Lá estava eu novamente. Na mesma casa de sempre, no mesmo ano, na mesma data, no mesmo século. As mobílias eram neutras, intercalando com o chão tabaco e as paredes cheias de quadros de pintores famosos. As cortinas eram claras, permitindo a entrada do por do sol entrar. Não havia telefone na época, surgiu depois de algumas décadas, então, ao lado da porta de entrada ficava um pequeno vaso marrom com flores coloridas exalando seu perfume. Com a cozinha já ao lado, tudo era amplo, aberto e arejado, típica casa do século dezoito. Tudo estava no mesmo lugar como se nunca estivesse sido mexido, exatamente como havia estado no dia em que eu e minha família fomos mortos.
Meu nome é Emma Stuart, tenho nove primaveras, nascida dia 20 de março de 1826, na Nova Inglaterra. Tenho dois irmãos de três anos, Erick e Edward, eles são gêmeos idênticos.
Meu pai é um advogado muito renomado e minha mãe é uma simples dona de casa, mas nunca esteve feliz, pois sempre quis estudar medicina para poder ajudar as pessoas. Mas naquele tempo as mulheres eram submissas, eram criadas para se comportarem como uma dama para conseguirem um bom marido e terem uma boa família, e assim fez minha mãe.
Meus avós, Sr. e Sra. Lutor, estavam quase na pobreza, as vendas dos grãos da fazenda não estavam rendendo, então, minha mãe ofereceu seu futuro para salvar sua família, casando-se com meu pai. Filho de um Duque e de uma marquesa. Onde foi criado sob ordens severas do pai, onde impunha grandes tarefas já aos seis anos de idade, dizendo que ele teria que trabalhar duro pra ter uma bela mulher, e, assim, belos filhos. Meu pai, Stephen, era apaixonado pela mulher de seu irmão Luke. Ele havia tido um caso com ela brevemente, antes de Luke a pedir em casamento. Seu irmão sempre teve tudo e sempre era o melhor em tudo. Já havia feito duas faculdades, tido um bom emprego, já tinha sua própria casa, mas não tinha uma família, não ainda. Cansado de ver meu avô o cobrando tanto, meu pai avistou uma mulher loira com cabelos ondulados preso num enfeite de cabelo, e rapidamente a pediu em casamento durante um leilão de uma pintura rara, pela qual estou olhando nesse exato momento. Minha mãe, vendo sua família na pobreza, não demorou muito a dizer sim, e se casou.
Após dois anos casados, se mudaram e compraram uma bela casa próxima à casa de meus avós maternos. A casa, na qual estou agora, foi decorada pelo meu pai, pois minha mãe era proibida de dar sua opinião, ela só podia opinar quando ele pedia. É claro, algumas coisas ela o ajudou, mas sempre era meu pai.
Após se estabelecerem, no ano seguinte eles me tiveram. Nasci com oito meses e pesando quase quatro quilos. Eu fui quase a salvação do casamento de meus pais, onde ambos queriam salvar sua família e provar que eram exemplos para outros membros importantes do estado.
Minha mãe não ficou nada feliz ao me ter. Ela passou dias chorando no banheiro, enquanto meu pai trabalhava. Ela não queria que eu tivesse o mesmo futuro que ela. Pois toda garota que nascesse naqueles tempos, dificilmente conquistaria as coisas que queria. Afinal, segundo a sociedade somos o sexo frágil... acho que devem pensar por temer a força que temos.
Mas ela superou quando nasceram os gêmeos depois de quatro anos. Ela pensava que Erick e Edward iriam ter toda atenção de meu pai, e assim me "evitar" e deixar eu seguir minha vida, mas não aconteceu.
Meu pai batia em minha mãe toda vez que ela se negava a me ensinar como fazer os deveres de casa, como cozinhar, limpar, passar roupas, costurar, etiqueta, entre mil outras coisas. Uma vez meu pai chegou a quebrar o braço de minha mãe quando pegou ela folhando um livro de medicina, ele disse que ela tinha mais o que fazer, que era educar eu e meus irmãos.
Bom, o jeito possessivo e agressivo de meu pai não era só na família, e sim com seus pais e em seu trabalho, onde conseguiu um nível considerável de inimigos. Já minha mãe, com seu jeito doce e gentil, conquistava todos com seu jeito ao dialogar nem que seja por cinco minutos e foi assim com o nosso vizinho, Simon.
Um homem de trinta anos, estudante de medicina, viúvo e com dois cachorros de raça. Ele estava em seu último ano na faculdade de medicina, e esse foi o motivo da conversa dele com minha mãe, enquanto ela regava o nosso jardim e ele aparava as folhas de seus arbustos, e foi nessas idas e vindas que eles se apaixonaram.
Meu pai não desconfiava de nada, não por enquanto. Pois ele sempre estava trabalhando e quase sempre estava fora de casa, só chegava à noite, as oito e meia. Minha mãe mandava eu e meus irmãos brincarem no quintal, enquanto ela e Simon estudavam os órgãos do corpo humano, por qual minha mãe era obcecada, medicina era sua paixão.
Já no auge, depois de longos meses nesses encontros de estudos, minha mãe conseguiu salvar nossa vizinha, Maggie, de uma convulsão durante um café da tarde.
No mesmo dia correu para contar a Simon que ela havia salvado uma vida, e, claro, ele ficou extremamente feliz. Simon me dava girassóis toda vez que nos visitava, e aos meus irmãos, biscoitos de avelã. Minha mãe estava loucamente apaixonada, e Simon mais ainda. Ele queria fugir com ela e com a gente, mas minha mãe sabia que isso arriscaria meus avós e cairiam na falência novamente.
Enquanto eles tomavam café, eu peguei meu coelho, Jorg, e fui até o jardim brincar, mas ele acabou fugindo e foi parar da vizinha da frente. Uma senhora viúva, já na casa dos setenta, rabugenta e extremamente religiosa estava parada em frente à sacada, tricotando.
— O que faz aqui senhorita?
— Me desculpe senhora, estava arejando meus pensamentos. — Respondi, escondendo o coelho de trás de meu corpo.
— Onde estão seus pais?
— Meu pai está no trabalho senhora, e minha mãe está com Simon em nossa casa.
— O médico?
— Sim senhora. — Quando eu terminei de falar, ela fechou a cara como nunca havia visto antes, e foi aí que percebi o erro que cometi.
— O que está escondendo? E não adianta mentir. — Eu apertei meus dentes e mordi a língua, e então, mostrei o coelho.
— Mais que absurdo! — Exclamou a senhora, levando a mão em seu rosto. — Uma garota da sua idade não deveria estar perdendo tempo brincando com bichos. Sua mãe aquela oferecida, deveria estar ensinando etiqueta á sua filha, e não levando outro homem para dentro de sua casa.
— Eles são só amigos, senhora.
— Mulher não deve falar com outros homens, muito menos levar para dentro de sua casa, que absurdo. — Eu faço uma pequena reverência, e corro para minha casa.
No final da tarde, meu pai chegou em casa o mais cedo como de costume. Sua cara estava vermelha, seus olhos azuis pareciam que saltariam de seu rosto, ele estava com sua mão cheia de sangue. Minha mãe correu atrás dele no banheiro, então eu sabia que algo havia acontecido. Então peguei meus irmãos, corri até meu quarto e acenei com o lampião para casa de trás, onde morava Leslie, minha amiga, tentando a chamar para vim a minha casa.
Os gritos de meus pais brigando eram absurdamente altos:
— ELE NÃO FEZ NADA, STEPHEN! PARA COM ISSO.
— EU SAIO PARA SUSTENTAR NOSSA FAMÍLIA, E VOCÊ FICA TRAZENDO OUTRO HOMEM PARA DENTRO DE MINHA CASA?
— ELE É UM AMIGO.
— UMA DAMA NÃO TEM AMIGOS. APENAS SEU MARIDO E SEUS FILHOS! SUA VAGABUNDA, OFERECIDA, PROSTITUTA. — E mais tapas eram dados, e mais e mais.
Após a briga, Leslie, minha amiga pela qual eu havia chamado, havia chegado. Minha mãe estava preparando o jantar como de costume, mas desta vez, o tempero eram suas lágrimas de angústia e dor.
O cheiro de frango com batatas assadas no fogo a lenha era encantador. Acompanhado de arroz com bastante alho e temperos que só minha mãe sabia fazer.
Postos sobre a mesa, eu visto meu vestido branco feito à mão pela minha tia Piedade.
— Como estou, Leslie? — Pergunto.
— Está linda, minha amiga. Parece uma princesa. Desse jeito, arranjará um pretende em breve. — Diz Leslie, ajeitando seu vestido azul marinho com bordados, que talvez estaria um pouco apertado em seu corpo.
— Emma... Por que seus pais estavam brigando?
— Não me diz à respeito, Leslie, muito menos a você. Agora, vamos colocar uma musica enquanto jantamos. — Pego a pelo braço, e a arrasto para a sala de visita, onde me sento e começo a tocar piano.
Enquanto me delicio com as notas musicais, vejo Leslie colocando a mesa com minha mãe, enquanto meu pai ajeita os gêmeos na cadeira para comer.
— Emma, querida, o jantar está servido. — Grita minha mãe, exibindo aquele lindo sorriso, que combina perfeitamente com as maçãs de seu rosto angelical.
— Só mais um pouco, mamãe. — De repente, com a melodia das notas musicas iam decaindo, o vaso que ficava ao lado da porta cheio de girassóis que Simon me dera se espatifou no chão quando a porta se abriu com toda a força.
O homem entrou pela porta com um cutelo em sua mão, e correu em direção ao meu pai, que rapidamente se pôs de pé para proteger minha mãe e meus irmãos. Me lembro perfeitamente de ver o homem retornando o cutelo do peito de meu pai, já morto. Não conseguia me mexer, estava de pé sobre o piano, congelada e paralisada, apenas vendo minha família sendo morta.
O homem voltou-se para minha mãe, e pude ver seus olhos arregalados de surpresa e tristeza ao mesmo tempo. Ele pôs sua mão sobre seu pescoço, e arrancou sua cabeça sem remorço algum. Leslie correu para meu quarto enquanto os gêmeos berravam sem parar ainda sentados na cadeira. O homem agarrou a faca sobre a mesa e enfiou na cabeça de Edward, e logo em seguida em Erick.
Uma poça de sangue se formava diante meus sapatos brancos. Me lembro de sentir meu estômago dobrar em mil partes, senti um breve cheiro de flores e grama cortada, antes do homem passar a faca em minha garganta e me debruçar sobre a poça de sangue. Infelizmente, com os olhos abertos e com um pouco de vida que me restava, eu vi o homem agarrar Leslie do meu quarto e arrasta lá para perto de mim, onde ele enfiou a faca diversas vezes... Então, olhei pra cima e vi o homem de costas, ajoelhou no chão perto da porta onde havia caído os girassóis... Ele agarrou uma flor e atirou sobre meu corpo, e foi aí que pude ver sua face. Era Simon. O amor da vida de minha mãe, meu amigo e o herói de meus irmãos. Seu rosto escorria sangue, e seus olhos verdes estavam obscuros, sua alma exalava fúria, inveja, dor, e todos sentimentos ruins. Então, a vida abandonou meus olhos, e uma enorme luz branca se acendeu como um farol de um carro, e eu parti... Junto com meus pais, meus irmãos e minha amiga Leslie.
Mas agora estou aqui novamente, dia 14 de julho de 1835 na mesma casa onde tudo aconteceu.
Como já aconteceu, meu pai passará pela aquela porta, com as mãos de sangue e seu rosto cheio de raiva. Logo em seguida, brigará com minha mãe e batera nela até sua dignidade for embora, mais dessa vez nada disso iria acontecer.
Sim, estou vivendo minha vida novamente. Eu ainda não sei porque de eu reencarnar três vezes. Bom, a primeira vida foi normal, pronto. Mas a segunda, foi a mais estranha de todas. As lembranças, a casa, meus amigos, tudo o que acontecia eu sentia que já havia acontecido. Eu me achava louca ou possuía alguma doença, mas não tive tempo de pensar, e morri novamente antes da décima primavera.
Mas agora, em minha terceira vida, já sei o que eu devo fazer, ou melhor, eu fiz. Eu matei meu coelho Jorg para que eu não levasse ele sozinho naquele dia no jardim, e para que ele não fugisse para o jardim da senhora religiosa e para que eu não abrisse minha boca dizendo que minha mãe estava com um outro homem dentro de nossa casa. Assim, a velha fofoqueira não mandaria uma mensagem para meu pai, e meu pai não teria ido até a casa de Simon lhe bater. Só aí, Simon não ficaria possuído de ódio e fúria e mataria o homem que arruinou sua vida, e a mulher que tanto amava e seus queridos filhos que um dia desejaria ser seus.
Me sento sobre o piano novamente, mas desta vez sei que nenhum homem entrará pela aquela porta e assassinará eu e minha família brutalmente. Ou, era o que eu esperava... Novamente, estou deitada sobre o sangue de minha família, afogando com o meu próprio sangue, enquanto meus olhos abandonam a luz de minha alma.
Uma imensa luz se acende em minha mente e aí eu pode ver que aja o que houver, não podemos mudar o que já está escrito. Podemos mudar os caminhos, as direções, os sentidos, mas sempre acabaremos no final do precipício.
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CONTOS PARA DORMIR OU NÃO
Short StoryContos autorais e diversificados em vários gêneros literários!
