Capítulo 1

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Álex permaneceu ali, repassando pela milionésima vez em sua mente a última vez que a tinha visto. Há exatamente três semanas. Absolutamente imóvel e em silêncio no escuro,segurando os cavalos enquanto Sabina e Hugo mantinham as armas apontadas paraos soldados que trouxeram Máira e a jogaram no chão aos pés de Alícia, oumelhor... Sofia. 

Ainda não havia se acostumado com o nome, muito menos com o real significado que ele continha. Independente de como se chamasse... Ela. A mulher por quem tantos sentimentos nutria... Estava lá, grávida e pronta para sair para sempre de sua vida, sem que nada pudesse fazer. A única coisa a seu alcance tinha sido esperar até Sabina e Hugo arrastarem Máira e a colocarem em cima de um dos cavalos, onde Hugo também montou. Sabina no segundo cavalo e Álex no terceiro. E segui-los. Sem olhar para trás. Alícia... Ou Sofia... Como quer que se chamasse, era o que menos importava, pois naquele momento ela estava perdida.

O enjoo matinal, que estava se tornando assustadoramente habitual, fez Alexandra curvar o corpo para frente e vomitar, aumentando seu desespero. Pois, cada vez mais, a suspeita se tornava certeza.

Foi Hugo que, parado a seu lado com as duas mãos na boca – desde que Melina havia partido, deixando-a a sob seus cuidados, ele se tornara uma companhia constante, quase a sombra de Alexandra –, materializou o horror dela ao verbalizá-lo:

– Você está grávida?

Impossível afirmar. Tampouco negar. Era uma possibilidade que não queria nem podia aceitar. No entanto, parecia claro, os sinais eram os mesmos. Idênticos aos de quando descobrira que estava esperando Talita.

Inevitável a lembrança de Samuel ofegando com satisfação em seu ouvido: "Dessa vez... Me dá um menino".

Uma prece se formou em sua mente, sem que pudesse evitar: "Não, por favor... De novo não..." Enquanto os olhos se deparavam com os de Hugo, encontrando uma empatia que absolutamente não esperava:     

– Você não precisa ter se não quiser. Existem formas de interromper. Você sabe, não sabe?

Absolutamente estarrecida, Álex sacudiu a cabeça em negação. Da primeira vez, a única saída possível parecia ser pôr fim à própria vida. Plano que os tios e Nívia haviam frustrado completamente, vigiando-a durante todas as jornadas e sonos, transformando os nove meses de gestação em uma tortura pior ainda. No entanto, não se agarrou de imediato ao que lhe era oferecido. Um medo de anos a dominava:

– Não vou ser castigada por isso?

Hugo não só compreendia, sabia perfeitamente o que estava dizendo:

– Existem duas formas de fazer. A primeira é submeter a decisão ao conselho. Em caso de estupro, geralmente eles permitem. Mas é um risco, pois eles podem negar também. E pode demorar meses pra você ser ouvida. E aí já pode ser tarde demais pra interromper a gravidez.

Durante a pausa que se seguiu, Alexandra esperou, em silêncio. Até Hugo olhar em volta, se certificando que não tinha ninguém escutando. Mesmo assim, continuou num tom de voz tão baixo que Álex teve que se esforçar para ouvir:

– Conheço uma pessoa que pode fazer. Sem que ninguém fique sabendo.

Se o assunto não fosse tão sério, Alexandra teria rido:

– Sempre ficam sabendo.

Era a sua experiência. Inegável, por mais dolorosa que fosse. Culpa, crime e castigo. A essência de toda a sua vida.

A existência de Hugo negava tudo que Álex achava que sabia:

– Eu fiz.

Difícil para ela acreditar. Pela primeira vez se deparava com o que Melina sempre repetia e afirmava. Hugo era homem. Agora que o tinha sempre por perto, Alexandra jamais afirmaria o contrário.

O suave tom do abismo - Transmissão - Livro 3Read this story for FREE!