A Vingança de Domitila Capítulo 1

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   Em uma pequena cidade do sertão morava uma família modesta, cujo pai zelava pelos filhos, principalmente pelas filhas, com muito rigor. Cedo ele colocou a enxada em suas mãos, ensinando-os a trabalhar o pequeno sítio que possuía, para que nunca viessem a passar fome. Todos os dias, pela manhã e à tarde, os rapazes carregavam água do rio e as meninas, com pequenos regadores, regavam as mudas recém-plantadas até que elas criassem raízes. Depois bastava regá-las uma vez por dia.

   Apesar da longa distância, todos frequentavam a escola, pois Gaudêncio queria para os filhos um futuro melhor. Tinha ao todo nove filhos, sendo cinco mulheres, o que muito o preocupava. No sertão a maioria dos rapazes era analfabeta e fugia do trabalho como o diabo da cruz. Como casar bem suas filhas? Essa era a sua maior preocupação.

   Augusta, a mais velha, casou-se com um rapaz trabalhador, dono do próprio roçado, o que muito o satisfez. Depois dela vinham dois rapazes e a seguir Domitila, uma garota muito bonita que ele pretendia ver bem casada. Quando ela completou doze anos, Gaudêncio começou a procurar um bom rapaz para torna-lo seu genro.

   Domitila era uma garota simples, que nunca faltava às aulas e nem fugia do trabalho no roçado, mas que nada sabia da vida. Um dia Torquato, um vagabundo que gastava tudo o que ganhava com pinga, a estuprou, e ameaçando-a, dizendo que se ela contasse pra alguém mataria toda a sua família, sumiu, porém a semente plantada começou a germinar.

   Quando percebeu que Domitila andava com enjoos, que vomitava com frequência, Constança, sua mãe, conversou com o marido:

  _Acho que Domitila está embuchada, Gaudêncio.

  _O que?! Como pode ser isso, mulher?

  _Não sei, pois ainda não conversei com ela, mas ela anda enjoada, vomitando, engordando...

  _Que ela está engordando eu já percebi, mas nunca pensei... Quem terá sido o desgraçado que fez isso? Vá chama-la, vá...

   Domitila apresentou-se ao pai e ele sem perda de tempo perguntou:

  _Quem foi que te embuchou, Domitila?

  _O que é isso, pai?

  _Você não sabe? Quem foi que te emprenhou, menina?

   Constança interviu:

  _Me deixa conversar com ela, Gaudêncio. Eu ainda não falei com ela sobre certas coisas, por que ela ainda não tinha ficado mocinha.

  _Pois vá; explique tudo e ela que diga como aconteceu.

   Depois de ouvir da mãe tudo o que não sabia antes de ser estuprada, Domitila contou o que havia acontecido e Constança a levou até o pai.

  _Diga a seu pai, Domitila, tudo o que aconteceu.

   Chorando, a menina contou:

  _Um dia eu vinha sozinha da escola, meus irmãos não foram porque estavam ajudando o senhor na colheita, e um rapaz se achegou, me agarrou com força, me levou pro meio do mato e fez aquilo que a mãe falou que a gente só pode fazer depois de casada...

  _Por que tu não me contou?

  _Porque ele disse que se eu falasse pra alguém ele matava toda a minha família...

  _Quem é ele, Domitila? A qual família pertence, se é que um desgraçado desse tem família.

  _Não sei pai; naquele dia eu ouvi um rapaz chamando ele de Torquato e ele atendeu.

  _Tu conhece o rapaz que chamou ele?

  _Foi Luís, filho da dona Balbina.

  _Vou falar com Luís; não saía de casa.

   Depois de se informar com Luís, Gaudêncio deu queixa na polícia. O Capitão foi à procura de Torquato e o encontrou refugiado num sítio nas proximidades; deu-lhe voz de prisão, trouxe-o para o povoado e o colocou em confronto com Domitila, trazendo também Luís para que ele confirmasse o que viu. Além de confirmar, Luiz repetiu o que ele lhe falou naquele dia:

  _Ele me disse que tinha passado a menina no pau e que ia fugir pra não ser pego.

  _Pois agora o senhor está preso, seu Torquato, por estupro de menor. O senhor já completou vinte e um anos, vai pra cadeia da Capital. _sentenciou o Capitão.

    Temendo o que fariam consigo na Capital, Torquato falou bem depressa:

    _Eu gosto da menina, Capitão; quero me casar com ela.

    _O que decide, seu Gaudêncio? _perguntou o Capitão.

    _Deixe o home preso que eu vou assuntar com a minha mulher.

   Gaudêncio conversou com Constança e ambos chegaram à conclusão de que era melhor casar a filha, do que deixa-la desonrada em casa. Desonrada e com um filho no bucho pra eles criarem. Por que ela não falou pra eles quando o fato aconteceu? Era pra isso que tinha pai e irmãos mais velhos. Agora tinha que se casar pra não ficar falada, trazendo vergonha pra família.

   Quando soube da decisão, Domitila ajoelhou-se aos pés do pai implorando:

  _Não quero me casar com ele pai; ele me bateu e machucou muito. Prefiro morrer a ter que viver com ele.

  _Então ele te machucou e nem assim tu abriu a boca, sua desavergonhada. Se não tivesse embuchado a gente nunca ia saber? Pois arrume tua trouxa que hoje mesmo tu vai viver com ele e esquecer que um dia teve família. Aqui em casa tu não bota mais os pés.

   Gaudêncio levou a filha no posto policial e pediu ao Capitão que fizesse o casamento o quando antes. Domitila estava embuchada e ele não queria ela dentro de casa. Tinha três filhas meninas e ela ia servir de mau exemplo pras irmãs.

   O Capitão tentou safar Domitila, que estava desesperada, mas Gaudêncio não cedeu. Dentro da casa dele ela não entrava mais.

   Depois de falar com o preso, o Capitão foi deixar Domitila na casa dos pais dele; que também não queriam saber do filho; até que os papéis do casamento ficassem prontos.

   Foi assim, enxotada da casa dos pais e mal recebida pelos sogros, que Domitila começou sua vida de sofrimentos. Gaudêncio e Constança assinaram a permissão, pois a filha era menor de idade, e depois que Torquato assinou seu nome no livro, tornando-se legalmente seu marido, o Capitão o soltou.

A VINGANÇA DE DOMITILAStories to obsess over. Discover now