O sol adentrava o ambiente trazendo consigo uma leve brisa, evidenciando a janela entreaberta e a chegada de uma nova estação que prometia renascimento e mudanças.
A primavera chegava cheia de renovações, e eu esperava que isso pudesse se aplicar à minha vida. Não que desejasse que minha vida fosse repleta de flores, mas gostaria que ela fosse transformada, que ventos novos pudessem mudar o ar que me sufocava.
Minha realidade me deixava frustrada, então decidi deixar os pensamentos perturbadores onde deveriam ficar e não me desgastaria tentando encontrar soluções mágicas para resolver problemas reais.
Estava decidida a não reclamar mais dos meus problemas e apenas contemplar as poucas coisas boas que a vida tinha me proporcionado. Para isso, pretendia iniciar essa nova etapa tentando algo diferente: um dia perfeito, sem estresse, apenas na calmaria. Talvez assim o universo me devolveria apenas coisas boas. Afinal, estava cansada de ser apedrejada por tantas situações desagradáveis.
Dessa vez, estava confiante de que tudo estava ocorrendo perfeitamente bem, incluindo o fato de ter tido uma noite em que consegui dormir por mais de quatro horas seguidas, o que era um recorde a ser comemorado.
Acordar com os raios de sol era uma dádiva, e, por um momento, me permiti sentir toda a carga emocional se dissipar. Tudo o que sentia era leveza. Raios de sol? Me questionei em meio aos pensamentos sentindo a claridade sobre meu rosto.
Como nada bom era duradouro em minha vida, percebi de imediato que algo não estava certo, pois aquela dádiva não poderia acontecer naquele dia, não sem me gerar grandes problemas.
Abri os olhos apressadamente tentando entender onde estava o erro e, ao olhar para o velho despertador ao meu lado, toda a minha esperança de ter um dia perfeito havia se acabado, assim como a ideia de uma vida transformada e sem reclamações, pois ali mesmo elas se iniciaram, a não ser que a transformação fosse a perda do meu emprego e a ruína de todo o resto.
— Que porcaria de despertador! Um único dia, era tudo que eu queria. Tinha que ser hoje? — E lá se foi toda a minha tranquilidade e esperança de um dia bom. Todos os problemas retornaram, gritando em minha mente, disputando entre si qual era o mais desafiador. Respirei fundo, tentando pensar no que faria a seguir.
Deveria ir para o trabalho primeiro, não, não, primeiro a escola da Julie, merda, primeiro acordar a Julie ou fazer seu café? E o trabalho? Aviso ou tento resolver pessoalmente? Não, não, se acalme pensava alto, primeiro devo me certificar de que horas são e ver a dimensão do problema.
— É isso que irei fazer primeiro: analisar o dano. — Disse a mim mesma, enquanto tentava organizar mentalmente as próximas tarefas.
O dia que tinha tudo para começar bem, em sua mais perfeita sintonia, havia iniciado de forma desastrosa.
Sentia minhas pálpebras pesadas desejando mais algumas horas de sono. Os pesadelos insistem em perturbar a minha mente todos os dias, fazendo das minhas noites um verdadeiro filme de terror. Mas não havia tempo para remoer o que havia acontecido no passado e os traumas que me levaram a ser quem eu era. No momento, precisava apenas me levantar da cama, me concentrar no que fazer em seguida e ser rápida para não complicar mais a minha situação.
Ao me levantar da cama, observei minha aparência refletida no espelho da escrivaninha. A visão que me encarou de volta era o reflexo da minha "eu" do passado, quando criança, com medo do dia a ser vivido e esperançosa por dias melhores e ver ela era um lembrete de que ela ainda vivia ali, mesmo após anos.
Por alguns anos, aquela garotinha teve sucesso e conseguiu vivenciar a felicidade por completo, como sempre desejou. E, nesse tempo, ela foi feliz. Agora, era apenas uma sombra que me atormentava, onde apenas ter esperança e esperar o tempo não eram suficientes.
Enquanto observava meu reflexo, era perceptível a minha exaustão. As olheiras profundas denunciavam as horas perdidas durante a noite pela insônia e pesadelos; o cansaço e desânimo eram evidentes em minha face. A falta de brilho em meus olhos, agora marejados ao me ver refletida naquele espelho de forma tão decaída, demonstrava a carga emocional que suportava diariamente, como se cada passo fosse uma batalha, onde minhas chances de vitória eram quase nulas. Mas desistir não era uma opção.
Sentia como se tudo tentasse, a todo custo, apagar o que ainda restava da pouca esperança que guardava em meu peito, a esperança que aquela garotinha do passado semeou e cuidou com tanto carinho, mesmo vivendo dias sombrios, mas que agora parecia não ser mais suficiente para acreditar que um dia teria o meu "feliz para sempre".
Não tinha tempo para remoer o que me sobrecarregava. O que eu precisava era agir, tentar consertar o problema de hoje e me preparar para os próximos problemas dos dias seguintes, pois essa era a minha realidade.
Precisava avisar Melanie que chegaria atrasada, para que ela tentasse amenizar a minha situação com Richard sem me causar grandes prejuízos.
Ao pegar o telefone, percebi que o mesmo estava sem carga. Suspirei, sem acreditar que as surpresas do dia continuavam não sendo as melhores. Tentei me manter tranquila, mas toda a minha serenidade e confiança de um dia calmo se esvaíram quando percebi que estávamos sem energia em casa. Nesse momento, me lembrei de que não havia pago a conta daquele mês.
— Sério? Precisava ser tudo hoje? — resmunguei, prestes a surtar. Respirei fundo, tentando me manter calma enquanto tentava acreditar que tudo seria passageiro e se resolveria. Precisava apenas de paciência para continuar lutando por dias melhores.
Ao entrar no quarto de Julie, a observei dormir serenamente e me lembrei do motivo de não desistir de tudo. Precisava ser resiliente por ela. Ela era o motivo que me mantinha naquela batalha o qual lutava todos os dias.
A chamei cuidadosamente, e ela abriu os olhinhos me encarando. Aos poucos, entendeu que estava na hora de se levantar para ir à escola. Quando não estávamos atrasadas, tentava deixar nossas manhãs um pouco menos monótonas, o que nem sempre era possível. No entanto, começar o dia com os sorrisos de Julie tornava os assuntos que eu estava lidando mais leves. Com ela, todos eles se dissipavam, permitindo que memórias de tempos felizes retornassem e minimizassem a dor.
Ter momentos felizes estava se tornando cada vez mais escasso. As responsabilidades e o cansaço preenchiam todo o meu tempo, me deixando em uma constante rotina da qual não estava conseguindo me adaptar. Percebia que Julie sentia falta da minha presença em determinados dias, o que me deixava frustrada por não conseguir realizar todas as tarefas como desejava, podendo assim me dedicar mais a ela.
— Julie, meu amor, precisamos ir. Quando retornarmos, você terá tempo de brincar com suas bonecas. — A chamei enquanto a observava indo em direção à sua casa de bonecas, após se levantar da cama na tentativa de termos alguns minutos de brincadeiras.
— Não podemos brincar só um pouquinho? — perguntou com sua voz suave.
Ela era pequena demais para entender que apenas alguns minutos poderiam custar muito para nós. Então, por mais que me doesse o coração, tive que dizer não.
— Infelizmente, não temos tempo. Tenho que ir trabalhar, mas, quando chegar, prometo que brincarei com você. Pode ser?
— Você promete? — ela perguntou, esperançosa.
— Sim, eu prometo. Agora precisamos nos arrumar rápido.
— Por que você precisa trabalhar tanto? — ela perguntou, me deixando sem resposta. Apesar da inteligência, ela ainda era pequena para entender a situação.
— Um dia você entenderá.
— Quando eu for adulta como você?
— Sim, quando você for adulta como eu.
— Brighit disse que o pai dela trabalha muito e que não tem tempo de brincar com ela. Isso deixa ela triste. Você vai deixar de brincar comigo também? — ela perguntou, me deixando estática por alguns momentos. Era isso que ela pensava que aconteceria?
— Não, isso não vai acontecer, meu amor. Eu sempre vou ter tempo para você. As coisas só estão complicadas agora, mas logo vão se resolver e não precisarei trabalhar tanto. — Respondi sentindo o coração apertado, e isso me fez desejar que tudo se resolvesse logo, para me dedicar mais a ela. — Mas agora temos que ir.
Após ajeitar tudo e fazer o café da manhã para Julie, saímos o mais rápido possível de casa. Primeiro seguimos até a escola e eu olhava impaciente para o relógio de pulso, como se aquele ato tornasse a situação menos preocupante. Sabia o resultado que aquele atraso poderia me custar. Mesmo que me apressasse ao máximo, não seria suficiente para chegar ao trabalho no horário de entrada do meu turno, estava muito atrasada.
Com passos ritmados, de acordo com o que Julie conseguia acompanhar, andamos por nosso trajeto de todo dia. Quando estivesse sozinha, conseguiria aumentar o ritmo, o que não resolveria o sermão que provavelmente levaria, mas não me deixaria em uma situação ainda mais complicada.
— Bons estudos. Te vejo mais tarde para brincarmos com as suas bonecas. — Disse ao chegarmos à escola e termos a sorte de eles a deixarem entrar, mesmo que atrasada.
A observei entrando na escola e senti a nostalgia do tempo em que eu estudava, quando meus pais tinham a função de me trazer e buscar. Eu sentia muito pelo fato de Julie não poder ter essa memória tão viva quanto eu tive a oportunidade de ter.
Havia um ano que eles tinham partido em um acidente de carro e, desde então, tudo em nossas vidas virou uma grande bagunça. A responsabilidade de ser a tutora legal de Julie ficou aos meus cuidados, e tentava deixar nossas vidas semelhantes ao que eram antes da nossa perda, apesar de saber que certo vazio nunca seria preenchido novamente.
Lidar com os obstáculos que surgiram com o acontecido estava se tornando cada dia mais difícil, principalmente após o bloqueio de toda a nossa herança, devido a um processo judicial iniciado a pedido de alguns familiares de nosso pai, que discordavam da decisão de não serem beneficiados com o testamento. Sempre foi evidente a opinião deles contra a minha adoção, e esse fato não mudou após o acidente fatal, apenas ficou mais perturbador. Usavam o fato de eu ser adotada para tentar me desestabilizar emocionalmente, dizendo que eu não fazia parte daquela família e não teria condições de administrar a fortuna.
Por isso, considerava meu trabalho tão importante: para manter os cuidados de Julie que me foram concedidos e provar a minha capacidade, eu precisava trabalhar e ter uma renda fixa para nos manter até a situação com aquela família se resolver. Estar atrasada me preocupava, pois, com meu trabalho, tinha chances de vencer o processo e me livrar de todas aquelas pessoas definitivamente, o que possibilitaria que Julie e eu seguíssemos nossas vidas com tranquilidade e não em meio ao caos como vivemos atualmente.
Essas pessoas estavam tão inconformadas com a decisão do testamento que inicialmente começaram a usar diversos argumentos infundados para tentar invalidar o mesmo, o que não ocorreu. Não satisfeitos, decidiram iniciar um processo de tutela com o intuito de colocar as mãos na parte da herança de Julie, que, na divisão dos bens, ficou com a maior parte das ações da empresa, o que era do interesse deles.
Alterar os beneficiários do testamento era improvável, mas eles acreditavam que deveriam ser os responsáveis por administrar aquela empresa. Tentavam usar Julie para que isso ocorresse, pois, sendo responsáveis por ela, assumiriam a presidência da empresa até que ela completasse a maioridade e me afastariam como sempre desejaram..
Como se o pedido de guarda não bastasse, solicitaram o bloqueio da herança até que o processo estivesse encerrado, e a justificativa dada por eles era de que isso garantiria que nenhuma parte da herança seria comprometida até tudo estar resolvido. Alegavam que eu não saberia lidar com a criação de uma criança e muito menos com a administração de todos esses bens, que uma má administração poderia acabar com tudo em pouco tempo, nos levando à falência e nos deixando sem nada. Então, queriam garantir que ficássemos bem, e desde então o juiz acatou o pedido até a audiência e com isso estávamos largadas à própria sorte.
Eles se certificaram de que tudo ocorresse como eles queriam para me deixar desestabilizada financeiramente, o que seria uma vantagem para eles provarem minha incapacidade. Sabiam que minha reserva não duraria muito e, sem os ganhos mensais provenientes da ação da empresa, sem acesso aos bens da herança, eu não teria condições de cuidar de uma criança ou de mim mesma.
Por serem uma família conhecida no meio empresarial, são bastante influentes, o que me deixou em uma situação complicada para arrumar um emprego. Afinal, quem empregaria uma pessoa que estava em um processo contra os famosos Collins?
Eles nunca buscaram saber qualquer notícia sobre Julie, o que deixava claro que seus interesses eram apenas financeiros, e ela era apenas um meio para eles conseguirem, ou acharem que conseguiriam, o que queriam.
O fato de estar atrasada me fazia sentir medo. Aquele emprego era minha única chance de provar que conseguia vencer eles.
Richard, apesar de sua grosseria, foi o único que não me negou um trabalho.
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Por Você - Um amor inesperado
RomanceAnne dedica sua vida na tentativa de manter a irmã ao seu lado. Em meio às circunstâncias, enfrenta medos, desafios e abre mão de si mesma inúmeras vezes. Mas ela é movida pelo amor, um amor que a faz lutar bravamente para proteger o que lhe é mais...
