I. Cordelia

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Eu nunca me envergonhei por ter venerado Cordelia Crawford. Alguns a chamavam de bruxa, outros de prostituta da nobreza – eis aí um título que me ofendia ao fundo de minha alma, no entanto, para mim, ela nada menos era do que uma musa.

Lembro-me com clareza da primeira vez que a vi na Mansão Crawford. Já haviam se passado dois longos e angustiantes anos desde que tudo aquilo acontecera. Eu, um recém reconhecido médico, fora chamado pelo famoso Dr. Crawford, duque e advogado de maior renome de Sussex, protegido dos nobres, amado pelo povo e detestado pelos banqueiros do condado. Como o homem era um símbolo de honestidade e cultura, aceitei com prazer, e também com um certo receio em falhar, o trabalho de curá-lo de uma enfermidade crônica que o havia acamado.

Ainda que a cidade possuísse um ar sombrio e seu céu fosse pintado de cinza e não de azul, fui recebido na mansão com cortesia e muito calor. Hospedaram-me em um quarto confortável próximo ao do anfitrião como se eu fosse parte da família. Tudo era dotado de tamanha opulência que, mesmo a um médico com uma boa vida, parecera majestosa. Em meu quarto havia uma cama feita de madeira escura, com espirais douradas talhadas nos pés. Era grande o suficiente para que dois de mim se deitassem com folga, lençóis macios e alvos como a neve cobriam o colchão, um dossel caía em cortinas transparentes com notável elegância. Senti-me um nobre durante o período que tive para me acomodar ali, até que uma das empregadas bateu em minha porta, anunciando que o Dr. Crawford gostaria de ver-me.

Encontrei o homem deitado em uma cama de madeira maciça, estranhamente parecida com a minha. Na verdade, o quarto era igual ao meu, não fosse pelo tamanho. Era perturbador o quanto tudo era exatamente igual e impessoal na mansão, como se os moradores não tivessem personalidades próprias ou gostos próprios. O mesmo dossel na cama, os mesmos móveis de madeira lisa e escura, as mesmas estreitas janelas cobertas por cortinas creme. O cheiro de enfermidade pairava no ar e nem mesmo o dócil sorriso do Dr. Crawford foi capaz de aliviar a opressão que se apoderara de mim no momento em que pisei ali. Tentei sorrir para meu anfitrião, e aproximei-me de sua cama, sentando-me respeitosamente próximo a seus pés quando ele me indicou o lugar com tapinhas.

— Doutor William Clutterham! — exclamou ele, a voz rouca e áspera como lixa denunciava seu estado. Ele tossiu algumas vezes e fez um gesto como se pedisse perdão pela tosse. — Ouvi falar muito bem do senhor. Dizem que apesar de jovem, é muito eficiente, e que combateu a praga sem medo! Ousadia é algo do que preciso neste lugar...

— Tento ser eficiente, senhor — respondi com um sorriso amistoso, apesar do nervosismo.

A energia do duque, mesmo que sendo lentamente sugada, era algo admirável. Ele havia ouvido sobre meus feitos quanto à praga, então. Na época, disseram-me que não fui afetado porque era protegido por algum anjo de cura que me dera tanto a imunidade quanto o dom de curar. Contudo, depois do que aconteceu na Mansão Crawford, eu duvidava que houvesse algum anjo ao meu lado.

Depois de conferir seus batimentos cardíacos, auscultar seus pulmões falhos com o estetoscópio e ver a intensa inflamação em sua garganta, cheguei ao diagnóstico de pneumonia. Havia como curar tal doença, com o tratamento correto e as doses certas da medicação.

— E então, doutor? — perguntou meu anfitrião, deixando-se transparecer apreensivo pela primeira vez.

— O senhor ficará bem — sorri encorajador enquanto guardava meus materiais na maleta. O duque pareceu um pouco incrédulo a princípio, e com razão. Meu diagnóstico fora rápido e simples e o que ele sentia não parecia se encaixar em nenhum de tais parâmetros — É uma pneumonia em um estágio bem avançado, porém não irreversível. Já vi muitos serem atingidos por isso e serem curados. Ficarei aqui até que sua recuperação esteja completa, se não for um inconveniente.

A Musa de SussexStories to obsess over. Discover now