As coisas estavam confusas em minha mente, como se uma neblina a cobrisse e eu não conseguisse mais pensar com clareza. Não era a primeira vez que eu fazia isso, um mau hábito. Simplesmente, esse estado de dor parecia melhor do que a realidade, mas não vou ficar me dando desculpas, talvez eu realmente estivesse longe de ser sã.
A água estava morna, aconchegante. O carmim na banheira era bonito, um tanto cru, eu sentia que eu podia passar horas aqui dentro, em um estado catatônico onde o silêncio me abraçaria. A porta fez um barulho de chave.
- Mas que porra? - Droga. Era Don. Meu tio era a última pessoa que eu desejaria ver agora. Eu tinha trancado a porta, mas pensei que ele fosse chegar somente à noite. Eu estava tão perto.
- Humpf... - Mergulhei fundo na banheira, eu só queria sair daquele infecundo instante. Então, comecei a me sentir distante, a voz de Don ao fundo parecia uma memória esquecida, e tudo ficou escuro.
* * *
Abri os olhos devagar, eu reconhecia o cheiro daqui, lavanda e lençóis limpos, não faz muito tempo que estive aqui. Era o hospital. Chovia fino na janela, as gotas faziam uma sinfonia bonita e tinha um ramalhete repousando na cômoda, talvez Don o tivesse deixado ali como parte do seu teatro. O pesadelo que eu tive enquanto estava desacordada parecia ter deixado rastros, meus pais novamente, a dor latejava lentamente no meu peito, apesar dos ferimentos serem externos.
As ataduras no meu braço estavam firmes, o soro na veia bem posicionado e meu estômago fazia alguns barulhos esquisitos, eu estava com fome. Provavelmente, eu estava um caos, mas quem não está hoje em dia.
A porta abriu e uma enfermeira com cabelos vermelhos adentrou e deu um sorriso calmo.
- Bom dia. Como está se sentindo? Provavelmente está com fome - Ela tinha uma bandeja em mãos - Avisarei ao seu responsável que está acordada - Meu coração foi a boca, não queria vê-lo, um dos motivos de eu ter feito aquilo comigo mesma era porque queria distância dele.
- Desculpe, mas estou me sentindo muito fraca e não estou disposta a receber ninguém... - Fui entrecortada pela entrada repentina de Don, que trazia em mãos outro ramalhete.
- Ah, Sky, querida, que bom que acordou - Olhei com desgosto para ele, odiava quando ele se referia a mim com um afeto fajuto. Encarei a enfermeira, ela deixou a bandeja na cômoda para que nos deixasse a sós e se retirou, após dar outro bom dia.
- Já pode parar com o teatro. - Encarei a parede branca a minha frente, tinha um quadro da Virgem Maria amarelado por causa do tempo. Ela olhava para baixo como se não quisesse ver os pecados estampados na minha alma.
- Quer saber de uma coisa? Você perdeu sua sanidade. Você ficou assim depois do que aconteceu com seus pais, antes você só era estranha. - Ele sentou na cadeira ao meu lado, consegui sentir o cheiro de um dos seus perfumes caros e espuma de barbear. - Você é maluca e manipuladora.
Don poderia ser um daqueles velhos nojentos que fazem você não querer estar no mesmo lugar que eles, mas não. Ele vestia um terno cinza e uma gravata vermelha, nem um fio de barba por fazer, ou uma barriga de quem bebia muito. Esse disfarce dele era um bom disfarce, alguém manipulador e hipócrita como ele precisava disso. Ele continuou. - Eu deveria interná-la, pelo seu próprio bem - Ele colocou o ramalhete junto do outro e pegou a tigela de mingau que estava na cômoda e começou a comer. Cretino. - E pelo meu. Isso aqui tá uma droga.
- Ah, é? Por que você não tenta, então? Já é a segunda vez que eu faço isso, você não vai querer perder o dinheiro da indenização, não é? - O provoquei, mas era realmente o que eu queria que ele fizesse, eu poderia fugir para qualquer lugar, mas eu não me sentia segura sozinha comigo mesma. Ele me olhou com escárnio e riu.
- Mas, boneca, - Eu poderia vomitar aqui e agora, preferencialmente no rosto dele - eu vou perder meu melhor passatempo? - Ele levantou e ficou encarando o trânsito lá fora pela janela, com os braços cruzados para trás. - Se você acha mesmo que eu acredito na sua condição mental e que na verdade você não está fazendo isso para fugir... - Ele olhou para mim com o olhar vazio que eu já conhecia, ele não tinha coração, era um monstro. - Está enganada. Eu te mandei para o psiquiatra, depois do seu último episódio, para que todo mundo soubesse que eu estava fazendo um bom trabalho, e posso fazer novamente, ou te manter em uma espécie de cárcere privado, você sabe, para o seu próprio bem.
- Você sabe que da próxima vez não vai dar tempo, Don. E ai você vai acabar sem dinheiro e sem mim. Você escolhe. - Talvez o tivesse deixado hipoteticamente sem escolha, mas eu não queria me precipitar e acreditar que ele fosse mesmo me manter longe dele.
- Realmente, eu posso estar falido, mas você está colocando muita importância em si mesma, garota. Talvez eu não ligue para o que você faça com você mesma, ou para o dinheiro. Eu não sei se você consegue entender que tudo que eu fiz foi para o seu bem, e você continua sendo seca e insensível. - Ele passava a mão pelo meu cabelo cuidadosamente. Eu o queria longe, mas eu estava paralisada.
Eu poderia me desesperar e da próxima vez me matar realmente, mas era agora ou nunca, eu ia colocar o que eu planejei em ação.
Eu gritei e gritei, como se eu fosse quebrar ao meio se eu não o fizesse. Don me olhava atônito, e ele parecia perdido e só me pedia para parar. Minha garganta ardia e eu sentia as lágrimas caírem pelos meus olhos, aquilo era um teatro, mas poderia ser real à medida que eu colocava tudo para fora.
Então, a enfermeira entrou e Don continuou estático, ele parecia incrédulo, mas cuidadoso, como se eu fosse uma bomba que já tinha explodido mas não tinha completado o estrago. A enfermeira pedia que eu me acalmasse, e Don só esperava que eu me acalmasse, mas ele sabia que isso não ia acontecer. Então, ele falou: "Eu acho melhor ela ser sedada". A enfermeira saiu do quarto e foi à procura do médico.
E, naquele dia, eu apaguei novamente.
YOU ARE READING
Inside You
Mystery / ThrillerSky percebeu que o tempo na vida é uma benção para quem tinha medo da morte, mas um fardo para quem vivia só. Os demônios que ela tinha que enfrentar não eram contidos somente em sua mente, mas viviam também em sua realidade. Após o acidente dos pai...
