Prólogo

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Ano 33 D.C, sexta-feira.

Três horas após a Crucificação.

Próximo ao Calvário - monte onde Jesus Cristo fora crucificado -, um homem alto, de olhos castanhos claros, com pele morena e cabelos ondulados subia ao monte a passos curtos, arrastando suas sandálias velhas. Ele usava uma túnica longa e preta que cobria seu corpo do pescoço para baixo.

Praguejava a astúcia de Deus por ter se encarnado e por ter vindo ao mundo que sempre o negou, sempre o deixou em segundo plano, e só clamava por Ele nas horas de pânico ou enfermidade.

- Yeshua... - dizia o homem em tom de susurro, olhando fixamente para frente.

* Yeshua é o nome de Cristo em aramaico.

Chegando perto do local da crucificação, haviam três cruzes em pé, fixas em buracos no solo. Todas elas vazias, porém, ele encarava a cruz do centro com um olhar e uma expressão facial de desaprovação e fúria. De repente, seus olhos ficaram vermelhos.

- Mestre - chamou um Ser que logo se materializou ao lado dele. - Então... ele realmente conseguiu.

- Por ora... - disse o homem com os olhos avermelhados, ainda encarando a cruz do meio, a maior das três.

O outro Ser se apresentou com uma túnica cinza, a qual cobria seu corpo da mesma forma que a do primeiro homem.

A imagem era a de um adulto comum moreno, com cabelos pretos mais longos e lisos e uma cicatriz do lado esquerdo de seu rosto. Um corte grande, que vinha de sua pálpebra esquerda até próximo seu lábio superior.

- No que está pensando? - perguntou o Ser que havia se materializado.

Um silêncio tomou conta do lugar por alguns segundos. E então, o homem falou:

- Azazel, vamos para casa. Preciso alertar os outros e tratar novas questões com você. Hoje... - ele fez uma pausa - tudo mudou.

Então, de repente, os dois Seres sumiram como duas fumaças negras em meio a uma leve ventania.

*

Azazel e o primeiro homem reapareceram em um lugar completamente diferente do calvário, ou de qualquer pedaço de terra existente. Eles foram para longe, bem longe... mas também tão perto na visão deles dois e de seus irmãos.

Os dois estavam em uma terra árida, seca e vazia de esperança. Um lugar avermelhado, com almas que vagavam para penhascos ao longe, cheias de lamúrias, arrependidas, presas pela eternidade sem pausa em meio a tantos sofrimentos espirituais. Um reino obscuro, a casa dos demônios, ou como dizem na Terra: inferno.

Ao chegarem, o homem de túnica preta ergueu as mãos e disse:

- REUNIR! - um grande eco se fez presente em todos os cantos daquele imenso lugar.

E, em um instante, uma quantidade absurdamente grande de demônios se materializaram na frente dele, perante o homem de preto, o senhor das trevas: Lúcifer.

- Eu os chamei aqui pois... a profecia se cumpriu - disse Lúcifer, caminhando para direita e esquerda enquanto os demônios comentavam sobre aquilo entre si. Todos sabiam que ele se referia a morte de Cristo. - Silêncio! - Todos se calaram - Eu disse que a profecia se cumpriu, porém não mencionei nada sobre perdermos para Ele! - ele falava de Deus. - Vocês estavam lá naquele tempo. É fato que perdemos muitos irmãos na guerra contra o paraíso, mas isso não muda o fato de que merecemos nosso lugar de direito! Percebam o quão desesperado Ele está! Se encarnando na Terra para fazer com que os humanos o sigam? É uma atitude ridícula e um desrespeito para com todos os anjos daquele reino.

Todos concordaram com um gesto de cabeça em afirmação, esperando as próximas palavras de Lúcifer.

- Eu percebi que o poder do alto realmente é grande - continuou Lúcifer, causando estranheza nos demônios. - Mas é um desperdício quando se trata de não usa-lo para se obter o respeito dos humanos. Nós é que devíamos governar a Terra. Os humanos deveriam ser inferiores a nós, e não amados por Ele de uma forma totalmente cega. Amor... algo tão grande para Ele, mas tão supérfluo e passageiro na mão da humanidade. Algo tão banal e facilmente manipulado.

Satanás parou por um instante prendendo a atenção de todos. Em seguida, suspirou bem fundo e disse:

- O poder do alto é grande. Mas e se... este também possa ser manipulado?

Nesse momento, os demônios em volta de entreolharam e um burburinho se iniciou.

- Lúcifer - chamou Azazel, aproveitando o momento de distração dos anjos caídos -, como você pretende... ?

- Se Deus teve um "filho" de uma mulher de fé... - interrompeu Lúcifer - por que eu não poderia ter um também?

- Um filho seu com uma... mulher temente a Deus? - questionou Azazel.

- Estava pensando em algo além disso - respondeu Satanás. - Um filho meu precisaria nascer de uma linhagem "pura" para não se desvirtuar. Mas uma criança, fruto de meu filho poderia nascer de uma humana com tamanha fé que, se conseguisse ser corrompida, seria ideal para a junção de duas forças em um único Ser. O nascimento de um Ser único para...

- Para o quê? - questionou Azazel.

- SILÊNCIO! - gritou Lúcifer e todos os anjos caídos se calaram. - Preparem-se para um novo mundo. Onde os humanos estarão mais resistentes a nós, todavia, ainda estarão confusos. Precisamos nos preparar para qualquer empecilho. E haverá algo maior, que nos trará glória e irá refazer o conceito de certo e errado. Reflitam sobre isso e retornem a seus afazeres - e então, todos obedeceram e sumiram para algum canto do inferno. Restando apenas Azazel e Lúcifer.

- Em resposta a sua pergunta, meu irmão Azazel... essa criança seria ideal para um experimento. Tão inocente, tão indefesa do mundo sombrio que os humanos podem fazê-la passar. E com a nossa ajuda, ela com certeza irá passar. Iremos dar poder a ela, iremos deixar com que absorva coisas boas, mas logo as destruíremos.

- E quando faremos isso?

- Não agora. Iremos agir da mesma forma por um tempo. Ainda preciso dar prosseguimento a minha linhagem. E esperar que os humanos esqueçam de Deus mais uma vez. Mas em breve... usaremos o poder do alto a nosso favor.

- Certo. Vindo do senhor, pelo visto será uma formidável reviravolta - respondeu Azazel.

- Será mais do que isso, Azazel - então seus olhos ficaram vermelhos novamente -, será nossa... Vitória.

RENEGADAWhere stories live. Discover now