Alex Vlasov

52 1 0
                                        

— Dia horrível, dia horrível! — sibilou Ekaterine Slutjes, sob folhas de menta incendiadas pelo sol da manhã – Perestroika está passando por uma turbulência social: estabelecimentos lotados, lixo acumulado em praças públicas, mercadorias hostis. Desastre! Alex, ontem passei horas às cegas procurando por um vestido elegante, espesso, uma peça que valorizasse minhas curvas, mas parece que o mercado está em ruínas! Ou a qualidade do tecido não condizia com o preço exorbitante ofertado, ou... 

 — Entendo — interrompi impaciente, finalizando a sessão de fotos, a qual, admito, era um dos meus melhores trabalhos, embora a exaustão e a impaciência fossem nítidas em minha carranca. - O comércio e sua instabilidade são o principal problema do governo atual. Burocracia, burocracia...

Ekaterine logicamente não se importava com essas questões. Viúva, obesa, rica e fútil, só se comunicava por meio de reclamações artificiais. Frequentemente contrata meus serviços, seja porque a solidão arranha suas entranhas quando sente falta do marido, seja porque a autoestima exagerada a obrigue provar para si mesma que ela tem tudo o que quer e quando quer. Quanto mais dinheiro, mais desejos e necessidades.

— O quão pífia preciso ser para me sujeitar à banalidade desse lugar? Perestroika, diferente da cidade sublime da década passada, que valorizava a alta sociedade como uma mãe valoriza seu filho, agora é obscura e limitada. Não há crimes, ao passo que não há entretenimento; não há tristeza, ao passo que não há luz. É uma sociedade silenciosa.

A melancolia de suas palavras — surpreendentes, considerando quem as relata— é compreensível para qualquer pessoa que conheça a realidade por trás dos bons salários, altos impostos e saúde exemplar. De fato, a preocupação consome Perestroika.

— Enfim terminamos. Se tem alguma sugestão de iluminação, contraste, ou se simplesmente se incomodou com algum ângulo, tem o direito de se expressar.

Ekaterine suspirou profundamente, as mãos percorrendo seus cachos ruivos.

— Pela décima vez em três anos, Alex, impecável! —  Enquanto seu sorriso superficialmente branco estampava metade de seu rosto circular, meu celular, antes jazindo sobre minha mesa abarrotada de papéis e objetos de ferro, brilha e vibra, quase desabando do móvel.

Após nos despedirmos com um abraço pegajoso, leio a mensagem que recebi. Será de meu pai? Eu duvido. Provavelmente está escrevendo um artigo, de olhos vermelhos por causa da má noite de sono. Ser jornalista, segundo ele, é impetuosamente desgastante. Mas estou feliz, se isso o deixa realizado.

Não, não é meu pai.

É uma ameaça.

A ansiedade queima meu sangue. Suor escorre até minhas pálpebras. Raiva e aflição pertubam meus pensamentos. Meu pai, juntamento de seu inseparável colega de trabalho, Ivan Isayev, trabalham num pequeno escritório no leste de Perestroika. Estão licenciados para investigar sobre algo que envolve os escândalos do governo. Embora pareçam inofensíveis, eles detêm conhecimentos que o resto da Rússia nem imagina. Ambos passam dias e noites pesquisando sobre o caso, algo irrefreável. Temo somente por sua localização; já disse ao Sr. Vlasov quão perigoso pode ser os arredores da cidade. 

Na tela, a mensagem que fez com que minha úlcera atacasse. Alguém mandando um recado para mim, de uma forma indireta, como se quisesse testilhar meu pai. Quem seria? Aquilo me causava um nervosismo gigante. O suor frio, outrora contido dentro do poros, começa a escorrer pela nuca. Aquilo me abateu de tal forma que não consegui respirar por alguns segundos. O insight daquilo que meu pai vive me fez parar pra pensar. Quem estaria tramando contra? 

"Saiba o que ele está fazendo. Nós o controlamos. Nós o conhecemos. Se ele continuar, ninguém saberá o que aconteceu. É o único aviso."

Depois de ler, tomo um susto. Na tela do celular, vejo um nome borrado. Não consigo identificar por conta do nervosismo, que fez com que as pupilas embaralhassem as letras. Na... Nat... Natasha Isayev. Natasha. A filha do colega de trabalho de meu pai Andrey. Consegui conectar as pontas soltas; será que Natasha também havia recebido alguma ameaça? Sem titubear, atendi a ligação, com sequelas do nervosismo.

 — Natasha?

  — Venha para o escritório imediatamente. — Indagou a mulher de cabelos castanhos após desligar a ligação. Seu recado era curto e grosso. 

Algo havia acontecido e aquilo me perturbava. Fui para às ruas de Perestroika. Entrei na Picape e fui rapidamente em direção do escritório.  

PerestroikaWhere stories live. Discover now