Aparência

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Por: Helaina Carvalho Crisostomo

Que péssimo”, ela praguejava em seus pensamentos. “Bem hoje eu tinha que ficar sem internet e acabar nesse lugar”. Mariana achava ruim usar o infocentro comunitário porque as pessoas que o frequentavam aparentemente desconheciam por completo o significado da palavra comunitário e deixavam os computadores em péssimo estado ignorando que outras pessoas poderiam usá-lo.

As 20 máquinas estavam ocupadas e ela teve que esperar ao lado da porta da sala. Os computadores estavam dispostos sobre as cinco longas mesas sendo que quatro em cada uma com cadeiras de plástico em frente a eles. Nas paredes da sala, cartazes com normas de uso, haviam sido colados, mas eram amplamente ignorados. Ela teve certeza disso quando um dos computadores finalmente foi desocupado. O garoto que o estava usando havia feito um ninho de papel de bala em volta do teclado. Mariana suspirou ao se sentar em frente à máquina e juntar os papeizinhos para jogá-los no lixo.

Uma menina na máquina ao lado dela, que usava fones de ouvido com uma música alta tocando, sorriu em meio a um deboche enquanto estourava uma bolha de chiclete em frente ao rosto e colocava a goma de volta dentro da boca para continuar mastigando.

Antes de começar sua busca, Mariana checou seus e-mails, seus perfis, sempre atualizados, em diversas redes sociais e acabou se distraindo do objetivo que a levara até ali. Quando distanciou seus olhos por um instante do monitor, se assustou ao perceber quanto tempo havia passado. A tarde havia se tornado noite, e os frequentadores do infocentro começaram a mudar.

Ela começou a ficar com medo.

Ao seu lado não estava mais a menina mastigadora de chiclete, mas sim um homem cujo rosto ela não conseguia ver por causa do imenso capuz que compunha o agasalho que ele usava mesmo com o calor que fazia.

Na fileira de computadores logo à sua frente, um homem alto de cabelos brancos despenteados acessava uma página cheia de fotos de animais sendo torturados.

Mariana, definitivamente estava ficando assustada. Ela estava pensando em ir embora dali correndo. A gota d’água que a ajudou a tomar essa decisão foi a mulher ao seu lado olhando um site com fotos de rapazes seminus, e alguns completamente despidos, que pareciam ter metade da idade dela.

Ela sentiu um arrepio na espinha. Finalmente desistiu de fazer a pesquisa que havia ido fazer. Pegou suas coisas e foi embora.

...

Meia hora mais tarde, o homem que estava de casaco com capuz, pegou seus livros e foi para a aula. Mesmo com a febre causada pela gripe que o havia acometido, ele não perdia um só dia de aula. Era a sua chance de conseguir finalmente passar no vestibular.

O homem alto de cabelos brancos enviava e-mails freneticamente a todos os seus amigos e divulgava nas redes sociais dados sobre uma famosa grife de roupas que estava usando peles de animais em suas confecções tentando iniciar uma campanha contra ela.

A mulher continuava com os olhos no site que hospedava as fotos de rapazes nus. Ela havia recebido uma informação de que seu filho, que havia sido sequestrado há vários meses, estava sendo obrigado a se prostituir em outro país em troca de moradia e alimento. A polícia já estava sem esperanças de encontrá-lo, mas ela nunca desistira.

Mariana chegou a sua casa. Não havia conseguido fazer a pesquisa que queria. Ela teria que descobrir sozinha, a melhor maneira para se livrar do cadáver de seu namorado.

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