Não passavam das sete da manhã quando encontrei uma carta de suicídio à minha porta. Dobrada meticulosamente, o papel repousava sobre o tapete de boas-vindas, como se o remetente tivesse levado aquela saudação ao pé da letra. Antes de descobrir seu conteúdo, levei a carta comigo de volta ao apartamento, onde a máquina de café gotejava seu conteúdo negro na jarra.
Olhei para a porta fechada do outro lado do corredor antes do primeiro gole. Hoje era quarta-feira, dia da Yoga de Dona Valquíria, como eu costumeiramente chamava de mãe. Ela viera morar comigo após o divórcio dos meus pais. A casa na Vila Mariana ficara cara e sozinha demais para ela e seus manuscritos.
- A gente já não conversava, sabe? - Ela disse distraída naquela mesma mesa enquanto eu observava os ajudantes carregarem suas caixas para dentro - A gente costumava deixar bilhetinhos um para o outro quando a gente era jovem, aquelas coisinhas pra lembrar que ama a pessoa. Depois de alguns anos, a gente tem que escrever um livro pra tentar entender o porquê ainda divide um teto com ela.
Lembro que na época ri de sua colocação, pois sabia que aquilo não era apenas uma hipérbole. Dona Valquíria era assim, amava as palavras e transformava um tropeço em um romance inglês. Queria eu dizer que ela tinha ciúmes ou vergonha de que alguém chegasse perto de suas obras, mas não. Sua vida era encaixar em qualquer papo furado um enredo que ela tivesse acabado de produzir. Às vezes eu sabia que a frustrava ter me voltado para uma área tão empresarial cujo maior índice de leitura eram planilhas no Excel.
Quando cheguei ao ponto final da carta, meu café já havia esfriado na caneca. A mensagem não passava de um parágrafo sem assinatura ou identificação. Quem a escreveu apenas queria informar seu ato e dizer que esperava que, um dia, sua solidão se transformasse em uma bela história. Ponto final.
Estremeci na cadeira, as letras no papel sulfite dançando entre meus dedos. Algo me incomodava mais que o conteúdo daquela carta, e era saber que alguém ainda desconhecido confiara a mim aquelas últimas palavras. Logo a mim? Me recompus enquanto escolhia a saia social preta e insistia que aquilo poderia ser uma brincadeira de muito mau gosto.
Ao sair pela porta, encarei os tapetes dos apartamentos ao lado, checando se mais alguém recebera o mórbido aviso. Desci pelas escadas de incêndio, agitada demais para esperar pelo elevador e nos degraus rolei a barra de contatos do meu celular até achar a Lucinha do 509. Foi ela que me ajudou a separar o lixo logo que mudei para o prédio, seguido de calmas conversas casuais. Ela tinha um tom de voz baixo e um corpo franzino... Seria ela capaz de subir dois andares para me avisar que se mataria naquele dia? Ao ver o simples "bom dia" ser respondido, suspirei aliviada e ativei o alarme do carro no estacionamento.
A caixa postal do celular da minha mãe ecoava no autofalante do carro. Aquilo era uma coisa que Dona Valquíria saberia responder. Outra ligação sem ser atendida e praguejei o fato de minha mãe nunca ter se rendido as facilidades tecnológicas chamadas mensagem de texto.
- A coisa mais triste que pode acontecer com a humanidade é as pessoas não reconhecerem mais a caligrafia uma das outras - repreendeu-me minha progenitora anos antes quando, em meu primeiro emprego, ofereci um computador a ela - E acredite minha filha, isso vai acontecer um dia.
- Mas mãe, você pode escrever mais rápido - argumentei.
- Se eu quisesse fazer alguma coisa rápido eu corria a maratona....
E aquele dia chegara. Talvez quem escreveu a dita carta esperasse isso, que eu reconhecesse a caligrafia e isso apenas me fazia sentir como se estivesse corroborando para sua morte solitária. Mas ainda existem pessoas que reconhecem as letras uns dos outros? Não era na Alemanha que estavam abolindo o ensino da letra cursiva em prol do aprendizado mais rápido e padronizado? Talvez nem eu não reconhecesse minha própria letra se a escrevesse...
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Caligrafia
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