Capítulo 3

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Um falcão branco pousou ao lado de Elide, enquanto eles preparavam seu acampamento. Feéricos, mas não invencíveis. Tinham que parar, mesmo que isso significasse enfrentar os demônios que os assombravam; significasse ter que encarar a ausência de sua corte. De sua rainha. O caminho até ela, tão incerto e perigoso quanto a guerra que havia se instalado em Erilea.

"Acampamento" era muito sofisticado para chamar a fogueira, os troncos e a proteção mágica em volta deles. Mas era melhor do que continuar andando; eles não seriam de uso algum exauridos. Duas das treze de Manon os deixaram nos limites da costa de Eyllwe, em banjali, daonde eles pegariam – ou roubariam, não sabiam ainda – uma embarcação que os levaria para Wendlyn. De lá, resgatar Aelin. Essa parte guiada apenas pela certeza de que Maeve não a deixaria morrer. Não, ela faria de tudo para que Aelin sentisse cada fração do tormento que planejara. Tormento esse para proteger Elide do mesmo destino, e ela não sabia como reagir. Na verdade, sabia. Sentia raiva, medo, ódio; se sentia agradecida e penosamente triste; sentia tanto ao ponto de se confundir e direcionar o sentimento certo a pessoa errada, então simplesmente ficava silenciosamente no seu canto, como todos os outros.

Não era difícil se perder em sua agonia ali. Todos, ao que parecia, tinham feito o mesmo. Lorcan e Gavriel, sentados lado a lado, compartilhando da mesma dor, silenciosos como a morte, providenciando a barreira protetora. Rowan empoleirado em um dos troncos, ainda em sua forma de falcão, tinha mergulhado tão profundamente em seus sentimentos que era possível senti-los. Parceira. Ele tinha perdido não só uma, mas duas parceiras de uma vez. Afinal, até alguns dias, ele acreditava que Lyria havia sido sua parceira e que tinha morrido por sua causa, com seu filho não-nascido. Agora, não só tinha conhecimento de sua parceria com Aelin, como também sabia que ela se estabilizaria em alguns anos e que também a tinha perdido. Não a surpreendia que a forma animal tivesse sido escolhida como fuga.

Como ninguém parecia disposto a se lembrar de que morreriam de frio sem uma fogueira – Elide principalmente, sendo dolorosamente humana – e muito menos a se levantar pra procurar lenha, ela ficou de pé em um pulo, atraindo a atenção de Lorcan – o que não passou despercebido pela garota, mas foi devidamente ignorado. Ele fez menção de segui-la, mas com apenas um gesto de Elide, estagnou no lugar. Já era horrível o suficiente estarem no mesmo lugar, ela não queria interações além das necessárias.

Andou devagar, tentando não deixar seu mancar transparecer, até o limite da barreira mágica, não ousando se aventurar além. A última coisa de que precisava, de que todos precisavam, era mais uma surpresa indesejada.

Apesar das circunstâncias, era bom ter alguma coisa pra ocupar a mente, se sentir útil. Talvez isso a fizesse uma pessoa horrível, mas uma pequena parte dela se sentia... Não exatamente feliz, mas satisfeita com o fato de que era a única com capacidade – se não física, mental – para fazer algo q era preciso à sobrevivência do grupo.

Não foi difícil achar madeira viável para fazer uma fogueira, o verdadeiro teste foi carregar tudo de volta ao acampamento sem perder o equilíbrio. A cada passo que dava, seu tornozelo reclamava, mas Elide apenas trincou os dentes e continuou.

Por oito passos.

Até que se recostou em árvore e deixou um suspiro pesado escapar. Tão perto de seu objetivo. Perto o suficiente para os ouvidos feéricos a escutassem. Em poucos segundos, um macho de olhos negros estava ao seu lado, com os braços estendidos, e aquela magia que usava para engessar o tornozelo de Elide o rondando.

— Me deixe ajud...

Mas Elide já estava andando, dolorida ou não, mal reconhecendo sua existência, passando por Lorcan como se ele fosse apenas mais uma árvore.

Já irritada, simplesmente largou o que carregava no centro de onde iriam dormir e começou a montar a fogueira. Sem vacilar nenhuma vez. Foram precisas algumas tentativas, mas por fim conseguiu acender um fogo decente o suficiente para aquecê-los e não grande o suficiente para entregá-los.

Tinha a atenção de todos a essa altura, mas se recusou olha-los de volta.

O único som ouvido naquela noite foi do crepitar da madeira e depois, nada. Eles conseguiram comida em uma estalagem quase abandonada antes de seguirem para o litoral, não ousando passar a noite. Assim que a fogueira estava pronta, ela se retirou para um canto para conseguir, no mínimo, uma noite de sono decente.

Seu tornozelo definitivamente sentiu o preço daquele orgulho e teimosia, mas até que todos estivessem dormindo, não fez menção alguma de massagea-lo ou qualquer expressão que revelasse seu verdadeiro estado.

~*~

Lorcan sabia que ela estava com dor. Também sabia que ela era muito orgulhosa para revelar ou pedir ajuda, mas nunca recusara a tala mágica, que ele tinha certeza que aliviava consideravelmente sua dor. O peso do que havia feito recaia em seus ombros, mas nada doía mais do que o nojo no olhar de Elide. Pior, a ausência de qualquer sentimento naqueles doces olhos.

E ele sabia que grande parte do peso que recaía sobre os ombros dela, era culpa dele. Elide confiara em poucas pessoas na vida, devido ao que havia sido feito ela e a família; E justo quando começara a confiar nele... Amor guiara as decisões que ele tomara, mas era a traição à rainha que Elide via. Sentia.

Ele simplesmente não sabia o que fazer ou por onde começar. Então não fazia nada.

Todos eles deveriam realmente agradecer Elide. Nos últimos dois dias, fora ela quem impedira o instinto de autodestruição dos três machos prevalecer.

Lorcan tentara dormir, mas o som da respiração pesada de Elide não permitia. Só conseguia pensar na muralha que ela, pedra por pedra, erguia novamente.

Ela permanecia acordada, massageando sua perna. A floresta estava tão anormalmente silenciosa, que ele conseguiu escutar quando duas lágrimas rebeldes escorreram pelo rosto da menina. Ele ficou completamente imóvel, e não relaxou até a respiração da lady de Perranth normalizasse, indicando que ela finalmente, fora dormir.

Ele se perguntou como os outros não acordaram com o som de seu coração quebrando. Antes de adormecer, prometeu a si, às estrelas e a quaisquer deuses que se importassem em ouvir, que consertaria as coisas entre os dois.

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