Uma decisão repentina

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"É caminhando que se faz o caminho" Sérgio Britto


Já era noite, uma noite quente, estranhamente quente. Resolveu, então, que sairia para caminhar, como se ir para algum lugar diferente fosse tirar aquele abafamento que era mais na alma do que no corpo. Estava cansada de ficar no mesmo lugar, fazendo as mesmas coisas, vendo as mesmas pessoas. Há bastante tempo, sentia que não pertencia a nada nem a ninguém e isso a sufocava demais. Ela precisava mudar tudo. Havia ouvido falar que não importa onde você está, mas sim quem você é. A questão é que ela não sabia quem era, já tentara descobrir de várias maneiras. Mudara o estilo diversas vezes, tentara usar seu gosto musical como forma de expressão, seguir modinhas, enfim, pensara em inúmeras formas de se definir e quanto mais pensava nisso, mais calor sentia. Decidiu, então, que precisava se refrescar, precisava se desintoxicar e decidiu começar imediatamente.

Nessa noite de verão, sem nada para fazer, mas ao mesmo tempo cheia de compromissos e responsabilidades oprimindo sua mente, resolveu começar a verdadeira busca por si mesma. Agora, certamente, não se importaria com o que dissessem ou pensassem, afinal de contas, estaria sozinha por um bom tempo.

Sua testa gotejada de suor fez-lhe ir ao banheiro para lavar o rosto, rapidamente jogou água, fez dois movimentos repetitivos para cima e para baixo e o secou automaticamente. Até isso lhe irritou. Durante anos estava fazendo tudo sem pensar muito, pois tudo era igual, tão pré-determinado, que cada parte de seu corpo já sabia que movimento fazer. Deu uma olhada no espelho. Os olhos fundos e as linhas finas em sua testa revelavam a fadiga excessiva e a falta de sono. Achou o cabelo desgrenhado e seboso, mas como poderia estar diferente quando àquela hora da noite ainda fazia trinta graus. Refez o rabo de cavalo e deu uma última analisada naquela pessoa que, jurava para si mesma, veria pela última vez.

O que, a princípio seria apenas uma caminhada de uma noite de verão, saiu do controle e passou a ser uma longa jornada de autoconhecimento. Sim, buscar a si mesmo parecia uma expressão tão clichê (era a segunda vez que pensava nela em menos de meia-hora), no entanto, de fato, a garota sentia como se tivesse sido esquecida em algum lugar e continuasse vivendo sem ela. Não sabia quando nem onde acontecera, apenas sentia que existia mais dela mesma fora dali e que essa parte realmente lhe fazia falta.

Ficou enrolando por mais alguns minutos, esse processo de sair de casa se arrastando com atividades corriqueiras, alinhou um quadro, levantou um porta-recados vazio, há muito derrubado pelo vento, dobrou algumas roupas que estavam em cima da poltrona. Logo se deu conta de que se iria fazer uma caminhada mais longa, precisava levar alguns objetos pessoais. Pegou uma pequena mochila e a encheu com alguns itens de higiene pessoal, duas mudas de roupas e um par de calçados extra. Colocou-a nas costas e fechou a porta atrás de si, sem saber quando a abriria novamente.

A passos largos se distanciava daquela que, por cinco anos, tinha sido seu abrigo, desde que chegara à cidade. Na época, recém-formada em história, ela estava cheia de expectativas e receios. Hoje só lhe restavam os receios. Oh, não! Estava caminhando rápido demais, precisava desacelerar, ela não tinha pressa para chegar a lugar nenhum. Tomou, pela primeira vez, a decisão de apreciar a paisagem.

Agora, ouvia seus passos. No silêncio daquela noite, seu caminhar parecia o tic-tac de um relógio cuja pilha estava acabando. Ela sorriu, timidamente, pensando nisso, afinal durante muitos anos ela corria atrás do tempo e tentara alcançar o ritmo do ponteiro dos segundos. Era uma ironia do destino, se ouvir como um relógio prestes a não servir para nada. "Será que alcancei o ápice da mediocridade?! Não, não pode ser, essa foi a coisa contra a qual eu lutei a minha vida inteira". Opa, estava caminhando rápido demais novamente.

De madrugada, na densa escuridão, ela conseguiu descobriu mais detalhes sobrea cidade do que os muitos anos vivendo ali e passando por aquelas ruas à luz do dia. Os detalhes de uma parede aqui, de uma janela entreaberta acolá, prédios acima de lojas, os quais ela nem sabia que existiam. Ficou assustada ao perceber um terreno cheio de restos de uma demolição e se dar conta de que já passara inúmeras vezes por ali, mas não conseguia recordar do que demoliram. Isso a fez refletir sobre a percepção das pessoas sobre as coisas. Perceber muitos detalhes, apesar da escuridão da noite, só provava que nossos olhares sobre as situações estão muito mais relacionados a nossa vontade de ver do que às condições do momento. Lembrou das muitas vezes em que sentiu raiva do pai, das muitas palavras duras que desejou lhe dizer, mas nunca teve coragem. Essa raiva a deixava cega para os muitos pontos a serem avaliados para se admirar ou não uma pessoa. Dois anos antes, quando a presença dele foi roubada da família por um acidente estúpido e ela sentira tanta dor no peito que não conseguia nem descrever, ela começou a lembrar de como costumava dançar no colo dele quando ele chegava do trabalho e que todas as músicas antigas, consideradas ridículas hoje em dia, eram cantadas em alta voz quando seu paizinho colocava seus discos preferidos na vitrola e eles faziam duetos usando pentes e escovas de cabelo como microfones ou então dos momentos em que ele chegava de viagem trazendo doces nos bolsos, os quais eram entregues a ela através de truques de mágica. Essas lembranças todas a fizeram sorrir, mas foi um sorriso salgado de lágrimas. Como pudera deixá-lo ir embora para sempre sem que ele soubesse que era amado, que não importava o que tinha feito de errado, ele era o pai dela. Como perderam tantos dias de abraços e sorrisos em discussões tolas. Por que ela cresceu e perdeu a pureza do olhar de menina em direção a ele? Incrível como toda mágoa se dissipa quando não existe presença. Como a saudade faz você sentir culpa por algo que, por anos, você sabia com que palavras justificar. Quantos livros e filmes já não a tinham feito querer aproveitar melhor o tempo com as pessoas, mas ainda nas primeiras horas juntos algo lhes fazia discordar, logo ela lembrava da vergonha das ideias dele e de como a sua personalidade era difícil. Quando longe, pensava em como gostaria de tê-lo por perto, dos gestos de amor que ele tinha, porém o medo é assim, quando nos aproximamos de algo que nos feriu em algum momento, acabamos nos armando e causando o que mais tememos.

Estava tão absorta em seus pensamentos que não notara o quanto estava longe, inclusive nem sabia que bairro era aquele. Como ainda havia lugares que não conhecia. Decidiu que estava muito escuro para seguir caminhando, no entanto não se sentia segura o bastante para dormir naquele lugar ali, sentou sob a luz de um poste e resolveu ficar ali até amanhecer. 

Pelo caminhoKde žijí příběhy. Začni objevovat