O menino do nariz maior que a mochila

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   Pitoco era um jovem que, desde criança, sofria com as piadas de seus colegas. Sempre sozinho, ele vivia lamentando por um problema que o fazia infeliz: seu nariz grande.
   Todos os dias (pela manhã), o menino do nariz maior que a mochila - como era chamado - ia ao colégio. Saía cedo de casa, tomava o ônibus e pronto! Lá estava ele. Sentava-se sempre ao fundo da sala, para que ninguém o reparasse; o que era impossível.
Estava com 15 anos, tinha pele bem clara e estatura mediana e era inteligente; tinha tudo para ser a sensação, no entanto seu nariz avantajado o deixava a quem. Pitoco, então, não gostava de ir à escola, porque os meninos zombavam dele; as meninas, fugiam. Era um terror! Tudo porque seu nariz era o maior de todos.
Chegava a casa sempre cabisbaixo. Sua mãe, D. Irene, estava sempre perguntando o que havia acontecido, mas ele nunca contava. Sempre disfarçava. Dizia que era coisa da cabeça dela.
Certo dia, a caminho da escola, deparou-se com uma cena diferente: viu um senhor, negro, baixinho, tentando pegar umas amoras no pé. Pitoco olhou e riu, pois o homem não conseguia; sua altura não era suficiente para colher as frutas. Ele pulava, pulava... e nada. Pela primeira vez, Pitoco conseguia esquecer seu problema, porém a custa do problema de outra pessoa. Seguiu em frente até seu destino. Dali a pouco, sofreria todas as perseguições e zoações novamente, como de costume.
Quando Pitoco chegou e foi ao seu local habitual, observou que seu lugar estava ocupado. Um aluno novo acabara de iniciar em sua turma. Como poderia? Aquele lugar era dele. Só ele poderia sentar ali. Aproximou-se e viu que o tal aluno era o senhor de quem ele havia debochado. Pitoco, sem graça, tentou puxar assunto:
- Bom dia, Sr! Esse lugar é meu.
Seu Geraldo, humildemente, levantou-se e disse:
- Me desculpa! Não sabia que tinha lugar marcado. Vou procurar outro.
Por um instante, Pitoco percebera que estava sendo indelicado e, rapidamente, falou:
- Espera aí! Senta aqui ao meu lado! Qual o nome do senhor? Por que está estudando aqui? O senhor não acha que já passou da idade?
Após tantas perguntas, Seu Geraldo respondeu:
- Eu vim tentar buscar um futuro melhor pra mim.
- Futuro!!, exclamou Pitoco! O senhor não tem mais 15 anos, né?, continuou a perguntar.
- Verdade, meu jovem, respondeu seu Geraldo. - Eu pensava assim, quando eu tinha a sua idade. Não gostava de ir à escola tampouco de estudar. O tempo passou e eu não consegui um bom trabalho, principalmente por eu ser negro e baixinho. Sabe, as pessoas sempre mangavam de mim. Passei a minha vida toda me escondendo com vergonha de mim mesmo. Hoje, com meus 55 anos, percebi que eu não podia dar ouvidos ao que as pessoas pensavam ou falavam de mim. Eu agora sei que, mesmo sendo baixinho, posso fazer grandes coisas. Posso ajudar muita gente.
Pitoco, ainda sem entender, voltou para casa, pensativo e intrigado.
   No dia seguinte, em seu trajeto, o menino do nariz maior que a mochila ficou preso em meio a uns galhos que caíra. Começou a pedir socorro, até que seu Geraldo apareceu.
Procurando um meio pra ajudar, ele viu uma brecha, quase no chão. Abaixou-se, passou uma ripa e pediu que Pitoco a segurasse. Puxou-a e conseguiu resgatar o menino. Pitoco agradeceu e os dois seguiram rumo à escola. Começava, ali, uma amizade verdadeira.
   Os dias passaram, os meses e o fim do ano chegou! Ao se despedirem, Pitoco resolveu fazer uma surpresa a seu amigo.  Chamou-o para um passeio e o levou ao parque onde ele o vira pela primeira vez.
   Chegando lá, sem entender nada, seu Geraldo perguntou por que Pitoco o levara ali. O menino, então, perguntou:
   - O senhor ainda quer pegar algumas amoras?
   - Sim, mas sou muito baixinho.    - Não consigo, respondeu Seu Geraldo.
   Pitoco, sem pestanejar, disse:
   - Eu trouxe o senhor aqui, porque eu tive uma ideia pra ajudá-lo.
   Seu Geraldo, eufórico, logo perguntou como.
   Pitoco abaixou-se em frente a seu Geraldo e lhe pediu para subir em seu nariz. Ergueu-o até a árvore. No alto, seu Geraldo colheu algumas amoras e colocou-as na mochila que era menor que o nariz do menino.

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