Capítulo 1

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Vermelho... preto... cinza... preto... amarelo... caminhão... vermelho... fusca azul!
Quase gritei ao ver um fusca azul na estrada, olhei para o lado mas o cara de meia idade, acima do peso e oriental que estava dormindo, com certeza não gostaria de ser acordado com um tapa de uma estranha.
Eu senti falta de Luíza, com certeza a boboca da minha irmã uma hora dessas já teria retribuído o tapa e continuaríamos a brincadeira contando os carros que passavam pela janela se ela estivesse aqui comigo.

Mas mudar de São Paulo para Vale Azul, é algo que Luíza nunca faria a menos que fosse obrigada... pois mesmo com seus poucos 14 anos de idade minha irmã já gosta da badalação da cidade grande e sonha frequentar as matinês que vão até de noite para socializar com o pessoal da sua idade. Diferente de mim que decidi por livre e espontânea vontade passar o último ano da escola morando com meus avós na pequena e pacata cidade litorânea onde eles vivem... e eu mal vejo a hora de colocar os pés na areia branca da praia que é o quintal do hotel deles.
Eu fecho os olhos, deixando vir as lembranças da época que eu tinha 4 anos e corria pelo pátio do hotel de meus avós. O antigo hotel de estilo colonial que meu avô construiu com seu pai, logo que se formou em engenharia para hospedar os viajantes que queriam fazer turismo para aquele lugar paradisíaco na divisa do litoral do Rio de Janeiro com São Paulo era pra mim como um castelo de contos de fadas que dava para a minha "praia particular", e eu amava a atenção que me davam nessa época. Mas aí, alguns meses depois chegou a Luíza e eu que era a única princesinha e dona do meu castelo tive que dividir toda a atenção com o lindo bebezinho que parecia ser mais encantadora e fofinha do que eu.
Eles ainda tentam tratar ela assim, a diferença é que agora ela revira os olhos e diz que: "pelo amor de Deus quer ser tratada como adulta".

Finalmente meu ônibus estaciona na pequena rodoviária da cidade de vale azul e depois de alguns segundos de pé vendo todos do ônibus sair e só restar eu, fico observando o homem ao meu lado e tentando criar coragem de acordá-lo para conseguir passar, mas quando penso que só restamos os dois, eu e o dorminhoco no ônibus, um outro passageiro bastante desastrado passa e esbarra sua mochila super cheia na cabeça pendente do japonês, chinês, coreano ou seja lá de que pais da Ásia ele é, o que o faz despertar assustado e sair da sua poltrona ao lado da minha, mas não sem antes lançar um olhar feio a mim e ao garoto que esbarrou sua mochila nele.
"Oh my God... I'm sorry... quero dizer... me... desculpe."- O garoto que parecia ter a minha idade disse com um sotaque inglês carregado enquanto o cara sai do ônibus bufando de raiva. Muito mal humorado esse cara, ainda bem que não lhe dei aquele tapa. Penso e volto o olhar ao garoto a minha frente que assim como eu observa assustado o homem sair do ônibus fazendo com que agora sim só reste dois passageiros ali... eu e ele.
Ele era bonito... e diferente... um pouco maior que eu, usava uma calça de moletom com camisa xadrez e levava uma enorme mochila em seu ombro, observei seu rosto e era diferente de qualquer outra pessoa que já tinha visto antes, tinha cabelos ruivos como uma cenoura ralada, era incrivelmente branco e embaixo dos óculos de grau com armação preta que era como vitrines para lindos olhos azuis dava para ver sardas.
"Acho... que você me ajudou a sair dessa poltrona sem ter que acordá-lo por mim mesma."- digo olhando para ele. "Obrigada."
"Foi um acidente."- Ele diz e então sorri, um sorriso de lado tão lindo que faz seu rosto todo parecer mais fofo ainda mais com aquelas covinhas. -"Mas de nada."
Ele me acompanha até a saída do ônibus e eu tento ajudá-lo com a enorme mochila.
"Você trouxe bagagem demais para um turista."- Digo passando a mão pelo meu ombro depois de ver o peso da mochila.
"Não sou turista."- Diz enquanto caminha para a parte de trás do ônibus onde fica guardada as malas grandes. Eu aponto para uma mala cor de rosa de rodinhas para o motorista me entregar e ele faz o mesmo para uma enorme mala amarela de alças.
"Quer dizer... sou turista, mas não tanto quanto os que ficam por uma semana."
"Ah sim... isso porque você trouxe bagagem para um mês."- Digo rindo.
"Na verdade seis meses."- Ele responde rindo igual, o que me faz querer derreter toda.
"Você veio morar aqui?"- pergunto.
"Sim, eu vim estudar a cultura Brasileira e a língua."
"Hmm... e de onde você vem?"
"De Galway... Irlanda, para se mais especílico."
"Específico!"-Respondo rindo.
"What?"
"Você quis dizer, específico e não especílico."
"Yes, foi isso mesmo."
"Você até que fala bem português garoto irlandês... qual é seu nome afinal?"
"É John, e o seu?"
"O meu é Cecília."-Ele me olha sério e depois tenta reproduzir meu nome que sai super carregado de sotaque inglês.
"Nome bonito, igual você."-Eu arqueio as sobrancelhas e viro o rosto para não rir de vergonha. Ele está me zoando?
"E então John, onde você vai ficar aqui nessa minúscula cidade nesses seis meses?"-Mudo de assunto.
"Nesse lugar aqui..."- Ele tira do bolso um folheto que eu reconheço na hora... depois de tanto ouvir do meu pai que ele não gastou dinheiro a toa pagando aquele curso de computação para mim, eu finalmente fiz, eu mesma o folheto do hotel dos meus avós que eles tinham tentado mandar para gráfica sem sucesso por não saberem mexer na internet.
"Sabe onde fica?"- Ele pergunta.
Eu dou uma risada.
"Ah eu sei sim... aliás estou indo para lá também."
"Também está hospedada nesse hotel?"
"Hmm... digamos que sim."
"Por que disse assim? Não disse só sim ou não?"
"Ah, é que... bem pra mim esse hotel é mais que só um hotel onde eu fico hospedada sabe..."
"Pra falar a verdade não."-Ele franze a testa e diz com seu sotaque inglês, então nós paramos numas cadeiras na rodoviária onde ele apoia sua mala enorme e eu penso antes de respondê-lo.
"É que esse hotel é o hotel dos meus avós, daí sabe, quando vou pra lá me sinto... não sei explicar."-Ele sorri.
"Se sente na casa dos avós... e a casa dos avós é sempre o melhor lugar do mundo."-Eu sorrio de volta.
"Sim, acho que é exatamente isso."-Nós nos olhamos por mais um segundo e depois desviamos os olhares para olhar por aí.
"Bem..."-Eu digo corada por tão rapidamente me sentir atraída pelo garoto. "Meu avô vai vir me buscar aqui, ele chega em dez minutos, só preciso ligar pra ele e... você pode pegar uma carona com a gente já que estamos indo para o mesmo lugar. Se quiser"-Ele sorri e fica um pouco sem graça também.
"Ah... seria bom pra mim... se seu avô não se importar."
"Acho que tudo bem, vai sobrar mais um lugar na caminhonete mesmo, vai dar certinho."-Eu digo e pego meu celular para discar o número do hotel...
"Você vai ficar aqui por muito tempo?"-Ele me pergunta quando desligo a ligação depois de um minuto falando com vovô.
"Só seis meses a mais que você."-Eu sorrio.
"Você veio morar com seus avós?"
"É... estava cansada da cidade grande... lugares cheios, a mesma correria, muita gente ao seu redor mas a sensação que ninguém está realmente ali sabe..."
"Sim... eu entendo você."-Ele me olha e sorri. "Quantos anos você tem?"-Ele pergunta colocando as mãos nos bolsos da calça.
"16..."-Digo e balanço a cabeça me lembrando. -"17... sabe quando você faz aniversário e precisa de um tempo para se acostumar com a nova idade? Eu acho que preciso de mais que a metade do ano para me lembrar disso."
"Entendo."-Ele ri e eu também. "Eu tenho 18 mas me sinto com 10 tentando me virar na rua sem meus pais."
"Por causa do país diferente né?"
"Sim..."
"Você está se virando bem até agora, e tem muita sorte de ter 18."
"Sorte? Mas por quê?"
"Bom... primeiro porque você pode dirigir, segundo porque pode comprar bebida, terceiro porque pode entrar nos lugares proibidos, e bem... você meio que pode tudo agora, até ir preso."
"18 anos é a idade da liberdade não é?"
"Com certeza, olha que sorte... agora você está num país diferente e com uma idade onde pode tudo... quer dizer tudo menos sair pelado na rua, dirigir sem carteira, assaltar um banco, roubar um carro, matar uma pessoa, usar drogas, vender drogas e mais um monte de outras coisas... de resto pode tudo."
"Oh não, essa que você citou era exatamente a lista de tudo que eu queria fazer aqui no Brasil, obrigado por me decepcionar, agora vou entrar em outro ônibus desses e encontrar um país mais liberal."- A gente se olha sério por uns instantes e caímos na gargalhada juntos depois.
Até que uma buzina alta nos interrompe, olho para o lado e vejo a caminhonete vermelha de meu avô estacionar ao longe.
"Vamos garoto irlandês, nossa carona chegou."-Eu digo e vou andando rápido mas ele pega minha mão e
me faz virar de volta pra ele me obrigando a observar seu lindo rosto.
Ele cora vendo o que acabou de fazer para chamar a minha atenção, mas não larga minha mão e me olha de volta com seus penetrantes olhos azuis antes de abrir a boca para dizer:
"Espere um pouco... é que... essa mala é meio pesada e..."-Eu olho para a mala dele em cima da cadeira da rodoviária e depois revezo o olhar entre nossas mãos dadas e seu rosto.
"Ah... sim, esqueci da sua mala enorme."-Dou um sorriso envergonhado e ele enfim solta minha mão para pegar sua bagagem.
Eu carrego minha mochila jeans nas costas e minha mala de rodinhas cor de rosa e ele sua gigante mala amarela e sua mochila preta nas costas, e nós vamos o caminho até a caminhonete todo que nem dois bobos olhando para o chão e depois olhando um para a cara do outro e sorrindo. Que ótimo! Comecei repentinamente agir como uma debilóide.
"Lilía."-Meu avô, diz o apelido que tanto odeio quando chego perto da caminhonete e abre a porta pra mim mas não sem antes me dar um abraço apertado.
"Olá vovô... estou com saudades."
"Ora, eu também minha filha, sua avó esta animadíssima com a sua chegada."- Ele olha para o meu lado e vê John. - Acho que esse é o coleguinha de quem você falou no telefone não é?"
John envergonhado diz um "olá." Que mais parece um "hello" e minha vontade é de me jogar em baixo do ônibus que está saindo da rodoviária por ter que ouvir meu avô chamar o garoto de "meu coleguinha".
-"Vovô, esse é o John, ele é um hóspede do hotel e eu achei que como estamos indo pro mesmo lugar o senhor poderia dar uma carona pra ele."
"Claro, claro filha, vamos rapaz."-Vovô dirigiu seu incrível olhar paternal para John e disse:
"Vai entrando na minha caminhonete, ela é simples mas é bastante confortável."
"Obrigado."-John diz com seu sotaque e depois de colocar as malas atrás ele se senta ao meu lado.
Quando vi meu avô, eu comecei deduzir que foi uma má ideia convidar o John para vir conosco, mas depois de 10 minutos com eles no carro eu vi o contrário. John não ficou acanhado e quieto como imaginei, muito pelo contrario, ele começou nos perguntar um monte de coisas sobre a cidade e sobre a vida do vovô no hotel, além da caminhonete, outros carros e sobre as praias e a variedade de cidades que temos no Brasil com tantas culturas diferentes.
Quando finalmente chegamos, John olhou pela janela o hotel e assim como eu deu um sorriso.
Eu me lembrei de como ele era lindo e o John viu com seus olhos pela primeira vez.
"Seu hotel é bastante legal."-Disse se dirigindo ao meu avô e olhou para mim me dando um sorriso gratuito, o qual eu retribuí bastante corada.
Voltei o olhar ao hotel. Ele era composto de três andares, todo pintado de azul e branco, o primeiro andar era envolto por uma enorme varanda coberta, sustentada por pilares de madeira com detalhes de bambu e que cercava todo hotel até a parte de trás onde dava para um píer. O segundo andar, tinha persianas azuis com vasos de margaridas em baixo de cada janela e as mesmas cortinas brancas esvoaçantes, enquanto que o último andar tinha como principal característica sacadas altas e em forma de arco. Eu me lembrei que quando tinha 9 anos ficava no último quarto do terceiro andar e aparecia na última sacada todas as noites imaginando que eu era uma princesa da Disney e que meu príncipe iria escalar o hotel e querer me levar dali, então eu me imaginava empurrando ele e dizendo "eu não quero ser levada daqui! Vou morar aqui pra sempre", mas quando dizia isso aos adultos eles me repreendiam dizendo que eu não podia imaginar jogar as pessoas de alturas como essa nem de brincadeira. Então parei de dizer minhas imaginações aos adultos.
John abre a porta da caminhonete e salta de lá facilmente assim como vovô, enquanto que eu observo a altura e tento com jeitinho dar um pulo que não faça meu vestido voar.
John se vira para mim e vendo minha dificuldade da dois passos na minha direção, ele levanta sua mão para segurar a minha e leva a outra para minha cintura me fazendo dar um pulinho e aterrissar suavemente no chão a milímetros de distância de seu corpo, ele leva um segundo até soltar as mãos da minha cintura e da minha mão e quando a solta caminha para longe indo em direção ao meu avô enquanto que eu fico ali parada esperando minha avó conseguir atravessar a varanda e correr para me abraçar e não soltar mais por um longo tempo.

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⏰ Última atualização: Jul 24, 2018 ⏰

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