1 - Borboleta

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Não, não aquele executivo com a maleta! Um pouco mais pra direita, eu sou cara de 19 anos, cabelo preto arrepiado, camiseta do lanterna verde suada, um All Star azul e outro preto, derrubando pães de uma bandeja gigante posta à frente ao pedalar às pressas na bicicleta roubada de um vendedor ambulante para tentar chegar mais rápido ao hospital. Me chamo Eduardo, namorado da Jenny, e ela está em coma.

Bom, eu sei que vocês mal estão entendo, então como estou poupando fôlego, me deixem contar de maneira breve um pouco de mim e desse contexto. Nasci e cresci em São Paulo. Sou filho de um Inglês e uma Paulistana, portanto tenho duas línguas maternas, mas mesmo assim ainda preciso de algum reforço em inglês para poder conversar bem com meus primos. Sempre me dizem que eu devo ter nascido na época errada. Eu amo ouvir músicas como as MPBs do século passado e aqueles filmes em DVD que eu mal encontro hoje em dia. Boa parte da minha vida estudei na escola Prof. Dr. Herculano Bastos Silveira e, 6 anos atrás, em 2045, essa história começou.

Nunca tive muitos amigos e pessoalmente nunca gostei muito dos estudos, mas havia um gordinho ruivo que usava óculos... Sim, ele tem sardas também, joga Dungeons & Dragons e mesmo depois da puberdade sua voz está suavemente mais grave que a de um passarinho, ou seja, ele é um alvo de bullying perfeito, e já perdi as contas de quantas vezes eu o defendi. Seu nome é Thomas, ele é definitivamente o garoto mais inteligente da escola e meu melhor amigo. Nossas mesas ficavam sempre uma do lado da outra no fundo da sala, éramos dois isolados. Éramos dois, até que alguém pedindo licença bate à porta. Uma garota com cachos castanho-avermelhados caminha até o fundo da classe e se assenta à minha frente. De repente, com um sorriso encantador e seus olhos verdes, claros e penetrantes, ela se vira para gente e diz:

— E aí excluídos, meu nome é Jennifer, Jennifer Lerch, mas vocês podem me chamar de Jenny. Qual o de vocês?

E foi assim que o grupo dos excluídos ganhou sua mais nova integrante. Ela é engraçada, linda e extrovertida, uma pessoa incrível! Mas isso só durou um ano. Ao final de 2045 Thomas foi escolhido para um projeto novo, onde estavam reunindo crianças inteligentes para formar uma academia em outra cidade com ensinos avançados. Pois é, eu não brinquei quando disse que ele era inteligente. Ainda nos falamos sempre via Orbie¹ e nos vemos sempre que podemos, e desde que ele foi eu e Jenny nos tornamos cada vez mais próximos. Nós saíamos juntos e conversávamos o tempo todo, e nas férias, quando nos víamos pouco o que eu mais queria era voltar para escola pra estar mais com ela. Narrando isso agora é tão óbvio, chega a ser ridículo meu espanto com o que senti após as férias de julho.

Estavam todos com sono durante a entediante aula de filosofia no primeiro dia após as férias, ninguém estava realmente interessado naquela aula. Como de costume a Jenny estava sentada à mesa à minha frente. Ela leva uma mão ao cabelo e joga franja que de vez em quando cobre seu rosto para o lado, e me lança um olhar por cima do ombro:

— Cara, que sono, essa aula tá um saco...

— Demais... — Foi só o que consegui responder, deixando escapar um suspiro em seguida e trincando o maxilar levemente caído para não deixar meu coração saltar pela boca. Essa foi a primeira de muitas reações parecidas como o sentimento de que um monstro estava comendo meu estomago toda vez que ela se virava para conversar comigo. Definitivamente eu estava me apaixonando pela Jenny.

— SE LIGA, PRESTA ATENÇÃO SEU LOUCO! — O grito e a buzina vindos de um Toyota me trazem de volta para a realidade. Quase avancei o vermelho sem prestar atenção aos carros, já estava me afogando nas memórias.

Essa data eu nunca esqueço, era 12 de outubro de 2046, o dia em que eu finalmente tomei coragem. Havia um cinema que passava filmes antigos de vez em quando e nós marcamos de ir assistir Clube dos Cinco, foi fantástico. Depois que saímos dei a ideia de irmos à uma praça perto dali que dava direto para o pôr do sol. Era um lugar incrível, estávamos sentados com as costas apoiadas no tronco de um grande ipê amarelo, com os ombros colados observando os últimos raios de sol do dia pintando o céu azul num grande mar de cores aquarela, e as primeiras estrelas começando a iluminar o céu noturno.

— Cara, isso é lindo — Jenny disse, com um olhar maravilhado — Me senti tão bem hoje, obrigada por me trazer até aqui, estava precisando disso.

— Ah, eu tava só retribuindo o favor — sorri de volta, eu estava realmente feliz.

— Retribuindo? Como assim?

— Quer dizer, você é incrível, você sempre tá comigo e eu me sinto tão bem quando estou com você, queria retribuir — falei, tentando esconder o nervosismo por trás de minhas palavras.

— Ah, eu sei, você me ama — Ela disse rindo.

— É, eu amo mesmo... — eu disse, sério e meio envergonhado, acho que ela percebeu o que eu queria dizer.

— Ed, você quer dizer...

— Jenny, você aceitaria...

— Ah cara, você é muito lerdo! — Me interrompendo com um sorriso de orelha a orelha e me beija. Não sei se ela, mas pra mim o tempo parou naquele instante e eu era o cara mais feliz do mundo.

Desde aquele dia e nos últimos 5 anos eu entendi como era ser feliz, eu tinha a garota dos meus sonhos ao meu lado, graças a ela eu comecei a me esforçar mais na escola e estava indo bem, por mais que não tão perto fisicamente eu tinha amigos, estava tudo perfeito. Perfeito até demais. Ela só estava voltando para casa... Ela sempre voltava a pé, mas seu pai havia ido buscá-la de carro numa sexta-feira a tarde e um imbecil de um motorista bêbado correndo num cruzamento esmagou a porta lateral onde a Jenny estava. O carro capotou. Ela bateu a cabeça. Isso é tudo o que eu sei. Maldito efeito borboleta! Uma decisão diferente e a merda toda acontece. Apenas um lapso ínfimo, um instante, um pequeno contratempo tem todo o necessário para acabar com tudo. Agora ela tá no hospital num coma e talvez eu esteja prestes a perder a garota da minha vida.

***

¹Orbie é um aparelho lançado pela empresa Orbie Technology em 2043. A olho nu se parece com um simples globo de vidro colorido e brilhante, mas usado em conjunto com o Orbie Lens (o par de lentes desenvolvidos pela empresa) você vê um holograma 3D bastante realista da pessoa conectada. 

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Agradecimentos à umdemajor que me incentivou a reescrever ♥️

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