os cegos precisavam imaginar seu rosto sem nunca ter o visto para conexão com o mundo dos sonhos e das almas e que ele comia toda a vida da terra.
Tentando manter o autocontrole pedi para tirar fotos das anotações dele e fui embora.
Estava desnorteada. Tudo se encaixa perfeitamente. Se isso for a possível, essa era a resposta para o que estava acontecendo com todos os cegos da instituição Visões de Ouro.
Eu sempre fui descrente de tudo. Nunca acreditei em nada relacionado a religiões, céu, inferno ou coisas do gênero. Mas depois dessa conversa que tive com o historiador não sei em que mais acreditar.
Comecei a tentar achar outros relatos de coisas parecidas e encontrei alguns casos. Lembro que na semana do dia 12 de novembro, encontrei o relato mais antigo ocorrido em 1937, no estado do Rio Grande do Norte, onde pessoas cegas de um bairro estavam entrando em coma. Segundo a notícia, os médicos afirmavam ser uma doença desconhecida. Uma absurda e que foi abafada pela mídia da época ocorreu em Roraima, no ano de 1982, onde 120 pacientes de uma instituição para cegos entraram em estado vegetativo e também os médicos disseram que era uma doença sem cura. Nessa, funcionárias da limpeza disseram achar estátuas de vermes nas redondezas da clínica. Muito provável que esse Sr. Veg, ou melhor, Ubiranuhah, estava infiltrado na clínica se alimentado dos pacientes.
A quantidade de coisas horrorosas que vivem entre nós e nem ao mínimo são conhecidas me apavora e agora acredito que elas existam.
Hoje, dia 30 de novembro, antes de estar aqui em cima dessa ponte relatando essa história, liguei na clínica e Ana dora me disse que todos os cegos agora estavam em estado vegetativo e que ela foi afastada do cargo. Eles são mais uma prova dessa história.
Tenho certeza que todos foram subornados ou aquela aberração fez lavagem cerebral nos funcionários para controlá-los.
Eu fui a delegacia mas acharam que sou louca, não foram nem lá observarem a situação dos pacientes.
Não consigo dormir a 7 dias. Eu fui semana passada ao apartamento onde vi aquela estátua da aberração, mas o porteiro disse que ele tinha se mudado. Vocês entendem? Eu não durmo a 7 dias e estou tendo pesadelos horríveis agora acordada.
Não sou cega, mas talvez por ter visto o maldito comendo almas e ter dito contato com aquele ambiente eu estou enlouquecendo.
Eu vi aquele rosto horrível na janela do meu quarto duas vezes de madrugada a umas duas semanas. Estou tendo diversas alucinações. Parei de trabalhar semana passada e tenho a sensação de estar sendo observada a todo o momento. Já escutei diversos sons de noite em cima do teto do quarto, mas até minha família disse que eu estou enlouquecendo. Estou aqui em cima dessa ponte perdida e realmente estou sem razão e desequilibrada. Olhando os carros passando lá embaixo estou vendo ele dentro dirigindo... Nesse exato momento também estou vendo ele balançando o relógio para mim atrás de uma árvore a uns 50 metros... Estou com medo de fazer alguma besteira...
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Ubiranuhah
Mystery / ThrillerDe uma vontade comum em realizar um trabalho voluntário, a vida de uma menina muda completamente oscilando entre o real e a loucura. Um conto de suspense e muito envolvimento do desconhecido.
