Capítulo 2

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CAPÍTULO 2

Durante quase todo o trajeto de barco até qualquer que fosse o destino de Maeve, Aelin foi ignorada, mas jamais esquecida. E ela não sabia se considerava esse ato, uma dádiva ou uma punição. Ao mesmo tempo que se sentia grata por ninguém a perturbar, precisava que alguém curasse suas costas e lhe alimentasse(a não ser que tivessem decidido que ela n valia tanto trabalho e a deixassem pra morrer). O medo de os ferimentos infeccionarem a rondava tão constantemente quanto as sombras naquele caixão de ferro, mas ela não conseguia ficar acordada por tempo o suficiente para que a desesperasse. Se não fosse o sangue feérico fazendo de tudo para a manter viva, mesmo cercada de ferro, provavelmente já teria ido para o além-mundo.

Sangue feérico. Sangue que carregava não apenas os poderes de fogo de Mala e a gota d'agua de Mab, mas também a imortalidade.

Mas não se permitiria pensar nisso, não tinha razão para piorar sua situação imaginando como poderia ter vivido 1000 anos, isso se Erawan não tivesse acabado com o mundo até lá. Porque isso que aconteceria se Aelin decidisse que gostava muito de viver e queria usufruir de mais alguns anos; se ela não sacrificasse toda sua força vital para forjar o fecho.

Realmente não deveria pensar nessas coisas.

Porém... com o que mais ocuparia a mente? Com a sensação áspera e fria dos grilhões contra sua pele? Com o sangue que, apesar de ter, finalmente parado de escorrer, formava uma poça embaixo de si? Nenhuma das opções. Ela se concentrava no fato de ainda estar viva, de que ainda restava algum pingo de luta para usar, mesmo que essa fosse movida pelo orgulho de não querer dar ao gostinho a Maeve de a ver morta por suas mãos.

Como muitas vezes antes, a escuridão voltara, interrompendo seus pensamentos, para cumprimentá-la.

~*~

Fenrys andava de um lado para o outro, em frente a horrenda caixa de ferro, onde agora se encontrava uma garota de 19 anos com as costas dilaceradas. Ele sempre soube que Maeve era louca e cruel, então não foi surpresa quando o caixão foi jogado – literalmente – no cômodo mias baixo do navio e esquecido lá (junto com o próprio Fenrys). Mas nunca pensou que ela arriscaria o destino do mundo e todas suas raças, ao sequestrar Aelin e as chaves de Wyrd.

Horas se passaram desde que saíram de pântano de pedra e ele ouvira Aelin ir e vir na inconsciência mais vezes do podia contar. Ele estava de mãos atadas, o máximo que podia fazer era companhia e aguardar.

Aquela garotinha – Porque apesar de tudo, de todas as cicatrizes, Aelin ainda era uma menina – havia se sacrificado por Elide e se sacrificaria pelo mundo. Os deuses só podiam estar de brincadeira, Mas Fenrys sabia bem que eles não estavam.

Absorto no tamanho da merda em que estavam afundados, o feérico quase não ouviu a leve vibração vinda da caixa. Quase. Mas assim que o fez, seus ouviram ficaram mais atentos e seu corpo assumiu uma postura que seus companheiros de batalha sabiam que costumava significar morte. Como se ele pudesse lutar com o que quer que assombrasse a pequena rainha.

O leve vibrar se transformou em um chacoalhar forte, acompanhado por murmúrios sem sentido. Fenrys se posicionou agachado ao lado do caixão se preparando para os gritos que ele sabia, não demorariam a vir. Ela estava alucinando. Logo assim que vieram, seu coração quebrou com um dos sons mais horríveis que ouvira e com a percepção de que não eram os primeiros, e se dependesse de Maeve, não seriam os últimos. Provavelmente havia uma infecção bem grave para estar causando alucinações tão vividas.

Ele tentou sentir o cheiro, mas por baixo de todo aquele ferro era impossível. Pequenos sons saíam da boca do guerreiro, sons reconfortantes e sem palavras, que o lembravam de uma melodia cantada por sua mãe quando acordava de um pesadelo particularmente ruim em uma das raras demonstrações de amor dela e que ele esperava que ajudasse Aelin.

Alguns poucos minutos depois nenhum som saía daquela monstruosidade de metal, além da respiração pesada da herdeira do fogo.

Era isso. Já dava. Ele iria fazer alguma coisa.

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