Capítulo Único

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Sem chão.

Foi assim que Pedro ficou quando o chefe lhe deu a notícia de que infelizmente já não faria parte da equipe daquela empresa. O idoso não explicou o porquê da decisão, e o mais jovem tampouco questionou o motivo. Sua boca até abriu umas duas ou três vezes durante o tempo em que permaneceu ali estático, sentindo o sangue se esvair de seu corpo ao passo que as batidas de seu coração adquiriam um ritmo cada vez mais veloz. Era engraçado como poderia sentir duas reações opostas simultaneamente.

Se perguntou em que errara. Se não falhava a memória seu trabalho até mesmo tinha sido elogiado um mês atrás. Entretanto não conseguiu pronunciar nada. No fundo, temia a resposta que poderia obter. Era preferível não questionar e levar com si a crença de que se não fosse pela crise ainda estaria empregado do que perguntar e ter sua hipótese levada por água abaixo pelo chefe dizendo-lhe que seus serviços tornaram-se inúteis.

Todos os segundos posteriores àqueles passaram como um borrão. Pedro não era capaz de dizer como chegou a casa, o que comeu, quais notícias percorreram o mundo naqueles dias ou se chegou a conversar com alguém. Talvez não lembrasse porque naquele momento as questões pareciam muito terciárias perto da sua demissão.

Apesar disso, uma semana depois acordou disposto o suficiente para procurar outro emprego. Começava a pensar positivo. Talvez aquela fosse sua chance para buscar um emprego que desafiasse seu desempenho. Não podia negar que apesar de gostar do antigo trabalho, já estava um pouco acomodado. Não sentia o mesmo prazer dos dias iniciais — em que cada tarefa dada era como um desafio a ser cumprido — apenas realizava uma planilha após a outra, um cálculo após o outro como quem descascava uma batata pela sexagésima vez em um único dia.

Era isso!

Levaria aquela demissão como uma oportunidade de fazer-se melhor e reconstruir o prazer que tinha pelo trabalho. Com esse pensamento em mente, pegou o computador e abriu o arquivo que há tanto estivera intocado. Não havia muitas alterações a serem feitas em seu currículo. A sua carga de trabalho não dava muita brecha para que pudesse aperfeiçoar suas habilidades. Na realidade, as oito horas de trabalho com algumas horas extras o deixava tão exausto que nem mesmo os cursos ofertados pela empresa fizera com gosto. Contudo agora o momento era outro. Tinha muito tempo livre e poderia torná-lo útil. Iniciou as pesquisas, buscando algum curso que pudesse complementar seu conhecimento. Sabia que o certo seria economizar o máximo possível, porém por ser uma pessoa prevenida sempre separava parte do seu salário para possíveis imprevistos.

Se analisasse bem, perceberia que — embora sentisse certa estabilidade por fazer parte da empresa por mais de cinco anos — a insegurança ainda se fazia presente. Aquele não era um medo exclusivo dele. Muito pelo contrário. Frequentemente nas conversas tidas entre uma parada para o café e outra, ouvia comentários que remetiam a provisoriedade da vida trabalhadora. Às vezes era um sonho que um colega havia tido, às vezes era um burburinho que se espalhava de que algum setor entraria em corte de gastos e deixava a todos em pânico, às vezes era algum colega que de fato perdera o cargo. Eram naqueles instantes que percebia que o desemprego afetava inclusive aos empregados. Não era à toa que a Maria, do setor monitoramento, tinha ataque de pânico toda vez que era chamada pelo chefe. Rolavam boatos de o empresário sentia um prazer sádico no ato de demitir, e por isso, nunca repassava a missão para o Departamento Pessoal. Agora que fazia parte da massa desempregada, Pedro começava a cogitar a veracidade do boato.

Ainda assim, ele pensava que pelo menos tivera a sorte de permanecer tempo suficiente para ganhar experiência e conseguir juntar dinheiro de modo que pudesse se sustentar pelos próximos quatro meses. Com certeza, até lá arranjaria outro emprego. Trabalhar tanto tempo no mesmo local deveria lhe dar alguma vantagem. Além do mais, a ideia de voltar a estudar, mesmo que a duração do curso fosse de apenas um dois meses, lhe dava confiança de que passaria a imagem de uma pessoa dedicada nas entrevistas. Se tentasse iniciar o mestrado então seria ainda mais vantajoso.

E assim foi.

Pedro frequentava as aulas durante os finais de semana. E nos dias úteis passava conectado à internet, dando F5 em todas as páginas de empregos que encontrava, enviando o currículo a cada vaga que surgia. Foi chamado para algumas entrevistas e não demorou muito para que a sua segurança começasse a ser minada. Para seu desprazer o mercado não era mais o mesmo de sete anos atrás. Eram muitos candidatos para poucas vagas, e logo percebeu que a frase "entraremos em contato em breve" não carregava nada além de uma mentira. Correção: Carregava também gentilezas que o enchiam de esperanças, que se transformariam em agonia após a segunda semana esperando o telefonema.

O curto curso de especialização acabou e com ele toda a interação social que Pedro ainda preservava. Ele morava sozinho, nem mesmo um peixe lhe fazia companhia. Sua família era de outro estado e os poucos amigos que tinha na cidade eram os antigos colegas de trabalho. Era claro que, após perder o único vínculo que o obrigava a vê-los todos os dias, o laço se faria frágil. Não era simples manter os relacionamentos da mesma forma quando o dinheiro era contado para durar. Era necessário escolher bem com o que gastaria se quisesse que o dinheiro rendesse. Então, ele se afastou. Ainda mantinha contato pelas redes sociais. Entretanto, não produzia o mesmo efeito que o cara a cara.

Passaram-se cinco, seis, sete meses e Pedro continuava esperando uma ligação que nunca chegava, enquanto se agarrava cada vez mais à companhia do silêncio. O pijama não saía de seu corpo há no mínimo uma semana. Para que trocaria de roupa se permaneceria no sofá? Agora nem mesmo era chamado para as entrevistas. Começava a duvidar das suas capacidades. Assistir pessoas bem sucedidas na televisão apenas aumentava seu sentimento de fracasso. Era difícil de admitir, mas passou até mesmo a invejar seus vizinhos pelo simples ato de vê-los saindo toda manhã antes do sol nascer. Costumava odiar ter que acordar tão cedo, mas agora percebia o quanto era necessário para fazê-lo se sentir vivo. Ainda que desgostasse da carga exaustiva, a sensação de ser uma peça obsoleta para o mundo ao menos não era tão constante. Pedro realmente sentia falta de ser útil. Sentia falta inclusive do ônibus lotado que pegava toda manhã. Naquele período, no mínimo ele ainda estava imerso na sociedade.

Os bicos que arranjava aqui e ali como freelancer já não eram suficientes. O caminho era muito instável e arriscado para alguém que não possuía ninguém para dividir as despesas da casa. Deu certo por um ou dois meses. Mas quando as economias chegaram às suas notas finais Pedro começou a ficar irrequieto. Constantemente se arrependia por ter sido imprudente e gasto parte do dinheiro com um curso que claramente não lhe ajudara em nada a não ser ficar mais pobre. Aquela mensalidade seria bastante útil agora que precisava escolher se pagava o aluguel ou a conta de luz.

E então, veio a decisão mais difícil.

Iria voltar para a casa dos pais. A ideia passeava pela sua mente há algumas semanas, mas sempre tratava de afugentá-la. Todavia, desta vez a levaria a cabo. Enquanto o telefone tocava, relembrava às diversas reclamações que ouvira durante a faculdade porque não trabalhava. Grande maioria vinha de seu pai e eram comparações com o seu irmão mais velho — que começara a trabalhar assim que finalizou o ensino médio. O genitor de Pedro nunca perdia a oportunidade de apontar os estudos do jovem como uma desculpa para não fazer nada e ser sustentado. Só em pensar que, quando enfim saiu de casa, tinha tido a convicção de que nunca mais precisaria ouvir todas aquelas recriminações e desencorajamentos, dava-lhe desânimo.

Contudo, ali estava ele, suportando a respiração de sua mãe no outro lado da linha. Ela sempre fora um pouco mais compreensiva com o sonho de carreira do menino, porém Pedro nunca conseguiria eliminar a sensação de estar se tornando um fardo. De qualquer forma, o pedido já estava feito e não havia como voltar atrás. Tudo o que lhe restava era lidar com aquele amontoado de decepções. Decepções não somente paternas por ver o filho voltando cinco casas no jogo, mas também próprias por observar seus sonhos sendo estagnados.

Queria, porém não via uma saída. O último fio de esperança se encontrava frágil e desgastado. Pedro não tinha ideia de até quando resistiria, de quanto mais faltava para que se tornasse apenas um ser rompido. Todavia seguia. Um dia após o outro — ainda que a esta altura todos parecessem iguais — à espera de algo que interrompesse o ciclo vazio que interrompera sua vida.

Interrompido [CONTO]Stories to obsess over. Discover now