A aurora tomava a cidade aos poucos, e logo a nevoa da manhã se misturava com a fumaça que saía de cada chaminé que despertava junto a seus donos. O padeiro já caminhava ao lado de seu autônomo quadrúpede de engrenagens antigas e oxidadas, que apenas servia como uma enorme bandeja onde os mais variados pães descansavam à espera dos clientes. O alfaiate levantava suas cortinas para ver o frio sol que dificilmente conseguia atravessar o teto de nuvens de fumaça. Na catedral da praça central, senhoras já se encaminhavam para a missa da manhã. Cães e gatos corriam para as periferias em busca de comida. As tavernas se faziam silenciosas, só o grande relógio de cobre na torre que se sobressaía em meio ao silêncio matinal, ele badalava de forma triste para dizer que era hora de Vapor Aeris fazer jus ao título de cidade mais avançada do mundo.
Carruagens e bicicletas a vapor passavam de um lado para o outro da enorme cidade, as ruas começavam a cantarolar a canção dos paralelepípedos sob as rodas. As guildas de inventores já abriam suas portas e se reuniam para criar novas grandes invenções, abarrotadas de pequenas engrenagens. Os militares, membros da Brigada Aérea dos Zepelins de Cobre já faziam suas rondas, verificando cada entrada e saída de Vapor Aeris, enquanto sua a prefeita, Helena Redpot, tomava seu chá, cercada por sua guarda pessoal, no terraço de sua casa no centro. Rita Rivet já empilhava seus afazeres para o dia, apertando alguns parafusos de seu mordomo e ligando a fornalha da caldeira para derreter o cobre. Mais um dia comum na pacata cidade do progresso.
— Como deveria ser Vapor Aeris antes do mandato de Helena? — Perguntava Rita Rivet em seu enorme laboratório no porão da casa de seu pai.
Seu mordomo e única companhia durante o dia, jogou levemente a cabeça para o lado como se não soubesse do que a garota falava.
— Frank, algum dia você vai saber o que é uma conversa de verdade e vai me responder. — Ela sorriu docemente para seu homem mecânico em tamanho real. — Eu te fiz do melhor cobre, com as melhores engrenagens, seu coração bombeia óleo melhor que qualquer outro órgão biológico, dentro dessas pessoas que caminham livres lá fora...
Rita vivia apenas com seu pai, o Coronel dos Zepelins de Cobre, ele a criou presa em casa desde a morte de sua mãe, quando a garota com seis anos de idade criou um pequeno robô autônomo, o Coronel Marco Rivet se deu conta que sua filha possuía um dom. Com isso o governo junto com o exército, confiscou a liberdade da criança, mantendo-a no porão para que inventasse e aprimorasse armas sob o pretexto de proteger a cidade.
A garota não sabia, mas Helena, a prefeita, havia usado todas as suas criações mortíferas para dizimar e expulsar a magia de sua cidade. Feiticeiros, magos, bruxos, foram todos mortos ou exilados. Suas casas tomadas e suas guildas destruídas. A simples menção a magia era passível de punição em praça pública. Após a limpeza sangrenta, em uma conversa com sua filha no jantar, o pai de Rita lhe contara que os magos haviam se voltado contra as pessoas indefesas e por isso foram expulsos e a magia fora proibida. Os jornais que a garota tinha acesso enquanto crescia, eram selecionados por seu pai e por vezes algumas páginas vinham rasgadas.
Rita jamais questionara, jamais se recusara a criar para seu amado pai, que a protegia do mundo lá fora. Mas seu coração queria ver mais. Queria saber como suas invenções ajudavam as pessoas, queira passear na praça, visitar a igreja, cumprimentar o padeiro. Escolher suas próprias roupas, brincar com os animais e voar em um dirigível de cobre.
— Ah Frank, quantas ideias eu não teria vendo a cidade com meus próprios olhos! — Ela andava pelo laboratório dourado, carregando tubos de ensaios e chaves de fenda tortas. — E quem sabe depois, eu poderia viajar pelo mundo... Ah! Canta para mim! — A garota deixou seus equipamentos em uma mesa de madeira e correu até seu mordomo. Com seus olhos brilhantes direcionados aos frios olhos de vidro moldados proporcionalmente na cabeça de metal do robô, ela pediu mais uma vez: — Frank, cante para mim. Cante A balada do Capitão Robert!
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Vapor Aeris - O mordomo de Rita
Short StoryEm uma cidade onde o progresso avançava abrindo caminho pelas resistências da tradição de outrora como um trem descarrilhado atravessando um indefeso campo de trigo, o vapor de inúmeras fábricas e casas amontoadas escondiam o brilhante cérebro de um...
