- Seus olhos são de uma assassina, Tálassa, mas seu coração é inteiramente rendido a mim.
Vingança. Esse é o único pensamento da princesa destronada, humilhada, quebrada e cheia de cicatrizes que refez seu destino e se tornou a assassina m...
Dedicado a todas as pessoas que por um momento foram fiéis ao que acreditam. Vocês colocam os mais sombrios demônios nos mais belos anjos e os fazem voar.
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Assassina! Esse era o pensamento de Tálassa ao visualizar sua imagem em um espelho sujo e quebrado de um bar nojento em uma simples estradinha mediocre.
Limpou o sangue do canto de seus lábios com o babado das mangas de seu vestido. Havia uma coisa diferente em seus olhos: parecia cada vez mais perdida, havia feito coisas terríveis e tentou a todo custo ser uma pessoa racional, mas era dotada por uma enorme raiva e descontrole, ainda mais após o soco no rosto que levou daquele bêbado desgraçado.
Era a quinta vez que metia-se em uma confusão dentro de um boteco. Não conseguiu controlar o impulso quando notou a forma descarada com que eles olhavam seus seios durante um jogo de cartas. Homens que se acham superiores ficariam lindos sem a cabeça.
— Senhorita... Deveria nos deixar provar e embebedar com vosso corpo curvilíneo — Aquela frase unida à agressão foi o ápice para Tálassa, ela olhou o reflexo no espelho e notou seus olhos mudarem lentamente de cor devido a raiva e adrenalina que estava percorrendo seu corpo. Daria a esses vermes o que eles mereciam e não seria a primeira vez que o faria.
— Aproxime-se meu senhor, eu lhe darei algo que lhe fará derramar-se — Sorriu. Ela virou e manteve uma mão em suas costas, chamou com o dedo um dos quatro homens que a cercavam e ele caminhou até ela como um cordeirinho feliz.
— Eu disse meus companheiros, meretrizes como essa adoram um agrado mais forte — o velho deu uma gargalhada altíssima e foi seguido pelos demais. Tálassa aproximou seu corpo ao corpo dele e abraçou sua costas, sorrateiramente retirou a adaga que trazia consigo escondida na parte do fecho de seu espartilho, segurou fortemente os poucos fios de cabelo grisalho fazendo a cabeça se inclinar.
— Senhores, aproveitem! Estou deixando com que experimentem de meu corpo curvilíneo — ela sorriu genuinamente e de forma rápida enfiou a adaga no pescoço inclinado do velho, cortando-o de orelha a orelha. O sangue espirrou como uma fonte de água deixando o chão escorregadio e com aspecto viscoso. Ela avisou que os faria derramar.
Tálassa olhou para os três homens restantes e inclinou a cabeça ao constar a expressão de espanto em vossos rostos: ninguém imaginaria que uma mulher com aquele rostinho pudesse fazer algo tão cruel e frívolo. Pegou sua espada –também oculta na bainha embaixo do saiote de seu vestido– e atacou ambos, os dois primeiros morreram instantaneamente quando a lâmina afiada perfurou os corações sem nenhuma piedade.
Por que deveria ter? Eles não teriam piedade dela, basicamente a estuprariam e jogariam seu corpo desnudo e morto numa vala rasa. Tálassa passou a mão em seu cabelo, tirou a mecha que caiu em seu rosto e levantou as sobrancelhas encarando fixamente o terceiro homem.
— Em... em nome do rei Augusto eu ordeno que pare! — Ele gaguejou enquanto empunhava uma espada, a jovem riu. O covarde tinha uma espada e preferiu deixar seus amigos morrerem sem lutar pela vida deles? Não valiam muita coisa, era certo, mas o esforço teria ao menos sido engraçado. Ela o observou bem: camisa de linho branca e abotoaduras de ouro, ele parecia pertencer ao grupo de elite do Reino e isso explicaria acima de tudo, a sua covardia.
— Em nome do rei? — ela gargalhou, a única coisa que faria em nome do rei seria matá-lo. Pelos deuses, ele era um degenerado egoísta e nojento. Tálassa sentiu seu corpo ser jogado para trás com o chute que o homem lhe deu e escorregou no sangue do chão, novamente estava visualizando seu rosto naquele espelho quebrado. Gritou de raiva e usou o impulso de seu corpo para atacar aquele bastardo e tirar sua espada da bainha.
As espadas produziam faíscas com a violência que batiam uma na outra. A moça estava a espera de um deslize para cortar a cabeça dele num só golpe, tamanho era seu ódio. O chão escorregadio obrigou Tálassa a atacar várias e várias vezes enquanto andava para fora do boteco. Surpreendeu-se quando o salto de sua bota bateu em uma pedra e quebrou a levando ao chão.
Malditos sapatos frágeis! Ela pensou. O ato de deslize foi dela e ao voltar sua atenção para a espada do oponente notou que ela estava apontada diretamente para seu pescoço. Ah não!
Tomada pela adrenalina, jogou uma de suas mãos em frente a lâmina da espada e a afastou de seu pescoço enquanto chutava o joelho do desgraçado, a dor foi maior que qualquer outra já sentida antes, mas pelo menos sua mão não foi decepada durante o processo, havia sido um corte profundo mas não parecia tão grave.
"Não desista! A dor é apenas fruto do seu corpo fraco. Torna-se forte. Torna-se o que não conseguiu ser no passado. Você é uma rainha, inferno"
Ela aproveitou o chão de terra molhado para rolar em sentido oposto e chutar o peito do homem, que caiu. Levantou rapidamente, posicionou suas botas na barriga do adversário e desceu sua espada com força no pescoço dele. Pegou o lenço branco do traje do cadáver, limpou a lâmina de sua espada e jogou-o de volta com desdém no corpo sem cabeça, o peito da jovem subia e descia conforme a adrenalina circulava em seu sistema sanguíneo.
Era uma assassina há anos e nunca aprendeu a controlar a adrenalina após uma briga. Talvez nem fosse possível.
Jogou o cacho de seu cabelo para trás pois havia caído novamente em seu rosto e suspirou ao retirar as as botas. Teve que levá-las na mão, andando totalmente descalça, descabelada e repleta de sangue. Quem a visse pensaria que acabou de sair de uma foda violenta, não imaginariam que estava trepando com a morte.