Jardim Secreto

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Ele nunca fora dado a ocasiões como aquela, e não seria suportando calado o nó apertado da gravata a ferir-lhe o pescoço ou travando um discreto duelo com os mosquitos que sua opinião mudaria. Apertou os olhos a fim de visualizar melhor o altar improvisado sob o forte sol que sorria com escárnio para as quarenta e poucas pessoas reunidas na fazenda.

Apesar de estar visivelmente comprimida pelo espartilho, a julgar pela pele flácida acumulada ao redor do bojo do vestido tomara-que-caia, a noiva sorria linda e radiante para o noivo muitos centímetros mais alto. As lágrimas contidas e as narinas em incessante movimento arrematavam o quadro da “noiva perfeita”.

O noivo, por sua vez, revelava por detrás do semblante blasé uma alegria que provavelmente jamais sentira em toda a sua trajetória até ali. As mãos juntas diante do corpo, em sinal de nervosismo, o olhar fixo em toda a extensão da imagem da futura mulher e as gotas de suor a percorrer seu pescoço indicavam seu porte de “noivo perfeito”.

O padre, idoso e sereno diante do casal, coroava a imagem da “sagrada família” que ali haveria de ter início.

Era o matrimônio perfeito, divino, indissolúvel e incontestável, cercado pelos sorrisos de cera e os olhares catárticos que André assimilava mais uma vez diante de si. A cena arrastava-se contra o tempo enquanto ele aguardava sofregamente por uma reviravolta.

E eis que, sorrateiro e casual, um coadjuvante fez número àquele pequeno contingente. Sem qualquer palavra ou esforço para tanto, atraiu a atenção dispersa de André. Talvez por se mostrar tão enfastiado e ansioso pelo churrasco de perfume tentador quanto ele, porém mais provavelmente pela maneira rústica e sincera de se portar entre os convidados empedernidos.

Os olhos castanhos do rapaz encontraram os de André, forçando-o a desviar sua atenção dos pequenos rumores que a gravata jogada sobre os ombros dele e a camisa desabotoada até pouco abaixo do peito largo provocaram. Aquele sorriso inocente e másculo levou-o a supor que se tratasse do capataz dos Ribeiro, o encarregado pela comida e bebida a serem servidas assim que os noivos trocassem o famigerado beijo oficial.

André retribuiu-lhe a simpatia com um sorriso sugestivo. E, para sua total surpresa, o olhar do intruso permanecia fixo em sua direção momentos depois do que parecia uma simples saudação.

Antes que pudesse se inteirar de todos os detalhes em relação àquele homem, ele deixou-se levar pela citação bíblica do celebrante a ilustrar a história de eventos banais que trouxera até ali aquele povo, o qual lutava indisfarçadamente para resistir ao aroma da carne e prestar algum respeito aos donos da festa.

Quando, por fim, se viu ponderando sobre o discurso do padre, André prendeu a respiração... De repente, as costas musculosas do capataz, coladas ao tecido umedecido pelo suor, surgiram na fileira da frente. Ele abriu caminho entre as senhoras e senhores bem vestidos, ocupando um lugar vago a três cadeiras de distância.

Àquela altura, André já compreendera que o restante da cerimônia seria apenas uma variação dos discursos piegas e juramentos de amor eterno que presenciara ao longo de seus dezesseis anos de vida. E foi assim, confiando na impossibilidade de perder qualquer acontecimento excepcional que merecesse verdadeiramente sua atenção, que ele se rendeu ao fascínio que a pitoresca criatura de sapatos enlameados passara a exercer sobre ele.

O peão cruzou os braços diante do corpo, a despeito das reações de aversão ou olhares inabilmente disfarçados a percorrer-lhe os músculos expostos. Pelo sorriso com que retribuía todos os curiosos pegos em flagrante, ele parecia divertir-se com a situação tanto quanto André.

O jovem, por sua vez, estudava demoradamente aquele homem, desbravando sua figura doce e corpulenta com os olhos. Sabia que corria o risco de também receber uma repreensão irônica ao ser descoberto, mas algo lhe dizia que o sorriso que recebera momentos antes era um sinal de cumplicidade.

Jardim SecretoWhere stories live. Discover now