Prólogo

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Foi em um dia de março. Não sei de que ano, mas foi em março. Estava entediado em minha mesa no Banco, quando olhando para fora me dei conta de como somos seres insignificantes perante a magnitude do vasto cosmos. É eu sei, papo chato esse, mas é um fato indubitável de que somos apenas poeira cósmica. E isso é incrível, pois vivemos cada dia que se passa tentando ser alguém na vida, para que possamos nos satisfazer inconscientemente da necessidade de querer ser mais do que uma simples poeira cósmica. Fatos assim movem nossas vidas sem percebermos, e a forma como cada um tenta atingir este peculiar objetivo é o que pode surpreender. Bom o fato é, me chamo Victor. Com meus 26 anos, posso dizer que tinha uma vida patética. Trabalhando no Banco a um pouco mais de dois anos, não consegui sequer realizar meus desejos de adolescente. Não comprei um apartamento em Ipanema. Não comprei uma Ferrari, muito menos sou um magnata que usufrui da grana que ganha com investimentos bem sucedidos e gasta com mulheres e bebidas. Não eu não passo de um agente bancário assalariado de merda. Isso mesmo. Sou um quase fracassado, salvo apenas pelo empreguinho que me rende uma boa grana o que me possibilitou comprar um apê no centro, de São Paulo. Mas meu muquifo é bem ajeitado, menos as infiltrações e o cheiro de mofo no quarto. Ah sim, eu possuo um lugar maneiro. Mas voltando ao que interessa, eu estava entediado olhando para fora quando me deparei com uma cena engraçada, a multidão que passava se esbarravam uma nas outras e não ligavam, permaneciam em seus mundinhos de forma intocável, ignorando a tudo e todos que não eram relevantes para eles. Algo tão egoísta e ao mesmo tempo tão banal. Eram sombras vagando pelas ruas de São Paulo. E eu era outra sombra, que passou a observar sombras. Ao me deparar com essa situação, comecei a rir e foi só então que notei sua presença na minha mesa. Ela devia estar lá a pelo menos cinco minutos. Ana Clara. Nunca me esquecerei do sorriso desconfiado que ela dera ao ver minha reação de espanto por ter bancado o louco que ri sozinho olhando pro nada. Vergonha alheia é uma desgraça.

Bom Ana era uma das minhas clientes mais fieis, e como bom bancário que se preze, eu zelava por nossa amizade profissional ser tão promissora. Ela pretendia abrir o próprio negócio, e passava no banco frequentemente para ver se conseguia um crédito. Naquela manhã, o Banco havia liberado para ela uma quantia boa o suficiente para dar entrada nos planos dela.

- Eu não acredito! - Disse ela - Não esperava esse valor. Isso é maravilhoso.

- O Banco liberou uma boa quantia - falei sorrindo ao ver a reação dela - vai finalmente poder dar inicio ao seu sonho.

- Sim! Nossa ainda não acredito que deu certo.

- Melhor acreditar, ou nunca vai realizar seu sonho. - Falei em meio a risos.

Ana estava tão feliz, e eu observando-a senti que estava feliz por ela. É uma coisa comum de acontecer, porém, eu não sentia a mesma reação por outros clientes, apenas por ela. E foi a partir dai que descobri que estava apaixonado por Ana.

Após dar andamento no processo de empréstimo para Ana, eu sai para meu almoço - míseros 30 minutos de pausa, sim um absurdo -, fui fumar um cigarro, ou dois, não sou dependente, mas confesso que ao entrar no Banco passei a fumar um pouco a mais do que o normal. Enquanto fumava eu voltava a observar as pessoas, e ainda via sombras caminhando. Corpos sem vida perambulando sem rumo por uma imensidão incomum. Mas em meio a essas sombras algo me chamou profundamente a atenção. Um anjo caminhava por entre as sombras errantes. Lisos loiros, pele levemente queimada do sol, lábios vermelhos e carnudos, bochechas rosadas e olhos azuis misteriosos. Nunca havia visto aquela mulher pelas redondezas. Ela desfilava calmamente, vindo em minha direção. Ao passar por mim nossos olhos se cruzaram. Foram os dois segundos mais demorados que já vi. E de uma coisa eu tenho certeza, eu babei minha camisa olhando o traseiro dela.

Você deve me achar um cretino, em um momento eu aceito o fato de estar apaixonado por uma mulher, minutos depois eu viro um cão que fareja uma cadela no cio. Bom, a carne é fraca meu amigo. Eu era solteiro e fazia alguns meses que não saia com nenhuma mulher. Mas logo logo você cantará louvores para mim, apenas aguarde.

Após encerrar meu expediente, e me dirigir para meu muquifo, eu pensei em Ana, pensei se teria alguma chance com uma garota tão perfeita quanto ela, ou talvez com a loira angelical que me roubara o fôlego mais cedo. Eu não era popular entre as mulheres, com um metro e oitenta e nove centímetros de altura, e físico um tanto quanto magro, eu não me destacava dos demais. A única coisa que tinha a meu favor era minha gentileza, que o estresse se encarregava de apagar aos poucos. Precisava encontrar um emprego mais agradável. Mas foi pensando nisso que eu tive uma das surpresas mais estimulantes do meu dia. Em um bar perto do meu apartamento, em uma mesa solitária, estava Ana, tomando um copo de cerveja, enquanto encarava o vazio. Ao vê-la ali, sozinha, resolvi me aproximar - essa era minha grande chance de tentar algo mais pessoal com ela. Aproximei-me sem que ela percebesse e falei - Comemorando sozinha hoje?

Ela se virou com o susto e quando viu que era eu abriu um sorriso lindo. Não esperou um segundo a mais para me convidar a acompanha-la.

- Acho que agora não mais, não é? - disse-me ela deixando transparecer sua embriaguez.

Sentei-me sem fazer cerimônia. Pedi mais uma cerveja, e foi naquela noite que conheci o Éden e o Inferno na mesma mulher.

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⏰ Last updated: Dec 23, 2017 ⏰

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