Teimoso. Um dos principais adjetivos que meu irmão usa para me descrever. Ciro além de meu irmão é o meu maior companheiro. É o cabra que sempre está presente quando preciso.
- Cid, você entra em 5 minutos.
Dou um breve aceno para o rapaz e antes que se retire peço que me traga mais duas garrafas de água. Hoje darei uma palestra e minha boca seca não ajuda muito. Rapidamente as garrafas chegam até mim e numa questão de segundos esvazio uma.
- Cê tá bem? - Sinto suas mãos em meu ombro. - Cê está meio pálido, agitado... Comeu o que antes de vir?
- Estou bem, Ciro. Não se preocupe, é só nervosismo.
Na realidade não estou bem. Está um calor abafado e o ar-condicionado desse lugar não funciona. Pelo fato de ter deixado para terminar de organizar o texto de última hora não consegui comer nada antes de vir.
- Nervosismo? Sei. Não tente me enganar Ferreira Gomes.
Tento lhe rebater mas antes disso sinto uma tontura muito forte. Fecho os olhos e vou tateando para achar a cadeira para que eu me apoie. Falho e quase vou ao chão.
- Ei! Está bem, né?
- Estou bem, só tive uma pequena tontura. Desencana, homem.
- O que você comeu antes de vir? - Finjo não estar ouvindo enquanto massageio as têmporas. - Responde, cabra!
- Será que você poderia parar de berrar? - Falo entre os dentes.
Felizmente ele se cala por um momento. Se encosta na parede e tira seu lenço branco do bolso para secar o suor de seu rosto. Até onde conheço meu irmão sei que ele está furioso e me chamando de teimoso mentalmente. Consigo colocar meus pensamentos em ordem mas sinto náuseas..
- O senhor está pronto, Sr. Gomes?
- Ele não está pronto ainda. Ele não está bem mas é teimoso demais para admitir.
- Eu... Eu estou...
Sinto meu peito acelerado e estou ofegante. A imagem vai escurecendo aos poucos e só consigo ver a silhueta de Ciro se aproximando.
Tá certo, eu deveria escutar o que ele estava tentando me dizer. Na maior parte do tempo ele é superprotetor e não é legal para um macho de 55 anos como eu.
Abro os olhos lentamente e vejo que estou em um apartamento. No apartamento de Ciro. Estou deitado no sofá com o ambiente em meia luz. Tento me virar mas sou impossibilitado pois minha pernas estão sobre uma pilha de almofadas.
- Bom dia, princesa. Está melhor? - Apoiado na batente da porta com uma caneca de café.
- O que aconteceu? A palestra?
- Vamos lá... Você foi teimoso e acabou desmaiando no camarim. Te carreguei até aqui, e cuidei de ti.
- E a palestra?
- "Obrigado por não me deixar morrer, Ciro. Você é um ótimo irmão". Que isso, exagero seu... - Revira os olhos e vai até a cozinha.
Ele tem mesmo que sempre aumentar a situação?
Impacientemente me levanto e me sento no balcão da cozinha para observa-lo. Coloca uma caneca de café e um prato com bolo de milho na minha frente e apenas me observa. No lugar de reclamar eu apenas começo a comer e vejo seu semblante se tranquilizar.
By: CadeEu
