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    Como uma raridade quase impossível, o céu de Pasadena mostrava-se tão escuro que Dave, por um momento, pensou que uma hostil tempestade iria desabar sobre a cidade

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    Como uma raridade quase impossível, o céu de Pasadena mostrava-se tão escuro que Dave, por um momento, pensou que uma hostil tempestade iria desabar sobre a cidade. Naquele dia, em especial, sentia um temor. Teria se iludido toda sua vida? Se, por acaso, fosse descoberto, o que aconteceria com os filhos e a esposa? Eram as questões que o pertubavam durante o trabalho no zoológico de Billy Goodman, que o liberara mais cedo por conta dos ventos que se varriam a costa americana, vindos do Golfo do México.
 
     Sua casa situava-se ao lado de um bar pouco requintado, conhecido por ter como clientes fiés alguns pobres coitados que não conseguiam encontrar um lugar melhor para enfiar a cara do que em uma poça de cerveja e vômito.

    Definitivamente sob sua residência não aliviaria a ansiedade; um pouco de whisky, talvez. Foi sentar-se junto ao balcão, em um alto banco de ferro sob pálidas lâmpadas fluorescentes. Dave era um homem alto e ereto, no auge dos quarenta anos, mas quando permanecia umas poucas horas naquele banco, sentia as nadegas em carne viva e, por consequência disso, percebia a idade chegando. Sua herança paterna, a queda capilar, mostrava-se presente desde os trinta. Já a barba, mesmo sendo aparada regulamenta, tendia a crescer hirsuta, e os pelos já tomavam um tom cinzento.

— Cerveja? — Perguntou a atendente, uma moça que não deveria ser mais velha do que sua filha Gwen.

Dave balançou a cabeça negativamente.
— Whisky. Um copo, por favor.

    Na extremidade do bar, apoiada na parede, uma televisão mostrava algo sobre a nova música do Ryan Garcia, o que definitivamente não importava em nada a Dave. Um noticiário urgente era mais aguardado por ele; algo como uma grande explosão que tinha devastado um certo edifício do governo. Isso seria devastador e um êxtase ao mesmo tempo.  Ver Jon Holland e sua hoste de hipócritas queimando seria como um refresco aos seus olhos, depois de quase um ano sendo sugado pelos orgulhos e fiéis servos do governo americano. Dave Simons nunca foi um inocente e não desejava demonstrar isso; por noites não conseguia dormir pensado nas vidas que foram arrunuinadas por ele no passado. Não mais do que nove anos atrás, se unira a mais três homens,  e quarteto conseguira, em dias bons, três milhão de dólares. Um dólar de uma conta, dois de outra e, às vezes, dez de homens mais poderosos. Aos poucos, tinham tanto dinheiro que não precisariam trabalhar mais, só que a avareza falava mais alto; quanto maior era a quantidade dinheiro, maior eram os gastos. Trabalhar na contabilidade do Banco Ollson foi uma de suas maiores aventuras, e todos os dias, Dave rezava a qualquer coisa que o escutasse, pedindo uma proteção que fosse.

    Duane era um homem muito temeroso, todos sabiam, mas esperto para outras coisas e duas vezes livraram os comparas de serem pegos. Quando achou que estava suficientemente miliorionario, tentou desertar, mas Brady o impediu, e assim começou a ruína do quarteto, com Duane ensopado com o próprio sangue e com Brady com as mãos sujas do mesmo.
  
    Dave fugiu tão rápido quanto pôde, e soube pouco depois que Brady havia sido assassinado em um bordel. Do outro, o mais quieto e astuto dos quatro, Dave não teve notícias. Havia se conseguido se fixar em Los Angeles depois de um tempo, investira o dinheiro que tinha e construira uma família digna do sonho americano. Até que um certo Jon voltou a aparecer como um fantasma em sua vida, o pior de tudo foi descobrir que agora ele trabalhava com uma equipe do governo, e buscava os culpados pelo Grande Golpe de 1981. “Você fazia parte disso tanto quanto eu”, Dave lhe dissera quando foi acusado por Holland. “Estava com nós e participou de tudo. Se me botar na cadeia, eu faço o mesmo com você.” Ele se limitara a rir e responder: “Tenho provas contra você. Lembra daquela sua casa de campo para onde levávamos o dinheiro? Meus homens estão lá. Há digitais suas, mas não minhas. Duane está morto e Brady, provavelmente. Só resta você, Dave Simons. Não creio que alguém que roubou tantas pessoas será levado apenas para a prisão.”

    Dave lhe pagara o dinheiro exigido, quase metade de sua fortuna, e fugiu para Pasadena. Mas não demorou muito e Jon, como um cão de caça, achou o seu rastro. Desejava mais e mais, todos os dias, após acordar, Dave recebia mensagens através de números difententes, mas algo elas tinham em comum: o remetente era Jon Holland.

    Estava decidido a pôr um fim nisso. Faria isso por sua filha Vivian, que já terminava a faculdade e era tão astuta que Dave não sabia de onde ela conseguira tamanha inteligência; Gwen também merecia uma paz, era tão jovem e risonha, precisava protegê-la e lhe ensinar que teria de ser mais forte para encarar certas coisas na vida; Peter, o caçula, era o que o enchia de orgulho, e toda vez que o olhava, via-se nele. Ele, em especial, era a razão de tudo aquilo. Desejava estar ao lado de todos os três, e vê-los se tornarem adultos. Sua esposa também deveria desejar o mesmo, apesar de não demonstrar. Mesmo sendo tão rancorosa,  Vilma era uma boa mãe, ele sabia.

    A sociedade dos poderosos se estendiam como teias, perigosas, mas úteis. Não foi difícil encontrar um bando de homens experientes que por fim a um prédio e os canalhas que lá se amontoavam. Não bastava matar Jon, queria algo pior e que ficasse marcado na história. No início, pensou em fazer sua corrida matinal próximo do local onde a explosão acontecesse, mas desistiu da ideia diante do perigo evidente nela. Se estivesse lá, seria uma testemunha e, consequentemente, teria a vida revirada por outros hipócritas, então todo o planejamento teria sido em vão. Porém, se ficasse em um lugar distante e assistisse os noticiários, não seria mais do um cidadão, e a verdade estaria, para sempre, enterrada sob os destroços do prédio cinzento.
  
    No entanto, pela primeira vez em um longo tempo, o temor lhe consumia por dentro como uma crise de ansiedade; quando seu copo de whisky chegou, todo seus problemas foram resumidos no excitante e amargo líquido que descia pela sua garganta. O gosto dava-lhe prazer, um prazer minúsculo comparado ao que teria no fim daquele mesmo dia.

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