- Corram! Corram!- implorava uma voz feminina cansada.
- Isso, corram, tão longe ninguém vai ouvir seus gritos!- ria um soldado atrás dos fugitivos.
Uma hora atrás duas famílias estavam reunidas no porão de uma casa, todos muito humildes e pobres. Planejavam fugir da região dominada por um donatário cruel e rude, que cobrava impostos tão altos que tiveram que vender cada móvel da casa, e hoje dormiam em palha seca.
"Por que continuam morando aí então?!" você deve estar se perguntando. Isso tudo é devido a uma lei que só era válida naquela região: "ninguém pode abandonar a cidade a não ser que esteja viajando a negócios ou visitando um parente, nesse caso, o familiar mais novo deve permanecer aqui, como uma garantia de que os mesmos que saíram voltarão."
Enfim, voltando ao porão, eles sairiam durante a noite, e entrariam na floresta, correriam em direção a um rio, que delimitava a área de influência do donatário e depois disso estariam salvos.
Porém, como está história é escrita por mim, tudo saiu fora do planejado.
Depois que entraram na floresta, pensando estarem sozinhos, relaxaram, e diminuíram o passo, já que as crianças já reclamavam de dor nos pés. Não estavam nem na metade do caminho ainda quando uma armadilha prendeu uma das pernas do pai de uma das famílias, que ia na frente. Um grito desesperado e áspero correu pela floresta, chegando aos ouvidos de dois guardas que faziam ronda na orla da floresta.
- O que foi isso?
- Não sei, o toque de recolher foi soado fazem duas horas.
- Vamos.
Os dois guardas então caminharam floresta adentro, as famílias não sabiam o que fazer, o pai havia pisado em uma armadilha pra animais, da sua perna jorrava um líquido escarlate, e obviamente, ele não podia andar.
- Filho, pegue esse galho! Depressa!- ordenou o pai da outra família.
- Rápido, por favor, ele está sangrando muito!
O homem, agora livre das lâminas da armadilha, mordia um pano enquanto sua esposa amarrava a barra do seu vestido para parar o sangramento.
- Estou quase acabando, quase, só mais um pouco meu amor, depois ficaremos juntos.
Os olhos castanhos acalmaram o coração dele, apesar de ter perdido sua perna do joelho pra baixo, ainda tinha sua amada.
- Vocês aí! Parados, não ousem correr.
Os guardas aviam encontrado os fugitivos.
O outro homem pegou seu amigo ferido e passou o braço dele por trás do próprio pescoço. Então começaram uma corrida pela própria vida, as crianças corriam segurando em suas mães, e os dois homens tentavam desviar de raízes e galhos enquanto avançavam em direção ao rio.
- Corram! Corram!- implorava uma voz feminina cansada.
- Isso, corram, tão longe ninguém vai ouvir seus gritos!- ria um soldado atrás dos fugitivos.
Os guardas, diferentemente dos fugitivos, tinham reforços, a perna amputada sangrava, e todos estavam cansados.
Quando se viram cercados, todos encostaram uns nos outros, acalmando as crianças e dizendo que tudo ficaria bem, mesmo que aqueles fossem os últimos momentos de cada um.
Estavam em um barranco, sem saída, o ceifador já erguia sua foice impiedosa.
- Não deviam ter fugido, temos ordens de eliminar qualquer fugitivo, como exemplo.- disse um dos homens uniformizados, seu tom até parecia decepcionado.
- Por favor, por favor! Não nos matem, por favor!- os gritos e lamentos não foram suficientes, "ou eles ou minha família" pensaram alguns guardas.
Um a um, foram jogados no penhasco, e, antes que a lâmina ceifasse a vida da sua esposa, o homem aleijado pode ver nos olhos dela o desespero mais puro. Então o corpo dela caiu, sem vida, nas mãos da escuridão.
"Não darei a eles o prazer de me matarem" pensou Erick antes de rolar pra dentro do precipício. Infelizmente ele sobreviveu, algo amorteceu seu corpo, o buraco não era tão profundo quanto todos pensavam, e ele caiu sobre os corpos de sua família e parentes, e teve que esperar, condenado a ficar sobre os corpos daqueles que ele mais amava, só lhe restaram as lágrimas e os gritos aos deuses.
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Historinhas
Short StoryHistórias provavelmente épicas ou fantásticas, na maioria meio triste e tals hahaha.
