Tínhamos combinado tudo. Eu iria como quisesse, mas devia levar um livro comigo, o meu favorito do momento. Ele iria como quisesse, e levaria consigo uma gaivota. Era isso! Um plano simples, um encontro simples. Um cinema, uma garota com seu livro favorito e um rapaz com uma gaivota – essa parte não era tão normal, nem natural, mas era o charme de tudo.
Era risível toda aquela situação. Minhas mãos estavam trêmulas e eu podia sentir meu coração batendo sob minha jugular. O cheiro de pipoca que geralmente me fazia ficar com água na boca, agora me dava náuseas. Havia algo errado comigo afinal! E isso era totalmente sabido por mim, porque somente fora da minha sanidade que eu aceitaria – como aceitei – encontrar-me com alguém que se comunicava comigo através de gaivotas.
Queria ser o tipo de garota que rói as unhas e despeja toda a ansiedade nessa ação boba. Olhei para minha mão direita, minhas unhas estavam grandes e pintadas de um tom de azul. Nos dedos uma coleção nova de anéis recém-adquiridos que faziam um par perfeito com a cor do esmalte.
Evitei o máximo que pude de olhar a hora no meu celular – porque o relógio que estava no meu pulso direito estava parado fazia dois anos -, porém a ansiedade estava acabando comigo. Tínhamos marcado às 13h45min, a nossa sessão começava às 14h10min, e isso nos dava exatos 25 minutos para comprar algo para comer e conversar um pouco antes do filme começar.
A tela do meu celular acendeu ao meu toque, o relógio analógico mostrava que já eram 13h50min. Meu coração acelerou no meu peito de tal maneira que levei uma mão até a região, quase como se isso fosse o suficiente para tranquiliza-lo. Não foi o horário que me desestabilizou, e sim a pessoa que me encarava com olhos abertos como pratos e uma gaivota na mão
Cena – Do lado de fora do cinema
O céu estava azul demais para um dia tão estranho.
Guinever chegou dez minutos antes da hora combinada. Escolheu um canto sob a marquise do cinema, o livro favorito apertado contra o peito. As mãos suavam. O coração também.
Ela olhou em volta. Não conhecia ninguém por ali — ainda. E isso era bom. Se algo desse errado, ninguém precisaria saber.
A regra era simples: ela levaria o livro. Dom traria uma gaivota de origami.
Simples.
Mas nada na Guinever era simples naquele dia.
O som da cidade seguia abafado atrás dos vidros do cinema. Pessoas entravam, saíam, sorriam. Ela tentava respirar. Se perguntava — pela centésima vez — quem era Dom. Se era seguro. Se era real. Se não era um erro ter vindo.
E então, viu.
Bee.
Andando na direção dela com a cabeça abaixada, vestida com algo que não usaria na escola — moletom largo, calça jeans surrada, tênis encardido.
Na mão dela: uma gaivota de papel.
Por um instante, o tempo travou.
Guinever sentiu o estômago cair, o mundo silenciar, o coração parar e depois bater alto demais, errando os compassos.
Bee levantou o olhar. Viu Guinever. E parou também.
— Não — disse Guinever. Só isso. Baixo. Um sopro. — Não.
Bee não se moveu.
Ficou ali, com a gaivota nas mãos, como se ela também estivesse tentando se manter inteira.
Guinever recuou um passo. Depois outro.
O livro caiu.
Ela estava apaixonada por Dom. Pela sensibilidade. Pela forma como falava das gaivotas.
Mas Bee? A Bee do colégio? Aquela arrogância? Aquela frieza?
Não podia ser.
E, ao mesmo tempo, tudo fazia sentido demais. Os silêncios. As pausas. Os medos disfarçados.
Guinever sentia o corpo inteiro gritar. Não sabia o que doía mais — a decepção ou a confusão.
Ela amava Dom. Ela odiava Bee.
Mas agora elas eram a mesma pessoa.
E o pior — o mais insuportável — era admitir que ainda amava.
— Por que você fez isso comigo? — perguntou, quase sem som. — Por que você me fez sentir isso?
Bee segurou firme a gaivota, os olhos marejados.
— Eu só queria ser real com você. Pelo menos uma vez.
Guinever queria correr. Mas as pernas não obedeciam. O mundo estava leve demais e pesado demais ao mesmo tempo.
O que ela sentia não tinha nome ainda. E isso a desesperava.
Ela se virou.
Andou sem saber pra onde, tentando não chorar, tentando não gritar, tentando esquecer que — pela primeira vez — ela queria beijar uma garota.
E odiava o fato de essa garota ser Bee.
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A Gaivota
Novela JuvenilO último verão deixou Guinever com arrependimentos, medo e vergonha. Um novo verão chegou e com ele uma mudança drástica na rotina de férias da sua família, e pesadelos com uma varanda coberta de sal. Sangue chama sangue, ela deveria ter aprendido n...
