Acordei com a conhecida dor de cabeça latejante, acompanhada do amargo gosto do cigarro impregnado na boca. O arrependimento já se insinuava, uma sombra familiar que pairava sobre as manhãs após minhas noites descontroladas. Embora não fosse fumante e detestasse o odor do cigarro, quando me entregava ao excesso de álcool, esses impulsos autodestrutivos se manifestavam sem cerimônia.
Não era apenas o tabagismo que poderia me levar à autodestruição. Pular refeições, dormir poucas horas, e às vezes passar a noite inteira acordada, eram hábitos que compunham meu estilo de vida descuidado.
No entanto, eu havia atingido um ponto em que a indiferença dominava. Estava exausta, e se me questionassem, não hesitaria em admitir que sentia que já havia ultrapassado meu tempo na Terra. Para mim, a vida era uma extensão forçada.
Me envolver com diversas garotas e iniciar relacionamentos fadados ao fracasso era uma tentativa desesperada de preencher o vazio que persistia em mim. Mas o vazio nunca desaparecia, e eu me sentia ainda pior quando esses relacionamentos se desfaziam.
Embora sentisse saudades de casa, não era o Japão que eu procurava. Havia algo mais, um lugar que ainda não havia descoberto. Buscava desesperadamente essa plenitude nas outras pessoas.
Um grande erro.
Esses maus hábitos foram se acumulando ao longo do tempo, mas a verdade é que eu me sentia assim desde os meus 17 anos. Perdida, sem propósito, e sem compreender por que eu ainda persistia nesse mundo. Nada fazia sentido; eu simplesmente seguia o fluxo.
A narrativa da vida adulta me ditava que eu deveria concluir a escola, fazer uma faculdade e conquistar um bom emprego. Concluí a escola, mudei para outro país em busca de melhores oportunidades, ingressei na faculdade. Era o curso que eu desejava? Não, mas era o melhor do país e prometia abrir muitas portas.
E meu sonho de ser atriz de musical? Considerado um capricho, algo que não renderia dinheiro. Eu não deveria desperdiçar meu tempo com sonhos ilusórios.
A expressão "perder meu tempo" faz-me rir até hoje, devido ao que me aconteceu.
Podia muito bem ser considerado um castigo divino. No entanto, foi numa noite chuvosa, quando voltava a pé da faculdade em meio à escuridão, que minha vida tomou um rumo inesperado.
Apenas duas quadras me separavam do meu apartamento, mas no trajeto, me deparei com uma cena de assalto.
Sem pensar, sem hesitar, avancei na direção do agressor, que, para minha surpresa, estava armado. Dizem que, nessas situações, a vida passa diante dos nossos olhos, mas para mim, tudo foi um borrão. Não vi, não senti.
Simplesmente acordei três meses depois, no hospital, viva. Talvez fosse um castigo divino para me fazer reconsiderar minha descrença na vida ou, quem sabe, uma piada de mau gosto.
Ao recobrar a consciência, enfrentei uma série de perguntas, mal recordando até mesmo meu próprio nome: Minatozaki Sana.
Só percebi que algo havia mudado quando tomei meu primeiro banho. Ao retirar meu moletom, me deparei com uma marca no meu braço esquerdo, como uma tatuagem: 300 dias, 7 horas, 13 minutos e 22 segundos.
Esfregar com sabão, deixar sob a água do chuveiro; nada fez a marca desaparecer. A dúvida pairava se aquilo era proveniente do hospital. Encarando a tatuagem, os segundos, minutos e horas diminuíam como um relógio implacável.
Na tentativa de compreender, busquei respostas na internet, mas nada conclusivo surgiu. A explicação mais plausível era de que aquilo era o relógio da minha vida. E se eu via o meu, poderia talvez enxergar os de outras pessoas.
O medo de ver o relógio de minha mãe era tão intenso que me restou investigar o enfermeiro que me acompanhava. Seu relógio estava no pescoço: "54 anos, 15 dias, 22 horas, 13 minutos e 10 segundos". Uma sensação de alívio e desespero me invadiu.
No último dia no hospital, decidi realizar o teste final. Passeando pelos corredores, vi datas nas pessoas e tentei ignorar, não queria ver os delas. Ao chegar ao setor de emergência, o caos reinava, e ninguém questionou minha presença. Ao olhar para um homem inconsciente na maca, seus tubos e aparelhos indicavam sua fragilidade.
Uma rápida inspeção revelou seu relógio: 1 minuto, 54 segundos. Uma ânsia de vômito me atingiu.
O apito dos aparelhos anunciou o fim da vida daquele homem. Era real. O relógio em meu braço era real. Com apenas 299 dias de vida, a cruel ironia da expressão "perder tempo" ecoava incessantemente.
Agora, com 200 dias, 12 horas, 5 minutos e 10 segundos, abandonei a faculdade que não me trazia felicidade. Meus pais, compreensivos, acreditavam que eu apenas precisava de um tempo. O peso da mentira e dos maus hábitos aumentava a cada dia.
Conheci a garota do assalto no hospital, Hirai Momo, que agora morava comigo. Uma amizade sincera floresceu, e ela se tornou minha verdadeira confidente. A revelação do meu "poder" a deixou fascinada, mas mantive em segredo quanto tempo restava para mim.
Momo sugeriu que visse quanto tempo ela teria. Com relutância, cedi. Seu relógio indicava 65 anos, 20 dias, 12 minutos e 27 segundos.
Decidi investir 99 dias em um curso de teatro e canto. Foi a única ação positiva em meio aos meus hábitos autodestrutivos.
O teste para o musical surgiu, anunciado por Momo, e a oportunidade de uma última tentativa de dar sentido ao meu tempo apareceu. Não exigia trabalho anterior, o que era perfeito para mim. Parecia muito irreal.
Determinada, no dia seguinte, embarquei com Momo para a audição.
Faria de tudo para conseguir passar naquele teste. Poderia ser a minha última chance.
